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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

abril 2026
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:: ‘Daniel Thame’

Luiz Viana Neto, TV Cabralia e um ´repirror´ em Ilhéus

dr luizDaniel Thame

dthameTV Cabrália, metade da década de 1990. Depois de implantar e consolidar a emissora como a imagem e a voz do Sul da Bahia, Nestor Amazonas partiu para encarar novos desafios. Ramiro Aquino ocupava a superintendência e eu comandava o departamento de Jornalismo.

 

A liberdade que o dono da emissora, o Dr. Luiz Viana Neto, que já partiu para a Eternidade, nos dava era tamanha que perdia-se o anunciante, tipo prefeitura ou supermercado, porque uma matéria-denuncia ia ao ar, para desespero do departamento comercial, então comandado por Rui Carvalho, hoje boss da RCM, uma das melhores agências de publicidade da Bahia.

 

No espectro político, a TV era quase um apêndice do PT e dos sindicatos, numa época em que PT e sindicatos não eram propriamente bem digeridos.

 

Mas o Dr. Luiz sabia disso e nunca partiu dele um único ato de censura.

 

Até um belo dia (sempre chega o belo dia,  e quase sempre prenuncio de tempestade), o Dr. Luiz convida Ramiro e a  mim para um ´rapirror´ no Hotel Jardim Atlântico, então o mais luxuoso de Ilhéus.

 

Uisque vai, uísque vem (eu odeio uísque, adoro é uma cachacinha, mas não ia fazer desfeita ao doutor Luiz), desce um camarão aqui, um peixinho ali. “Como vai a família?”, “O cacau ainda tem futuro?”, “O Rio Cachoeira está muito poluído?” e outras amenidades.

 

E  eu discretamente olho pra Ramiro como quem diz: “O Dr. Luiz não chamou a gente aqui pra comer e beber do bom e do melhor,  nem pra esse lenga-lenga”.

 

Não chamou  mesmo. Lá pelas tantas, as sutilezas foram jogadas ao mar.

 

Sem elevar o tom de voz, o Dr. Luiz se vira para mim e diz:

 

-Eu sei como você toca o Jornalismo da TV e  respeito suas posições políticas. Mas eu sou de direita e se você quiser continuar fazendo esse tipo de jornalismo compre uma televisão pra você.

 

Comprar uma televisão? Só se fosse um aparelho nas Casas Bahia (olha o jabazinho aí!) e ainda assim a perder de vista no  crediário.

 

Sejamos justos a esse extraordinário ser humano, que nem era tão de direita assim, mas um democrata conciliador que convivia bem com todas as tendências políticas.

 

O Dr. Luiz produziu uma frase de efeito, porque se dono ele era e as orientações eram claras, não foram poucas as vezes que essas ordens foram solenemente ignoradas e em vez de punição, recebi outra frase de efeito:

 

-Você tem um sério problema auditivo, só escuta o que é conveniente.

Em tempo: a TV Cabrália foi um divisor de águas na comunicação regional, mas até hoje o Dr. Luiz Viana Neto não teve o devido reconhecimento nessas quase plagas grapiunas.

 

Se eu tivesse comprado uma televisão…

Manoel Leal e o toca fitas

 

 

Daniel Thame

Essa aconteceu lá pelos idos de 1980 e poucos, nos tempos em que ainda existiam toca-fitas e que ainda dava pra amarrar cachorro com lingüiça.

O inesquecível Manoel Leal, diretor do jornal A Região (Itabuna) teve o seu toca fitas roubado, depois que o ladrão conseguiu abrir a porta do carro, que ele deixava quase sempre  sem trancar.

Leal estava  quase conformado com o roubo, quando ligaram da delegacia e avisaram que apreenderam um monte de toca fitas com um receptador.

Chegando no Complexo Policial, Leal se vê diante de uns 20 toca-fitas. O delegado perguntou:

-“Seu” Manoel, qual desses toca-fitas é o do senhor?

Manoel Leal, no melhor estilo Manoel Leal, respondeu:

-É um que a gente bota a fita  dentro e toca musica.

Dito isto, pegou o toca fitas de melhor aparência e saiu, sem que nada mais lhe fosse perguntado.

O pastor, as ovelhas e ´el Mensajero del Diablo´…

 

Daniel Thame

 

1981, Radio Difusora Oeste, Osasco. Nas emissoras do interior, a Equipe de Esportes é uma espécie de faz tudo. Cobre de eleição a velório. Carnaval, então, é quase uma obrigação.

E lá estávamos nós cobrindo o Carnaval, que em São Paulo é (ou era) nos clubes e não ao ar livre, como na Bahia.

Se já é um porre cobrir carnaval de rua, imagine-se nos clubes fechados, transmitindo aquela barulheira insuportável e entrevistando bêbados que não diziam nada com nada.
A transmissão começava as 10 da noite, parava as 11 e retornava meia-noite, avançando pela madrugada.
A parada de uma hora nada tinha a ver com descanso. Naquela época, as igrejas evangélicas já viam no rádio um excelente veículo para difundir a fé cristã e aumentar o rebanho. E aquele horário era comprado por uma dessas igrejas.
Ocorre que, não contente em divulgar a palavra de Deus, o pastor simplesmente esculhambava a cobertura do carnaval, que por acaso era feita na mesma emissora em que ele estava falando.
O mínimo que dizia no ar era que a gente atuava como mensageiros do diabo. E, ao final do programa, ainda sugeria que as pessoas desligassem o rádio.
Eram cinco noites de carnaval, cinco noites de cobertura, detonando hectolítros de Fogo Paulista, uma mistura horrenda de pinga vagabunda com groselha, que era o que a nossa grana curta dava pra beber..
Na terceira noite, deu um problema no equipamento e fui até a sede da emissora fazer a substituição. Eis que, ao me dirigir à sala da técnica, que ficava nos fundos do prédio, deparo com o tal pastor encostado no muro, fazendo uma oração, digamos, mais íntima com uma de suas fiéis. Quase a tradução literal do “crescei-vos e multiplicai-vos”.
Uma chance daquelas, caída dos céus (ops!) não era para ser desperdiçada. E eu não desperdicei:
-Pastor, se nós somos mensageiros do diabo o senhor é o que, devorador de ovelhas?
Nos dias seguintes, se não fez elogios à nossa equipe pela brilhante cobertura da maior festa popular do Brasil (radialista adora uma frase pomposa!), o pastor pelo menos nos deixou em paz.
E certamente passou a ter mais cuidado em suas pegações, perdão, pregações para as ovelhinhas dadivosas.

Profissão Repórter-Memórias de um 22 de abril…

 

Daniel Thame

 

Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de  46 anos de estrada, 37 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, negros,  sem-terras e estudantes.

Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.

 

Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.

A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos

 

Dois episódios ocorridos na tarde-noite de sexta-feira, dia 21 de abril de 2000, ajudam a entender o festival de selvageria em que se transformou a festa dos 500 anos do Brasil, exaustivamente preparada para coroar o Governo da Bahia e, principalmente, catapultar o senador Antonio Carlos Magalhães para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

 

Por volta das 16 horas, policiais militares fortemente armados bloquearam a rodovia que liga Eunápolis a Porto Seguro. Eles alegavam cumprir ordens da Defesa Civil, já que a cidade não comportava mais ninguém. Tudo perfeito, à exceção de um mero detalhe: Porto Seguro não possui Defesa Civil. O objetivo era evitar que os sem-terra, acampados em Eunápolis, entrassem em Porto. O bloqueio foi estendido a turistas e até aos moradores das duas cidades. Um turista que veio de João Pessoa, na Paraíba, exibiu as reservas de hotel e afirmou que seu direito de ir e vir, garantido pela Constituição, estava sendo desrespeitado.

A resposta do policial merece entrar para os anais da história do Brasil:

-Aqui na Bahia quem manda é o Antonio Carlos Magalhães.

Ou seja, pega a Constituição e…

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Gol do São Paulo

 

Daniel Thame

O ano era 1985. O São Paulo, treinado por Cilinho, decidia o Campeonato Paulista com a Portuguesa, no estádio do Morumbi.

Sãopaulino até a medula, fazia reportagem de campo para  a Equipe Furacão de Esportes,  comandada  por Antonio Julio Baltazar, um gigante na história da comunicação da Grande São Paulo,  que já partiu para a Eternidade,  na Radio Difusora Oeste, emissora modesta, mas briosa, de Osasco.

O São Paulo tinha um timaço, com Falcão, Silas, Muller, Careca, Sidney e Cia, mas a Lusa endurecia o jogo.

E eu não sabia se reportava os lances ou se torcia. O São Paulo fez 1×0 no primeiro tempo com Careca e levava um sufoco até a metade do segundo tempo, quando Sidney fez 2×0.

A comemoração dos jogadores aconteceu ao lado do gramado, justamente onde eu estava. Foi quando minhas dúvidas acabaram.

Larguei o microfone no chão e fui comemorar com os jogadores. Quando o narrador pediu a descrição do lance, silêncio total.

De cara, cortaram a linha e passei o resto do jogo apenas assistindo, até invadir o gramado para comemorar, desta vez o título.

Como eram tempos românticos, levei apenas uma suspensão de três dias. Sem direito a filar a primorosa refeição no restaurante que Baltazar mantinha na avenida dos Autonomistas.

E, pior dos castigos, não me escalaram mais para os jogos do São Paulo.

Rádio Clube, o comentarista, o repórter e a reencarnação de Garrincha

Daniel Thame

Início de 1987. Recém chegado a Itabuna e já trabalhando no jornal A Região, contratado após uma frase típica da Manuel Leal ao saber de onde eu vinha (“se é  de São Paulo começa amanhã”, sem me pedir pra rabiscar um papel de embrulhar pão; como se vê sou de um tempo em que se embrulhava pão com papel).

 

Dito isto, e posto que em Osasco (SP) eu trabalhava como jornalista e radialista, bati às portas da Rádio Clube (depois Nacional) onde me apresentei e, ao contrário de Manuel Leal, fui recebido com desconfiança  por Son Gomes, filho do lendário Daniel Gomes, dono da emissora:

 

-Quem garante que você não vai usar o nome da rádio, dar uns golpes no comércio e se mandar?

 

Hoje parece grosseria, mas na época era quase praxe. O sujeito vinha atraído pela fama de cidade rica por conta do  cacau, conseguia emprego nas rádios e dava golpe mesmo.

 

Respondi com todo jeito possível:

 

-Son eu não vim  pra aventurar, vim pra fincar raízes aqui (como de fato finquei, grapiúna que me tornei)

Consegui o emprego na briosa equipe de esportes, que mesmo enfrentando a concorrência da estrelada Rádio Jornal, vinha dando conta do recado e conquistando audiência. Se em Osasco  eu era repórter de campo, em Itabuna fui contratado como comentarista.

 

Apesar do sotaque do interior paulista, carregado de erres que  mantenho até hoje,  ainda que falando um autêntico baianês, acabei escalado para os cobrir os jogos do Itabuna, que então tinha um time capaz de encarar Bahia e Vitória.

 

E chegamos aos finalmente, os motivos dessa croniqueta.

 

Num  dos primeiros jogos em que trabalhei, Itabuna x Leônico, se não me engano, com dez minutos de jogo o repórter tasca a pergunta:

 

-Daniel, o técnico não deveria ter escalado o Adailton  na ponta direita?

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Reeducandos do Conjunto Penal de Itabuna participam de Roda de Conversa sobre “Ainda Estou Aqui”

Após tomar conhecimento de que a biblioteca do Conjunto Penal de Itabuna já conta em seu acervo com mais de 20 exemplares do livro “Ainda Estou Aqui”, o escritor e jornalista Daniel Thame não pensou duas vezes: chegou a hora de um bate-papo com os reeducandos sobre literatura, leituras e novos caminhos na vida.

O bate-papo com os reeducandos era uma agenda de 2024 que teve que ser adiada, mas calhou de acontecer no momento em que o filme homônimo, estrelado por Fernanda Torres, numa interpretação magistral de Irene, a esposa de Rubens Paiva, que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz, está fazendo sucesso em todo o mundo.

Discutir com pessoas privadas de liberdade um livro com essa importância histórica de um momento mais sombrios do país, poderia ser uma ação ousada demais, se fosse levada em conta a ideia que comumente se faz dos estabelecimentos penais como locais de segregação social pura e simples.

Daniel Thame, autor de livros como “Vassoura, o Apocalipse ao Gênesis da Civilização Cacaueira” e “Jorge100AnosAmado – Tributo a um Eterno Menino Grapiúna”, se mostrou impressionado com nível das discussões ao longo do bate-papo.

“A conversa se desenvolveu num nível elevadíssimo. As análises sobre liberdade física e liberdade mental, sobre o boicote das elites ao desenvolvimento das classes pobres por meio da negativa do acesso à educação, à leitura e à cultura como estratégia de subjugação dessas classes foram, sim, surpreendentes”, afirma Daniel Thame.

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Ainda estamos aqui…

8/1

Naquela mesa está faltando ela…

 

Daniel Thame

A sala era pequena e a iluminação dava um certo ar de penumbra. Mas ela tornava aquele espaço um infinito e iluminado com sua Luz.

 

Ela tinha uma saúde frágil, mas um coração que transbordava generosidade e uma vontade de viver que a fazia suportar dores que escondia, porque se preocupava com tudo mundo e não permitia que ninguém se preocupasse com ela.

 

Era  uma leoa para trabalhar, ignorando dias, horários, finais de semana, feriados.

 

“Precisando, conte comigo”, dizia.

 

E com ela eu sabia que sempre poderia contar.

 

Convivemos juntos por cerca de sete anos.

 

Separados por uma parede de vidro. Ela na sua sala pequena-imensa, eu na minha sala imensa-pequena, cercada por quadros, garrafas de cachaça caixas de charutos e uma mesa cheia de papéis, livros e bugigangas espalhados, que eu  implorava para ela não arrumar mas que ela às vezes não resistia e arrumava.

 

Mas eu sempre bagunçava de novo, nessa bagunça que é minha vida. No sentido literal e no sentido figurado.

 

Éramos pai e filha, mãe e filho, irmãos. Unidos pelas linhas invisíveis do destino que às vezes costura vidas que  (não) se cruzam por acaso.

 

Juntos, compartilhamos alegrias, tristezas, expectativas, frustrações.

 

Ambos com um temperamento  de falar pouco e ouvir muito, conversamos pelos silêncios. E como conversamos nesses longos-breves anos de convivência.

 

Reclamão e chorão incorrigível, comportamento mercurial,  raríssimas vezes  ouvi dela uma queixa que fosse. As suas lágrimas ela escondia atrás de um sorriso.

 

Nossos últimos oito meses foram marcados por uma paixão comum: eu pelo meu neto, ela pela sua sobrinha, nascidos com uma diferença de menos de um mês.

 

Cada qual a sua maneira, Juangui e Helena  foram dádivas que  trouxeram um novo sentido a nossas vidas.

 

Dezembro chegou. Últimas flores de primavera.

 

Pela primeira vez, durante uma formatura  com mais de cem alunos, eu, naquela tensão maluca de fazer em pé um cerimonial de quase três horas,  com a coluna cervical estropiada  me chamando de hijo de puta,  a vi reclamar  por várias vezes  de cansaço e de dores. Mas nem por um minuto deixou de ser a faz-tudo, que fazia além do que lhe cabia.

 

(E que nem sempre era reconhecida como merecia…)

 

Era um sinal.

 

Mas eu que sou tão intuitivo  que me atribuo dotes de bruxo, não percebi sinal algum.

 

Ou percebi, porque no último dia antes do recesso de Natal e Ano Novo, 21 de dezembro, fiz questão de lhe dar um abraço carinhoso, algo raro, porque não éramos dados a esses gestos de afeto. Não fisicamente.

 

Mas a abracei e ela retribuiu.

 

Me lembro muito bem que não nos desejamos Feliz  Natal ou Feliz Ano Novo.

 

Sim,  eu senti uma coisa estranha, mas que na hora atribui à minha notória melancolia com essas baboseiras de festas idiotas em que você se vê obrigado a responder mensagens igualmente idiotas.

 

Foi nosso último abraço.

 

Sumara Serra. Amiga, Irmã, Companheira, Confidente, Anjo.

 

Corpo cansado, começou a sentir dores terríveis no sábado. Levada ao hospital, foi medicada, mandada de volta para casa. As dores aumentaram, voltou ao hospital no domingo, de novo medicada, as dores aumentaram ainda mais e na manhã de Natal, Menino Jesus ao Contrário, sentiu as últimas e terríveis dores, gritou que não estava suportando mais e  fechou os olhos.

 

E então não sentiu mais nada.

 

Quando acordou em outra dimensão, já era Luz.

 

(Numa sala vazia e escura, há um silêncio que agora não fala)

 

Porque a exemplo desse texto arrancado a fórceps de alguém que faz das palavras a sua razão de viver, existem momentos em  que até o silêncio emudece.

 

Até breve, até sempre…

 

Sumara!

Foda-se o Natal!

 

Daniel Thame

 DT ceu         Um menino chamado Jesus passou pelo centro da cidade, entre calçadas, lojas e gente, muita gente.

Olhou vitrines, sonhou com brinquedos que provavelmente nunca terá.

Disputou restos de comida com cachorros em latas de lixo espalhadas pelas esquinas.

Dormiu sob marquises de lojas recém-inauguradas, com o luxo refletindo em seu corpo coberto com pedaços de jornais que anunciam escândalos políticos que não vão dar em nada, violência e mais violência e veleidades nas colunas sociais,

Um menino chamado Jesus pediu esmolas nas sinaleiras, uma camisa velha nas casas de família.

Não pediu, porque já não espera receber, gestos de carinho e atenção.

O menino chamado Jesus se contenta com uma roupa velha, um prato de comida.

Mas, quem é que tem tempo para esse menino chamado Jesus quando o Natal se aproxima?

É tempo de fazer compras, mesmo que comprometendo boa parte do salário no cartão de crédito.

De trocar de carro, escolher a roupa da moda, se programar para o reveillon.

De preparar a ceia de Natal, farta, alegre, muitas vezes esbanjadora.

Não há mesmo tempo para dar atenção a um menino, mesmo que ele se chame Jesus.

Que ele se chamasse João, Paulo, Pedro, José. Pouco importa.

É apenas mais um menino perambulando pelas ruas, sem passado, sem presente.

Provavelmente sem futuro.

É Natal.

Entre presentes e projetos que  quase nunca se concretizam para o ano que está chegando, não há tempo nem para um outro Menino, hoje não necessariamente a razão, mas apenas o pretexto para essa festança.

Um menino igualmente chamado Jesus, menos Divino e mais Humano, que viveu e morreu em nome de valores como igualdade, solidariedade, fraternidade, simplicidade.

O Jesus Menino e o menino chamado Jesus estão separados por quase dois milênios.

Ignorar as lições de do Jesus Menino explica a existência do menino chamado Jesus e de tantos e tantos outros meninos e meninas que perambulam pelas ruas.

Meninos e meninas, de todas os nomes, para quem não apenas Papai Noel mas também o Natal é apenas uma abstração em meio à fome e ao abandono.

As luzes de Natal lançam apenas sombras sobre uma realidade que fingimos não ver, cegos que estamos pelo egoísmo.

É Natal.

E daí?

Foda-se o Natal!





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