:: ‘Porto Seguro’
500+10: o dia em que o Brasil enfrentou o Brazil
Daniel Thame

Na foto de Lula Marques, o índio Terena no chão, cercado de policiais:
truculência que atravessa os séculos
Estava tudo devidamente acertado. Naquele 22 de abril do ano 2000, em Porto Seguro, e elite empresarial e política do Brasil faria a festa vip dos 500 anos do “descobrimento”, com direito a coquetéis em hotel de luxo, passeio pelo centro histórico e uma apresentação musical numa caravela à beira-mar.
À patuléia, índios, estudantes, trabalhadores, sem-terras, estava reservada a figuração no cenário montado para celebrar o Brasil Primeiro. Mundo, existente apenas na presunção do então presidente Fernando Cardoso. Segregado por um espantoso aparato de segurança, o povo ficaria no lugar onde sempre esteve, a senzala, enquanto as autoridades e os convidados se refestelariam na casa grande.
Se estava acertado, faltou combinar com o povo.
Que naquele dia especialmente, decidiu não concordar com o papel que lhe fora reservado. O bloqueio do acesso a Porto Seguro via Eunápolis, que tinha o objetivo de barrar os sem-terras, mas barrou mesmo foram moradores locais e turistas; somado à proibição de uma marcha entre Coroa Vermelha e Porto Seguro, serviu como estopim de um barril de pólvora prestes a explodir. As palavras do pataxó Luiz Tiliá funcionaram como o fogo que acende o estopim e explode o barril.
-Amanhã nós vamos fazer uma caminhada até Porto Seguro e a polícia não vai deixar. Quero que cada tribo junte os dez guerreiros mais fortes. Eles vão na frente, porque nós vai passar de qualquer jeito.
Não passariam. Um vidente previu chuvas e trovoadas em Porto Seguro no dia 22 de abril do ano de 2000.
Acertou na previsão do tempo e na metáfora.
A documentarista inglesa Vik Birkbeck, radicada há mais de quarenta e cinco anos no Brasil, estava em Porto Seguro e produziu imagens que foram utilizadas no documentário “500+10”. “A imagem que ficou, que rodou o mundo, e foi estampada na capa dos jornais nacionais e internacionais como a imagem definitiva, símbólica dos 500 anos do dito descobrimento do Brasil foi a foto de Lula Marques do índio Gilson Terena sendo pisoteado pelo avanço da tropa de choque, na chuva, em meio de uma nuvem de gas lacrimogênio: o corpo quase nu, torso magro, calção preto, estendido no asfalto molhado, debaixo dos pés dos jovens sarados, armados para combate, de bota, escudo, capacete avançando no melhor estilo Robocop”, relata Vik.
Para ela, “ todos os elementos do desfecho estavam já presentes. Havia indícios prévios da truculência oficial”. Faziam três anos que o índio pataxó Galdino, de Pau Brasil, havia sido queimado vivo em Brasília por rapazes de famílias de classe media, que como explicação para o assassinato alegaram tratar-se de uma brincadeira. No dia 17 de março o Governo Federal instalou uma imensa cruz de aço na aldeia dos Pataxós hã hã hãe em Coroa Vermelha. “Ao tentar erguer o seu próprio monumento aos 500 anos de resistência indígena, os Pataxós viram suas terra invadidas por 200 policiais militares que derrubarem o monumento em construção com um trator”, lembra a cineasta.
Por onde Cabral chegou ao Brasil? Pesquisa contesta versão tradicional de Porto Seguro

Pintura do desembarque de Pedro Álvares Cabral no Brasil. Foto: Divulgação
Um estudo publicado em setembro no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, reacendeu o debate sobre o ponto exato onde a frota de Pedro Álvares Cabral teria alcançado o território que se tornaria o Brasil. A pesquisa, conduzida pelos físicos Carlos Chesman (UFRN) e Carlos Furtado (UFPB), questiona a versão consolidada de que o primeiro desembarque ocorreu em Porto Seguro, no sul da Bahia.
Segundo os autores, simulações baseadas na carta de Pero Vaz de Caminha, aliadas a dados sobre ventos, correntes e profundidades, indicariam que o contato inicial se deu na costa do Rio Grande do Norte, entre Rio do Fogo e São Miguel do Gostoso.
Os pesquisadores afirmam que o “grande monte, mui alto e redondo” citado por Caminha, tradicionalmente associado ao Monte Pascoal, corresponde, na verdade, ao monte Serra Verde, em João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte.
Bahia é contemplada com R$ 1,3 bilhão do Novo PAC Seleções para obras de drenagem e contenção de encostas
O resultado das propostas do Novo PAC Seleções 2025, voltado para obras de micro e macrodrenagem e contenção de encostas, foi anunciado na tarde desta quinta-feira (18), pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia realizada em Brasília, com as presenças do governador Jerônimo Rodrigues, dos ministros da Casa Civil, Rui Costa; e das Cidades, Jader Filho. Para a Bahia, foram destinados R$ 1,3 bilhão para a realização de intervenções em 29 municípios.

“Quero parabenizar o presidente Lula por mais essa iniciativa do Novo PAC, que chega para transformar a vida de milhares de famílias baianas. Esse investimento de R$ 1,3 bilhão em obras de drenagem e contenção de encostas é uma demonstração de cuidado com o povo, de compromisso com a segurança das nossas cidades e de valorização da vida”, afirmou Jerônimo Rodrigues.

Na Bahia, além da capital, foram contemplados projetos inscritos nas cidades de Jacobina, Juazeiro, Santo Amaro, Camaçari, Camacan, Itabuna, Eunápolis, Ipiaú, Ilhéus, Ubaíra, Itororó, Mundo Novo, Candeias, Vitória da Conquista, Medeiros Neto, Dário Meira, Itapetinga, Gandu, Porto Seguro, Bom Jesus da Lapa, Pau Brasil, Santa Cruz Cabrália, Valença, Ibicaraí, Nazaré, Nilo Peçanha, Simões Filho e Teolândia.
TRF-1 reconhece direito dos Pataxós em área de Porto Seguro

Terra Indígena Pataxó é reconhecida|| Foto Cimi
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região reconheceu o direito do povo Pataxó à posse da área da Fazenda Paraíso, localizada na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, em Porto Seguro, no extremo-sul da Bahia.
No acórdão, o TRF1 rejeitou recurso do fazendeiro, que foi expulso da propriedade em 2002 e ajuizou ação de reintegração de posse contra a União, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas e a Comunidade Indígena Pataxó. Ele alegou posse legítima da Fazenda Paraíso por 17 anos.
O TRF1, no entanto, reconheceu que o imóvel está em área tradicionalmente ocupada pelos povos originários Pataxós, conforme laudo pericial homologado, tornando ilegal a sua posse por terceiros. Na prática, a decisão colegiada reconhece os efeitos da demarcação da Terra Indígena antes de sua homologação oficial.
‘ Diálogos’ com ACM

Porto Seguro, 22 de abril de 2000. 500 anos do Descobrimento do Brasil. Enquanto autoridades e convidados vips participam de uma celebração no Hotel Vela Branca, o povaréu é isolado por barreiras e um forte contingente policial nas ruas.
Festa correndo solta no hotel e ao mesmo tempo a Polícia Militar baixando o cacete em índios, sem-terras, negros e quem mais se atrevesse a protestar contra o que consideravam uma invasão/exploração e não um descobrimento.
Uma violência policial tão desmedida que no dia seguinte ganharia as manchetes da imprensa mundial.
Gravador em punho, aproximo-me de Antônio Carlos Magalhães, então o Rei da Bahia e fiador daquela festança toda e, per supuesto, também daquela pancadaria toda.
Certo de que vai receber uma pergunta elogiosa, ACM exibe o melhor dos sorrisos, exala simpatia.
E eu transpiro jornalismo:
-Senador, como o senhor avalia o fato de que enquanto as autoridades festejam aqui no hotel, pessoas simples estão sendo agredidas pela polícia e impedidas de protestar pacificamente?
O sorriso some, mas ACM permanece impassível, olha para o crachá para ver em qual veículo de comunicação eu trabalhava (na época, a TV Cabrália), uma atitude típica dele, e quando providencialmente começa a tocar o Hino Nacional, responde entre os dentes:
-Você não vê que estou ouvindo o Hino Nacional?
E completou baixinho, dando um leve chute na minha canela, antes de me dar as costas com o desprezo de quem se achava acima do bem e do mal:
-Seu moleque, filho da puta…
A resposta que ACM não me deu, o povo baiano, força indomável da liberdade, lhe daria seis anos depois e continua dando até hoje nos seus herdeiros políticos….
Mais de 300 pessoas participam de homenagens a Vitinho em Caraíva
Cerca de 30 mil pessoas assinam abaixo-assinado entregue ao Ministério Público da Bahia

Por Luiz Soares
Já passa de 29 mil o número de pessoas que assinaram o abaixo-assinado na plataforma Change.org por justiça no caso do assassinato de Victor Cerqueira Santos Santana “Vitinho”, jovem negro, guia turístico local e morador querido de Caraíva, distrito de Porto Seguro (BA). Sete dias após sua morte, mais de 300 pessoas – incluindo amigos e familiares -, participaram de missa e manifestação em homenagem a Vitinho.
A Bahia tem liderado o ranking nacional de mortes por intervenção policial nos últimos anos. Em 2024, o estado registrou 1.557 mortes decorrentes de intervenções policiais, mantendo-se com o maior número absoluto de casos no país. Esse número representa uma redução de 8,5% em relação a 2023, quando foram contabilizadas 1.702 mortes desse tipo.

O abaixo-assinado foi criado por Miguel Neto, que também o encaminhou à 8ª Promotoria de Justiça de Porto Seguro. O documento solicita providências do Ministério Público da Bahia, com foco na investigação rigorosa e independente dos fatos.
“Vitinho era uma das figuras mais queridas de Caraíva. Trabalhador, alegre, respeitoso. Sua morte não pode ser esquecida, nem tratada com silêncio. É um pedido de justiça que parte da comunidade e já ecoa por todo o Brasil”, afirmou Miguel Neto, autor da petição.

A repercussão do caso segue crescendo nas redes sociais e na mídia, mobilizando vozes da sociedade civil, artistas, turistas e lideranças comunitárias. A expectativa é de que as autoridades tratem o caso com a seriedade e o compromisso que a situação exige. Entre os apoiadores do abaixo-assinado diversos comentários pedindo justiça e reforçando a inocência de Victor..
Homenagens a Vitinho reúnem familiares e amigos em Caraíva
Já passa de 27 mil o número de pessoas que assinaram o abaixo-assinado na plataforma Change.org por justiça no caso de Victor de Luzia, conhecido como Vitinho, jovem negro, guia turístico local e morador querido de Caraíva, distrito de Porto Seguro (BA). Ele morreu durante uma operação policial, em circunstâncias que levantaram questionamentos e indignação tanto na comunidade local quanto em diversas regiões do país. Neste domingo (18), amigos e familiares realizam homenagens, como uma manifestação e missa por Vitinho, na Igreja de São Sebastião, em Caraíva.
A Bahia tem liderado o ranking nacional de mortes por intervenção policial nos últimos anos. Em 2024, o estado registrou 1.557 mortes decorrentes de intervenções policiais, mantendo-se com o maior número absoluto de casos no país. Esse número representa uma redução de 8,5% em relação a 2023, quando foram contabilizadas 1.702 mortes desse tipo.
O abaixo-assinado foi criado por Miguel Neto, que também o encaminhou à 8ª Promotoria de Justiça de Porto Seguro. O documento solicita providências do Ministério Público da Bahia, com foco na investigação rigorosa e independente dos fatos.
Pataxó é assassinado em terra indígena em Porto Seguro
Caciques acusam fazendeiros

Terra Indígena em Porto Seguro registra terceiro assassinato de jovem || Foto Cimi
A comunidade pataxó da Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, em Porto Seguro, no extremo-sul da Bahia, sofreu ataque de pistoleiros na noite deste segunda-feira (10). O indígena Vitor Braz foi morto a tiros e um outro indígena ficou ferido e seria submetido a cirurgia ainda nesta terça-feira (11).
Vitor era morador da retomada Terra à Vista, área em processo de demarcação, em Porto Seguro, reforça o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O assassinato ocorreu na véspera de audiência pública em Brasília (DF) sobre a demarcação das TIs Tupinambá de Olivença, Tupinambá de Belmonte e Barra Velha do Monte Pascoal, todas na Bahia.
MINUTO DE SILÊNCIO
Conforme o Cimi, cerca de 300 indígenas dos povos Tupinambá e Pataxó encontram-se na capital federal para participar da atividade, promovida pelo Ministério Público Federal (MPF). A audiência iniciou com um minuto de silêncio em memória de Vitor Braz.
Profissão Repórter-Memórias de um 22 de abril…
Daniel Thame
Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de 46 anos de estrada, 37 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, negros, sem-terras e estudantes.
Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.
Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.
A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos
Dois episódios ocorridos na tarde-noite de sexta-feira, dia 21 de abril de 2000, ajudam a entender o festival de selvageria em que se transformou a festa dos 500 anos do Brasil, exaustivamente preparada para coroar o Governo da Bahia e, principalmente, catapultar o senador Antonio Carlos Magalhães para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso.
Por volta das 16 horas, policiais militares fortemente armados bloquearam a rodovia que liga Eunápolis a Porto Seguro. Eles alegavam cumprir ordens da Defesa Civil, já que a cidade não comportava mais ninguém. Tudo perfeito, à exceção de um mero detalhe: Porto Seguro não possui Defesa Civil. O objetivo era evitar que os sem-terra, acampados em Eunápolis, entrassem em Porto. O bloqueio foi estendido a turistas e até aos moradores das duas cidades. Um turista que veio de João Pessoa, na Paraíba, exibiu as reservas de hotel e afirmou que seu direito de ir e vir, garantido pela Constituição, estava sendo desrespeitado.
A resposta do policial merece entrar para os anais da história do Brasil:
-Aqui na Bahia quem manda é o Antonio Carlos Magalhães.
Ou seja, pega a Constituição e…












