:: ‘Daniel Thame’
Vitória da Conquista, TV Cabrália e os ´riconheiros´ intocáveis. Ou nem tanto…

Daniel Thame
Vitória da Conquista, final dos anos 80. A sucursal da TV Cabrália no Sudoeste Baiano dava os primeiros passos e lá estava eu, então gerente de jornalismo da emissora em Itabuna, na fase de ajustes da equipe local.
Tempos tão ´dinossauricos´ que as “cabeças” gravadas pelo apresentador matérias eram enviadas de ônibus para Itabuna em fitas U Matic e editadas para entrarem nos telejornais.
Pré-histórico, mas ainda assim era inovador, porque a gente editava como se fosse ao vivo no Jornal do Meio Dia e no Repórter Regional.
Eis que num desses dias que em Conquista parece a Europa por causa do frio de congelar, o repórter Junior Patente chega da rua com a reportagem da prisão de quatro jovens, com uma senhora quantidade de maconha.
Fita pronta pra ser enviada para Itabuna, o então editor de jornalismo, cujo nome não vem ao caso (gracias Moro!), me diz:
-Essa matéria não pode sair, porque é tudo filho de gente conhecida.
Por “conhecida”, entenda-se, gente com grana ou com poder político.
Fui na jugular:
-E se fosse gente pobre, poderia sair?
O silêncio ensurdecedor do editor foi a resposta que eu esperava.
A matéria saiu e o editor demitiu-se logo depois, embora os jovens nem chegaram a sentir o gostinho da cadeia.
Afinal, em qualquer tempo, certas coisas definitivamente ´não vem ao caso`…
Em Vitória da Conquista, Arlete do Frango recebe Comenda Caboclo Alencar

Arlete, com a Comenda, e seus galetos de dar água na boca
A Academia de Letras, Artes, Música, Birita, Inutilidades, Quimeras, Utopias, Etc., a ALAMBIQUE rompe as fronteiras grapiúnas e chega a Vitória da Conquista. Em breve estadia na Suíça Brasileira (os moradores de da cidade se acham europeus que acidentalmente estão localizados geograficamente na Bahia), o presidente vitalício, imortalício e ditatorialício da ALAMBIQUE, Daniel Thame. entregou a seletíssima Comenda Caboclo Alencar a Arlete do Frango.
Antes que as nossas co-irmãs, e são tantas no eixo Ilhéus Itabuna que dá para encher um livro ao citá-las uma a uma, questionem os talentos literários de dona Arlete, ela é autora da frase “Garanta seu rango, no Point do Frango”. Poema da melhor qualidade!

Daniel Thame com a nova Comendadora
E antes que as más línguas digam que a Comenda foi entregue em troca de um suculento frango para o almoço de domingo da Família Thame, é mentira. Repetimos: mentira. mentira!!!

Na verdade forem apenas duas asinhas de frango pra acompanhar uma cachacinha de alambique num boteco ´pé sujo`, o Merca Bar São Miguel, sério candidato à sede conquistense da academia literalística e, principalmente, beberística.
Alvíssaras a nova Comendadora!!!
Cuba, Vily Modesto e ´las chicas`

Daniel Thame
Sul da Bahia, 1995. Acabo de voltar de Cuba, onde produzi para os jornais A Região (Itabuna) e Diário de Osasco (SP), uma série de reportagens que estão entre as melhores coisas que já realizei em quase cinquenta anos de jornalismo.
Para ser honesto a viagem à Cuba foi bancada inteiramente pelo jornal A Região, o que só se explica pela generosidade do inesquecível Manoel Leal (um dos anjos que o destino colocou na minha vida guache).
Afinal naquela época, mandar um repórter de um jornal do interior da Bahia fazer uma cobertura em Cuba equivalia a mandar um tabaréu a Marte.
A publicação no Diário de Osasco, onde trabalhei por 10 anos antes de emigrar para as terras do cacau, foi muito mais, reconheço, pela vaidade de mostrar que o menino que o Vrejhi Sanazar (outro anjo na minha vida) achava talentoso mas demasiado aventureiro pro gosto dele, estava se dando bem na vida.
Mas voltemos à Cuba, onde aliás retornei outras três vezes, apaixonado que sou por aquela que considero minha segunda pátria.
Ou melhor voltemos à Itabuna e a Bahia, minha verdadeira pátria.
A série de reportagens repercutiu tanto que mereci a honra de ser chamado para uma entrevista no programa Vily Modesto, na Rádio Jornal de Itabuna, patrocinado pelo Grupo Chaves (a citação é só pra lembrar de outro anjo, Helenilson Chaves) e que tinha como slogan “Durma com Jô e acorde com Vily”, referência mais do que justa ao “Jô Onze e Meia”, então no auge com Jô Soares.

Não dormi com Jô, mas acordei com Vily, feliz por poder falar para todo o Sul da Bahia.
Vily Modesto parecia estar inspirado por uma noite de sonhos calientes. Ou tinha lido Jorge Amado demais.
Após o meu tradicional bom dia aos queridos ouvintes e falar sobre minhas impressões iniciais sobre Cuba, Vily solta o vozeirão:
-Daniel Thame, e ´las chicas´? (as moçoilas, em bom português)
Fiz que não entendi e tasquei:
-Vily, a saúde em Cuba funciona bem, com atendimento de qualidade nos lugares mais distantes, nas capitais de provincia e em Havana e blá blá blá blá blá blá…
Vily engrossa mais a voz:
-E ´las chicas` Daniel?
E eu me finjo de surdo:
-A Educação é prioridade, com ensino gratuito do maternal à universidade e blá blá blá blá blá blá…
Vily parecia um disco travado:
-Eu quero saber com são ´las chicas`…
Eu parecia um surdo empedernido:
-Cuba tem praias maravilhosas, um patrimônio histórico-arquitetônico fantástico, o turismo tem sido a alternativa para minimizar o impacto causado pela queda do Muro de Berlim e blá blá blá blá blá blá…
Vily não queria saber nem de Muro, nem de Berlim:
-Eu quero saber como são ´las chicas`, Daniel.
Aí baixou um Che Guevera em mim.
Vily era uma figura maravilhosa, um ser humano espetacular e afinal eu era o convidado dele. Fui duro, sem perder a ternura, jamás!
-Vily meu amigo, se era pra ir atrás de ´las chicas` não precisava ir a Cuba, bastava ir ao Brega de Sônia.
Onde por sinal ´las chicas´ são (ou eram) muito mais ´hermosas`.
E vamos aos nossos comerciais, porque a entrevista acabou ali.
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Em tempo: Vily Modesto é umas dessas personalidades extraordinárias que ainda está a merecer o devido reconhecimento numa região que não é dada a reconhecer suas personalidades extraordinárias.
Mas isso já é assunto para outra crônica.
“A Covid 19 é uma invenção do PT”. PQP!
Daniel Thame
Estava eu fazendo uma operação (eufemismo para pagando boletos) no caixa eletrônico da agência do Banco do Brasil em Itabuna quando sou chamado a atenção por um diálogo entre uma cliente, pelo modo de se vestir e pela Bíblia que levava numa das mãos, terrivelmente evangélica, e um bancário do BB, com cara de um esses petistas-comunistas explorados pelo capitalismo.
–Moço quando venho aqui na agência sinto falta de várias pessoas, diz a mulher
–É que durante a pandemia da Covid 19 perdemos vários companheiros, responde o bancário…
Ao que mulher retruca:
–Mentira, a Covid nunca existiu e não morreu ninguém. Foi tudo invenção do PT pra eleger o Lula…
Paguei logo meu boleto, tomando o devido cuidado de não errar a senha (1313PT13PT é difícil de esquecer, rs) e sai fora, no que fui seguido pelo companheiro bancário.
Vai que essa porra é contagiosa e não tem vacina…
Um petista, um mendigo e um jantar que, literalmente, acabou em pizza

Daniel Thame
Santo André. São Paulo, ano 2001. Nomeado secretário de Comunicação em Itabuna, fui passar uma semana conhecendo a estrutura da Secom da cidade do ABC, uma espécie de grife das administrações petistas.
Lá conheci o prefeito Celso Daniel, excepcional figura humana. Um ano depois, durante o Carnaval Antecipado de Itabuna, por uma dessas trapaças do destino, com o telefone do então prefeito Geraldo Simões em mãos, recebi uma ligação de José Dirceu, e coube a mim comunicar a Lula, que estava participando da festa, o sequestro e posterior assassinato do seu provável coordenador da enfim vitoriosa campanha presidencial. Mas isso é outra história.
Uma noite, eu e mais três companheiros da Secretaria de Comunicação fomos comer uma pizza e zerar o estoque de chopp num restaurante italiano. Muita conversa jogada fora, eles me perguntando de sacanagem como é que alguém deixa Sunpolo pra vir morar na Bahia e eu respondendo que sacanagem é não deixar São Paulo pra morar na Bahia, até que vejo um mendigo batendo na janela de vidro do restaurante, ao lado da nossa mesa, fazendo o clássico sinal de que estava com fome.
Como se sabe a tendência alambiquista do PT, na qual integro com pompa e zelo, bebe muito e come pouco e ai sobraram vários pedaços de pizza.
Chamei o garçom e no melhor estilo de ternura guevarista disse:
-Por favor, embrulhe essa pizza e leva para aquele rapaz aí do lado de fora, que ele está com fome.
Ferreirinha, Jô Soares, Manoel Leal. Onze e Meia…
Daniel Thame
No início da década de 90, então no vigor dos seus 80 anos, Ferreirinha ficou mundialmente conhecido após se casar com a estudante Yolanda, nos seus tenros 15 anos. Foi tema de reportagens em jornais de todo o planeta e concedeu uma entrevista antológica no programa Jô Onze e Meia, no SBT, onde foi triunfalmente apresentado por Jô Soares como o “Garanhão de Itabuna”.
A entrevista com Jô, que levou seu monumental talento para a eternidade, foi acertada após o envio de um exemplar do Jornal A Região por Manoel Leal à produção do programa. O jornal, à época vivendo seu auge, foi o responsável pela divulgação inicial da insólita união.
Como Ferreirinha, já passando os 80 anos e com Yolanda batendo o pé e se negando a acompanhar o esposo, coube a este ex-jornalista em atividade (então editor de A Região), levá-lo a São Paulo.
Antes de viajar, Leal comprou uma camisa florida (estilo Jorge Amado) para Ferreirinha usar no programa e orientou que se Jô Soares perguntasse o segredo da propalada potência sexual, a reposta era: “muito suco de cacau”.
Na viagem de avião, Ferreirinha foi me contando-repetindo todas as suas peripécias sexuais, a ponto de eu me perguntar se ele teria coragem de dizer tudo aquilo no programa.
Disse e levou Jô Soares e a platéia (composta majoritariamente por estudantes) às gargalhadas, imitando o famoso gesto da posição “receba, galinha”, a sua preferida, antes das núpcias com Yolanda, bem entendido.
Diante de um Jô Soares surpreso com tanta desenvoltura e todos os presentes à gravação encantados com aquele senhor com jeito de menino sapeca, Ferreirinha confirmou que o segredo de levar a jovem esposa à exaustão a ponto de que era ela e não ele quem pedia para parar os arrufos na cama, era mesmo o tal suco de cacau.
Foi o suficiente para Jô Soares pedir: “atenção meus amigos do Sul da Bahia, me mandem vários pacotes de suco de cacau!”
‘ Diálogos’ com ACM

Porto Seguro, 22 de abril de 2000. 500 anos do Descobrimento do Brasil. Enquanto autoridades e convidados vips participam de uma celebração no Hotel Vela Branca, o povaréu é isolado por barreiras e um forte contingente policial nas ruas.
Festa correndo solta no hotel e ao mesmo tempo a Polícia Militar baixando o cacete em índios, sem-terras, negros e quem mais se atrevesse a protestar contra o que consideravam uma invasão/exploração e não um descobrimento.
Uma violência policial tão desmedida que no dia seguinte ganharia as manchetes da imprensa mundial.
Gravador em punho, aproximo-me de Antônio Carlos Magalhães, então o Rei da Bahia e fiador daquela festança toda e, per supuesto, também daquela pancadaria toda.
Certo de que vai receber uma pergunta elogiosa, ACM exibe o melhor dos sorrisos, exala simpatia.
E eu transpiro jornalismo:
-Senador, como o senhor avalia o fato de que enquanto as autoridades festejam aqui no hotel, pessoas simples estão sendo agredidas pela polícia e impedidas de protestar pacificamente?
O sorriso some, mas ACM permanece impassível, olha para o crachá para ver em qual veículo de comunicação eu trabalhava (na época, a TV Cabrália), uma atitude típica dele, e quando providencialmente começa a tocar o Hino Nacional, responde entre os dentes:
-Você não vê que estou ouvindo o Hino Nacional?
E completou baixinho, dando um leve chute na minha canela, antes de me dar as costas com o desprezo de quem se achava acima do bem e do mal:
-Seu moleque, filho da puta…
A resposta que ACM não me deu, o povo baiano, força indomável da liberdade, lhe daria seis anos depois e continua dando até hoje nos seus herdeiros políticos….
O Sul da Bahia moureja lindamente

Zuleik Carvalho
O Sul da Bahia consegue desatar o nó Górdio que é ausência de ações concretas/contundentes. Consegue caminhar, avançar através de soluções jamais vistas. Recusa-se a aceitar as limitações, faz uma governança sem olhar para o retrovisor, para o passado.
O tempo é usado para a efetivação de ações propositivas tendo protagonistas o governo e a sociedade civil, verdadeiros guerreiros que dão exemplo de tenacidade, coragem, perseverança, mostrando que é possível lutar e, obter êxito sem necessariamente odiar o adversário.
Não existe ceticismo na gestão do Sul da Bahia e, sim uma luta intensa, séria, cujo desiderato é alcançar soluções simplificadoras que transformam vidas de toda uma sociedade e, em particular das camadas menos afortunadas, singrando mares, às vezes revoltos.

O Chocolat Festival Bahia, fruto da ousadia e do espírito empreendedor de Marco Lessa, realizado nos dias 17 a 20 de julho em Ilhéus gerou 20 milhões de negócios, fortalece a economia da região e resulta em geração de empregos e renda, aumento do PIB. O Sul da Bahia está recodificando seus objetivos de forma exitosa juntamente com a sociedade civil efetivando Projetos de Economia Solidária, Educação Empreendedora, Inclusão Social e Ressocialização.

Mais a mais, não claudica da importância vital da visibilidade das ações que é feita de forma notável por profissionais de comunicação como o jornalista Daniel Thame, com o apoio da mídia de todas das regiões da Bahia.

O Sul da Bahia é um exemplo de governança a ser seguido.
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Zuleik Carvalho é Procuradora Jurídica do Estado da Bahia, .Vice Presidente do Nordeste da ABRAP – Associação Brasileira dos Advogados Públicos e Membro Honorária do IAB – Instituto dos Advogados da Bahia.
O pintor de paredes que lia livros…
Daniel Thame
Recém saído do seminário (recém saído é um puta eufemismo para “expulso do seminário”), em 1977, vivia eu sem eira nem beira lá pelas quebradas de Osasco. Tempos difíceis, até que um anjo chamado João Macedo de Oliveira me abrisse as portas, não do céu, mas do jornalismo.
Num período de três meses, trabalhei como feirante e pintor de paredes. Serviço duro mas fodido como eu estava (dispensemos o eufemismo), era pegar ou largar, numa fase em que pão com mortadela com tubaína era equivalente a caviar, que a bem da verdade, até hoje nunca vi nem comi só ouço falar.
Deixemos o bolodório de lado e vamos ao ponto: trabalhando como pintor numa fábrica chamada Brown Boveri (puta que pariu, e não é que a memória as vezes funciona!) vivi uma situação digna do realismo mágico (ou seria realismo trágico?) digna de um certo Gabo.
Num momento de folga, lia eu um livro quando o chefe chega e pergunta:
-Rapaz você gosta de ler?
E eu, bobalhão que era, pensando numa promoção, respondi:
-Gosto sim, não abro mão de um bom livro. Leio muito.
A tréplica foi uma pincelada de ignorância:
-Quem lê livros é muito perigoso, pode colocar coisas na cabeça dos outros trabalhadores.
Uma semana depois eu fui promovido a desempregado!
O que por linhas (olha Gabo aí de novo!) me fez cruzar com João Macedo e fazer do jornalismo minha profissão de fé, de luta e de vida.
Quase 50 anos depois, continuo um leitor compulsivo e me tornei autor de cinco livros.
Continuo sendo um sujeito muito perigoso…
Potiraguá 1983. Diretas Já!

Daniel Thame
O ano era 1983. Numa das minhas viagens ao Sul da Bahia, antes de aportar definitivamente em Itabuna e me tornar legítimo grapiúna, organizei um Comício das Diretas Já na Praça Getulio Vargas, em Potiraguá, então uma cidadezinha de 5 mil habitantes nas bordas da região cacaueira.
Ao lado de Magno Santos, já habitando a eternidade, pegamos um carro de som e circulamos por Potiraguá e a cidade vizinha Itarantim, chamando as pessoas para o ato. Sabe-se lá como, naqueles tempos dinossáuricos e pré-internéticos, a notícia chegou até Vitória da Conquista, o grande polo do Sudoeste Baiano, e o prefeito José Pedral ame P então um ícone da esquerda (tempos depois se bandeou para os lados de ACM e morreu politicamente) decidiu comparecer.

O que era uma idéia aparentemente maluca se transformou um dois maiores atos públicos da história de Potiraguá e por uma dessas trapaças do destino me ligou à cidade para sempre.
Foi algo tão inusitado que virou notícia até em jornais de São Paulo. Hoje ao rever o coreto, fecho os olhos, volto no tempo e vejo a praça pulsando de gente e de democracia.
Ousar sonhar. ousar lutar, ousar vencer. Sempre!
















