:: ‘Daniel Thame’
Daniel `Fagundes` na Bodeguita del Medio

Daniel Thame
2017, Cuba. Em meio à avalanche de críticas (na verdade xenofobia e preconceito mal disfarçados) à presença de profissionais cubanos no Programa Mais Médicos lançado pela então presidenta Dilma Roussef, o governo da Ilha convidou um grupo de jornalistas brasileiros para mostrar que as universidades e o sistema de saúde de lá, apesar de todas as agruras provocadas pelo criminoso embargo imposto pelos EUA, tinham um padrão de excelência inquestionável. Como de fato tinham!
No grupo, este ex-jornalista em atividade e o jornalista José Carlos Teixeira, falecido recentemente.
Entre as visitas a universidades, hospitais e clínicas num roteiro de cinco cidades em sete dias, eu e Teixeira achamos tempo pra degustar um mojito na célebre Bodeguita del Medio, no coração de Havana Velha.
Um mojito é modéstia, posto que ambos, além da paixão pelo jornalismo, éramos mestres na arte do bem beber.
Estávamos nós degustando nosso mojito a 5 euros a dose, quase 20 reais no câmbio a época, quando um dos garcons se dirige pra mim e diz todo entusiasmado;
-Es usted! Es usted!
(É você, é você)
Diário de Osasco e o Bar das Putas

Daniel Thame
Ano de 1981. O Diário de Osasco finalmente trocava as velhas impressoras e linotipos e passava a ser impresso em off-set. Era como pular da Idade da Pedra para o futuro, sem escalas.
O Diário também deixava de ser temporariamente diário para se tornar semanal, embora continuasse ostentando o título Diário.
Para o Vrejhi Sanazar, dono do jornal, era um salto de qualidade e a oportunidade de atrair anunciantes. Fazer dinheiro, enfim.
Para mim e para o Giovanni Palma, que tocávamos a redação, era o passaporte para a modernidade, poder ousar nos textos, nas fotos, no formato da primeira página.
Mais do que isso: como o jornal seria diagramado e impresso no prédio do Estadão (O Estado de São Paulo) na marginal Pinheiros, era a chance de viver o clima de grande imprensa, cruzar com o pessoal que fazia aquele que na época era o mais influente jornal brasileiro, até ser ultrapassado pela Folha de São Paulo e hoje ter se tornado um porta voz da direita paulista.
Era também uma oportunidade para manter contato com grandes jornalistas, não apenas do Estadão, mas também de outros veículos, já que após o fechamento das edições (naquele tempo os jornais fechavam de madrugada e não eram essa coisa pasteurizada e insossa de hoje, decadentes e superados pela agilidade da internet), o pessoal se dirigia a um ´pé sujo´ na avenida da Consolação, centro velho da capital paulista, onde um churrasquinho ou uma batata frita honestos eram oferecidos a preço justo. Obviamente acompanhados de uma cervejinha, uma batidinha, uma cachacinha.
Ou tudo junto!
“Essa Gente Grapiúna”, com Daniel Thame e Rafael Gama

O jornalista e escritor Daniel Thame foi um dos entrevistados do programa “Essa Gente Grapiúna”, apresentado por Rafael Gama e exibido na TVI e no Youtube.
Um bate papo descontraído sobre jornalismo, literatura, cacau, chocolate e paixão pelo Sul da Bahia.
Assista à entrevista, que foi ao ar em 2024.
Homem Bomba
Diário de Osasco, inicio dos anos 80. Eu e Cláudio Cruz, amigo-irmão que Deus levou prematuramente em 2017, trabalhávamos como repórteres, recém iniciados no jornalismo e escalados para funções que os veteranos sempre consideravam coisa menor: a cobertura nos bairros e as sessões de esportes e de polícia. Na verdade, eram as grandes escolas para quem estava começando e onde a gente fazia de um limão, uma limonada.
Ou de um cachorro quente um banquete, naqueles tempos difíceis, mas, hoje reconheço, felizes.
A nossa produção jornalística não deveria andar lá essas coisas (não que faltasse assunto: Osasco tinha problemas típicos de uma cidade industrial encravada na Grande São Paulo com bairros sem infraestrutura e a violência era assustadora), porque resolvemos diversificar as atividades e nos embrenhar por outras áreas.
Com a luta armada brasileira nos estertores e a Revolução Cubana distante demais, decidimos explodir latas de lixo do bairro Presidente Altino, onde ficava a sede do jornal, com aquelas bombas típicas de São João, ´tamanho GG´.
Não me perguntem o que uma coisa tem a ver com a outra, porque não tem nenhuma mesmo. É apenas pra dar um certo charme ao texto.
O plano (!) era esperar o fechamento do jornal, lá pelas onze da noite, e sair detonando as latas de lixo que encontrássemos pela frente. Como havia bombas suficientes para explodir Presidente Altino e adjacências, achei que uma bomba a mais, uma bomba a menos não faria diferença.
E então, sorrateiramente, enquanto Cláudio revisava compenetrado uma de suas matérias, coloquei uma das bombas embaixo da sua cadeira e… BUM!
Radio Difusora Oeste, plantão de polícia e a hora de sair do ar

Daniel Thame
Rádio Difusora Oeste, Osasco, anos 1980. O rádio sempre foi a verdadeira escola de jornalismo e, para os novatos na área, a porta de entrada era o noticiário esportivo ou a cobertura policial.
Ou no meu caso, as duas coisas juntas.
Recém saído do seminário (recém saído é eufemismo para recém-expulso, mas isso é outra história), já militando no Diário de Osasco, aventurei me pelas ondas da Rádio Difusora Oeste.
Fazia o plantão na Delegacia de Polícia pela manhã e participava do programa de esportes ao meio-dia.
Isso quando não colocava uma mochila nas costas, uma única calça velha azul e desbotada, uma camisa branca igualmente velha e saia sem destino pelas quebradas de Nuestra América, mas isso também é outra história…
Voltemos às ondas do rádio.
Se no esporte, era duro cobrir times mulambentos que disputavam a 3466513ª. Divisão do Futebol Paulista e ter que encher espaço até com torneios de cuspe a distância, bocha e palitinho, na cobertura policial era, digamos, um banquete…
Afinal, Osasco era conhecida à época como a Capital do Crime, fonte inesgotável para o antológico jornal Noticias Populares, o que dispensa maiores apresentações.
Era chegar na DP, pegar os boletins de ocorrências e escolher o, digamos de novo, cardápio.
Assassinatos, chacinas, roubos, apreensão de drogas, uma rotina de atrocidades, que rendiam uma baita audiência, ao contrário dos jogos chinfrins que a gente narrava para ninguém.
Torre de Babel
Daniel Thame
Durante os tempos dadivosos, cada um se bastava, e o individualismo era a regra. Quem é que precisava de união, de organização, quando as terras, conquistadas por seus antepassados a ferro e fogo e deixadas esbanjando prosperidade e riqueza, geravam também a disputa para ver quem era o maior?
O título de maior produtor individual de cacau do mundo, coroa pousada em pouquíssimas cabeças, era uma espécie de troféu que, quando conquistado, equivalia à posse de um reino.
E pareciam mesmo reis os senhores que tudo podiam e de ninguém dependiam, a não ser do fruto dourado, da árvore mágica.
Não precisavam de governo nenhum e transformavam gerentes de banco em office boys subservientes e bajuladores. Nas crises cíclicas, pequenos hiatos na rotina de bonança, era o próprio dinheiro gerado pelo fruto quem garantia a recuperação, quem trazia de volta a prosperidade, num ciclo que não terminaria nunca.
Como não terminaria nunca, nunca se preocuparam com representação política, com entidades que fossem além dos almoços, jantares e viagens de puro deleite.
A força de cada um dispensava a força coletiva, coisa de uns pobres coitados, de uns agitadores que vez por outra tentavam fazer com que os trabalhadores, que sempre ficaram com as migalhas do bolo doce e farto, se organizassem e reivindicassem seus direitos.
“Esses comunistas filhos da puta”, diziam com escárnio nas rodas de uísque escocês, correndo pelos copos como a água corre na cachoeira caudalosa.
Quando vieram os tempos difíceis, e esses tempos se revelaram mais longos do que a mais longa das crises enfrentadas até então, já não havia o dinheiro gerado pelo fruto, que a bruxa tratava de abortar ainda no ventre das árvores, igualmente agonizantes.
Cada um já não se bastava mais, a coroa de Rei do Cacau enferrujou tal qual um latão de péssima qualidade.
“Precisamos nos unir, cobrar das autoridades tudo aquilo que demos para o Estado, para a Nação”, bradava-se para auditórios suntuosos, mas vazios de gente e de alma.
Nas articulações, que nem esse nome justificavam, tão desarticuladas eram, ninguém se entendia, visto que como cada um sempre se fizera sozinho, sozinho falava a sua própria língua.
Instalou-se, então, uma confusa babel grapiúna, até que o templo em que eles se reuniam para celebrar as dádivas do deus cacau, em vez de ruir como era de se imaginar em tempos de ira divina, foi alugado, subalugado, emprestado, tomado.
E, finalmente, abandonado, como um monstrengo encalhado no coração da cidade.
Há quem jure ouvir, nas noites abafadas, vozes fantasmagóricas, mas que ninguém entende, posto que nessa Torre de Babel nem os fantasmas falam a mesma língua.
—
Conto extraído do livro “Vassoura, do Apocalipse ao Gênesis da Região Cacaueira da Bahia”. Atualíssimo.
TV Cabrália, Hotel Comandatuba e “rico come cada coisa”

Daniel Thame
TV Cabrália, início da década de 90. O recém inaugurado Hotel Transamérica, na paradisíaca (que certa feita um repórter da emissora confundiu com afrodisíaca, sabe-se lá porque) Ilha de Comandatuba, recebia famosos e endinheirados de São Paulo, Rio e Brasília, além de políticos de altíssimo escalão.
A gente tinha um esquema lá que sempre que chegava alguém famoso ou importante, era avisado. Para uma tevê regional, era uma festa entrevistar personalidades que só apareciam na então monopolista Rede Globo.
Os vips sentiam a nossa empolgação e quase sempre colaboravam, dando entrevistas para a Cabrália como se estivessem falando para o mundo. A gente fazia a gravação e ia almoçar no continente, porque a grana da diária não dava pra encarar um copo de água mineral no hotel, quanto mais um almoço.
Até que certa feita, fomos entrevistar o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, que descansava no hotel com a família.
Político não pode ver um microfone, seja ele da BBC, seja ele do serviço de alto falante de Potiraguá.
Ele deu uma longa entrevista, que a gente poderia usar durante uma semana nos telejornais.
Encerrada a gravação, Quércia convidou a equipe para almoçar. Para quem iria pegar um rango mulambento, aquilo era o que se pode chamar de convite irrecusável. Não recusamos. O almoço, como se previa, era um banquete. Todo tipo de saladas, pratos frios, pratos quentes, sobremesas. De se lamber os beiços.
Na equipe, havia um auxiliar de cinegrafista (função que hoje nem existe mais), meio tabaréu (caipira em baianês), que ficou observando como as pessoas se serviam, pra não passar vergonha. :: LEIA MAIS »
Daniel Thame no Podcast no Roger: Futebol&Chocolate
Futebol e chocolate, duas paixões nacionais, são os temas do Podcast do Roger, disponível no Youtube e Instagram. O convidado do podcast comandado por Roger Sarmento é o jornalista e escritor Daniel Thame, que por anos apresentou um programa esportivo na TV Cabrália e que, entre outras atividades, mantem o site Cacau&Chocolate.
Campeonato Baiano, Campeonato Brasileiro, Copa do Mundo e o nascimento do chocolate de origem do Sul da Bahia, num bate papo descontraído.
Assista:
Daniel Thame fala sobre futebol e chocolate no Podcast do Roger

Futebol e chocolate, duas paixões nacionais, são os temas do Podcast do Roger, que vai ao ar nesta terça-feira, dia 3, a partir das 19 horas. O convidado do podcast comandado por Roger Sarmento é o jornalista e escritor Daniel Thame, que por anos apresentou um programa esportivo na TV Cabrália e que, entre outras atividades, mantem o site Cacau&Chocolate, que acompanha e incentiva a consolidação do polo chocolateiro do Sul da Bahia, hoje premiado mundialmente.
No programa Daniel Thame e Roger Sarmento falam sobre o Campeonato Baiano e as boas campanhas do Barcelona e do Porto, as chances de Bahia e Vitória no Campeonato Brasileiro e, claro, da Copa do Mundo 2026, com o Brasil em busca do hexa, encarando potências como França, Espanha, Portugal, Inglaterra e Argentina.
A história do Chocolat Festival, lançado por Marco Lessa quando não havia marcas locais e que ao longo dos anos impulsionou o surgimento de mais de 200 marcas, também é um dos destaques do Podcast do Roger.
O bate papo estará disponível nos canais de Roger Sarmento no Youtube (@podcastdoroger) e
e no Instagram (@podcast.roger)
Reggae, carnaval, charutos e cadeia

Daniel Thame
Carnaval Antecipado de Itabuna em 2002. Tenho pavor de festa por conta da timidez, mas então Secretário de Comunicação da prefeitura, não era folia, era trabalho. Mas, na última noite da folia, deixava a timidez em casa, e aproveitava para dar uma relaxada e saia num bloco, o Planeta Reggae, comandado por Paulo Fumaça, que a gente mantinha só por gostar desse tipo de música e criar uma alternativa para a mesmice do axé. Saimos com Edson Gomes, que apesar de misturar reggae com uma chatíssima pregação evangélica ainda atraia uma multidão.
Como sempre fazia, naquele estresse que é coordenar a área de comunicação do carnaval, subi no trio e acendi meu charuto, um Cohiba honestíssimo.
Um rapaz que acompanhava o trio não parava de me fazer sinais pedindo para que eu jogasse o charuto pra ele, certamente confundindo meu puro com outra coisa, um baseado tamanho GG per supuesto…
Eu fazia sinais mostrando que se tratava de um charuto, mas ainda assim ele insistia.
Quando o charuto estava no final, joguei a ponta pro rapaz, que ficou numa alegria danada.
Pois bem, demos a volta na avenida, num percurso de três quilômetros, e quando a gente estava encerrando a apresentação o sujeito, sabe-se lá Deus como, conseguiu escalar o trio e começou a beijar a minha mão, dizendo ´você é moral, você é moral´.
A situação já era inusitada, mas não havia acabado. O rapaz, sem soltar da minha mão, disse:
-Ô moral, eu saí da cadeia só pra ver o Edson Gomes, eu amo reggae…
E, para mostrar que não estava mentindo, levantou a camisa, exibindo inúmeras marcas de bala de revólver nas costas e as indefectíveis tatuagens de quem passa pela cadeia.
Surpreso, eu apenas respondi:
-Ô moral, porque não me disse isso antes? Eu teria jogado era uma caixa de charutos inteira…














