:: ‘Daniel Thame’
Encontros em Prosa e Versos, com Daniel Thame
O jornalista, escritor, blogueiro e multimídia Daniel Thame foi o entrevistado da semana no programa Via Litterarum Encontros em Prosa e Versos, apresentado por Rafael Gama na TVi.
Um bate papo sobre literatura, jornalismo, engajamento social e fatos da vida grapiúna, num clima de descontração e bom humo.
Assista:
Daniel Thame é autor dos livros “Jorge100anosAmado-Tributo a um eterno Menino Grapiuna”; “Vassoura”, a história que Jorge Amado não viveu para contar; A Mulher do Lobisomem, que explora as diversas facetas do universo feminino; Manual de Baixa Ajuda, crítica bem humorada aos manuais de autoajuda; e “O Gato que tinha 3 nomes”, obra infantil que destaca a paixão pelos animais, a conservação na natureza e o chocolate produzido em Ilhéus.
Daniel Thame fala sobre literatura, jornalismo e militância no ´ Via Litterarum Encontros em Prosa e Versos´

Nesta quinta-feira, dia 17 de agosto, a partir das 22:30 horas, o programa Via Litterarum Encontros em Prosa e Versos, apresentado por Rafael Gama, traz uma entrevista com o jornalista, escritor, blogueiro e multimídia Daniel Thame.
Numa conversa leve, descontraída, mas também repleta de posicionamento político e cultural, Rafael e Daniel conversam sobre a literatura e suas repercussões sociais.
Daniel Thame é autor dos livros “Jorge100anosAmado-Tributo a um eterno Menino Grapiuna”; “Vassoura”, a história que Jorge Amado não viveu para contar; A Mulher do Lobisomem, que explora as diversas facetas do universo feminino; Manual de Baixa Ajuda, crítica bem humorada aos manuais de autoajuda; e “O Gato que tinha 3 nomes”, obra infantil que destaca a paixão pelos animais, a conservação na natureza e o chocolate produzido em Ilhéus.
Estas e outras entrevistas do Via Litterarum Encontros em Prosa e Versos podem ser acompanhadas na TVi em suas multiplataformas.
Jorge Amado, Menino Sergipano?
Daniel Thame
A seca de 1909 dizimou a pequena cidade de Estância, no sertão sergipano. A seca e suas consequências – fome, miséria e morte – não eram novidade para os sertanejos, conformados com os desígnios de Deus naquela natureza morta que sugava gente viva, ano a ano, como se castigo divino fosse.
E era castigo mesmo, não necessariamente divino, mas os homens e mulheres humildes se apegavam à fé, à crença inabalável de um mundo melhor, depois da morte, lá bem acima do céu.
E, no céu, o que eles enxergavam a olhar para o alto não eram os santos, anjos, arcanjos e querubins da fé cega, mas o sol a queimar como chama do inferno. Ironia e heresia.
O sertanejo sempre foi, antes de tudo, um forte, diz o adágio popular.
Mas como não fraquejar vendo a plantação minguar, o gado mirrar, o solo se transformar numa massa disforme e sem vida?
Como não entrar em desespero vendo a fome se aproximar, os filhos pequenos a clamar por um pouco de farinha, um feijão ralo, um copo de água?
Como não sentir uma dor no peito vendo a mulher, antes formosa, se transformar num fiapo de gente, agarrada à Bíblia e à devoção aos santos que, apesar de tantas orações, tanta penitência, não mandavam uma mísera gota de água do céu? Ao contrário, empurravam as nuvens e a chuva para bem longe, lá pro mar distante, onde uma água a mais, uma água a menos não faria falta.
-Não dá mais, a gente vai morrer aqui, vendo tudo se acabar, disse o marido à esposa…
-Deus vai prover na hora certa. Temos que ter fé, respondeu a esposa, como se nascer, sofrer e morrer fosse a ordem natural das coisas.
No colo da mulher, o filho do casal, de um ano de idade, mais um na loteria de vida e morte, com imensas chances de morrer antes de dar os primeiros passos na terra arrasada.
-Não adianta esperar por Deus. A gente tem que ir embora daqui. Chega de tanto sofrimento. A fala do marido agora era de resolução.
-E a gente vai pra onde? Pobre é pobre aqui ou em qualquer lugar do mundo, a mulher era pura resignação.
Jogar pra perder…
Daniel Thame
Radio Difusora Oeste, Osasco, anos 80 do século passado. O Palmeiras jogava no Pacaembu contra um time do interior (XV de Jaú, Ferroviária, algo assim, a memória é de dinossauro, mas falha).
Times em campo, lá vai esse bravo repórter entrevistar o goleiro Leão. Idolo do Palmeiras, três Copas do Mundo no currículo,
Jogador famoso sempre olhou pra rádio modesta (a nossa era briosa, mas obviamente modesta) com desdém e Leão nunca foi propriamente um exemplo de simpatia. Ainda mais diante da pergunta -vá lá, eu reconheço- idiota que perpetrei:
-Leão, o Palmeiras entrou em campo pra ganhar o jogo?
O goleiro poderia ter feito o que quase todo jogador faz: responder o óbvio, e ir pro jogo, mas Leão optou pelo estilo ´zagueiro de roça`:
-Não, a gente entrou em campo pra perder…
E, sem mais delongas, virou as costas, seguiu pro gol, enquanto meus eventuais ouvintes certamente estavam rindo deste que na época vos falava e agora vos escreve.
Ah, sim. O Palmeiras perdeu pro XV de Jaú, Ferroviária, um time desses aí.
Praga de repórter de rádio pequena também pega.
Dois olhos azuis e um destino
Daniel Thame

Quando os olhos cansados dele se cruzaram com o azul cintilante dos olhos dela, foi como se tudo em volta se resumisse na mais profunda escuridão.
Para ele, só havia aqueles olhos azuis incandescentes, no rosto de uma linda mulher de meia-idade.
Quando à luz se restabeleceu e o mundo voltou a seguir seu curso natural, ele continuava fascinado por aquela mulher.
Fatalista ao extremo e ao mesmo tempo um eterno sonhador, achou que só poderia ser a mão do destino.
Afinal, não era para estar naquela cidade. Não naquele momento.
Na terça-feira, patinou no transito infernal de São Paulo e perdeu o vôo. Remarcou a viagem para a quarta, mas chovia demais e o avião não pousou no acanhado aeroporto local.
Quando finalmente conseguir embarcar e chegar à cidade do interior, trombou com a imensidão de azul nos olhos da mulher.
Cego de paixão e num impulso atípico para alguém tímido ao extremo, aproximou-se e sem tirar os seus olhos dos olhos azuis dela, entregou o número do telefone celular.
Ela guardou o papel na bolsa e apenas sorriu.
Durante os dias em que permaneceu na cidade, esperou em vão por uma chamada telefônica que não veio.
No dia de retornar para casa, não perdeu a hora do vôo e a noite estava tão iluminada que, da janela do avião, pode contemplar um par de estrelas incrivelmente azuis, que brilhavam feito dois olhos a encará-lo.
Fechou a janela, pediu um copo de uisque para a aeromoça, sorveu num gole só, fechou os olhos e não viu nada além da escuridão.
Três horas depois, chegou a seu destino: a cidade imensa e solitária em que vivia. A poluição o impedia de ver estrelas no céu, mas nem ele fazia questão disso.
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Conto extraído do livro “A Mulher do Lobisomem”- Editora Via Litterarum
Repórter-Torcedor
O ano era 1985. O São Paulo, treinado por Clinho, decidia o Campeonato Paulista com a Portuguesa, no estádio do Morumbi. Sãopaulino até a medula, fazia reportagem de campo para a Radio Difusora Oeste, emissora modesta, mas briosa, de Osasco.
O São Paulo tinha um timaço, com Falcão, Silas, Muller, Careca, Sidney e Cia, mas a Lusa endurecia o jogo. E eu não sabia se reportava os lances ou se torcia. O São Paulo fez 1×0 no primeiro tempo com Careca e levava um sufoco até a metade do segundo tempo, quando Sidney fez 2×0.
A comemoração dos jogadores aconteceu ao lado do gramado, justamente onde eu estava. Foi quando minhas dúvidas acabaram. Larguei o microfone no chão e fui comemorar com os jogadores.
Quando o narrador Silva Neto, tão sãopaulino quanto eu, pediu a descrição do lance, silêncio total.
De cara, lá do estúdio da rádio, cortaram a minha linha de transmissão, um trambolho com um fio quilométrico acoplado a uma caixinha e ao microfone que a gente tinha que desenrolar e enrolar antes e depois de cada partida, e passei o resto do jogo apenas assistindo, até invadir o gramado para comemorar, desta vez o título, em meio a torcedores e jogadores.
Como eram tempos românticos, levei apenas uma suspensão de três dias.
E, pior dos castigos, não me escalaram mais para os jogos do São Paulo.
Jornalista para sempre!
Abril de 1977. Lá se vão 46 anos desde que o menino tímido e inseguro adentrou no jornal A Região, em Osasco, com um texto escrito a mão e foi recebido pelo dono do jornal, João Macedo de Oliveira. Não era o dono, acho que era um anjo, que me contratou na hora, talvez por bondade, talvez porque ali houvesse se dado a Epifania.
Naquela tarde chuvosa (como esquecer o tempo, tanto tempo depois?) me transformei no que já era desde os séculos e séculos amem. Jornalista. A Região, Diário de Osasco, O Batente (meu primeiro flerte com a imprensa de esquerda), Radio Iguatemi, Radio Difusora Oeste, Cidade Revista, esta ultima um projeto visionário com João Palma e Celso Villari, abatida por um cruzado. No caso o Plano Cruzado.
Em 1987, Alah sabe bem os motivos, o Sul da Bahia. Parecia um salto no escuro. Era a Luz. Por 13 anos, a TV Cabrália, pela intuição de Nestor Amazonas, e A Região (o mesmo nome outro anjo, que fingia ser demônio, mas era anjo), Manuel Leal. Minhas razões de viver e no caso de A Região, quase de morrer. Coberturas internacionais em Cuba e na Itália, reportagens memoráveis nos 500 ano do Brasil, a descoberta da fraude no Vestibular da Uesc, tráfico de crianças, a inacreditável história de Ferreirinha e Yolanda, o tráfico de crianças, a máfia dos cartões de crédito, um inesquecível programa especial nos 80 anos de Jorge Amado, e uma locomotiva com centenas de vagões de outras histórias.
O diretor de jornalismo que se transformou em Faculdade de Jornalismo. F..-se a modéstia!
Cansado de guerra, mas não de luta, o mergulho na assessoria de imprensa. Primeiro, Prefeitura de Itabuna, depois os Governos de Wagner Rui, Jerînimo. Esquerda volver. O indescritível prazer de fazer o que gosta com algo que se identifica.
Impossível resumir 47 anos de jornalismo num texto tão curto.
Daria um livro, que a propósito escrevi cinco, mas isso é outra história.
Combati o bom combate, evitei os atalhos para seguir o caminho muitas vezes tortuoso, mas que eu acreditava (e acredito!) ser o mais correto.
O futuro?
Nesses sombrios tempos onde o futuro pode se encerrar nos próximos segundos, reitero o que já escrevi uma vez, parafraseando um certo Tiradentes:
-Se mil vidas eu tivesse, em mil vidas seria jornalista…
E a História nos esqueceu…

Rádio Iguatemi, Osasco (SP), 1980. A emissora operava em Ondas Tropicais, podia ser ouvida na Amazônia, nos rincões da América do Sul, mas em Osasco mesmo era captada em aparelhos de rádio especiais. Ou seja, era “falando para o mundo e cochichando para ninguém”.
Ainda assim, eu, Cláudio Cruz (um dos amigos que preservei mesmoe quase 30 anos depois de ter trocado São Paulo pela Bahia falecido prematuramente ) e Chico Motta (que depois se elegeria vereador), fazíamos com galhardia um programa esportivo diário.
Acho que só o operador de áudio ou algum visitante eventual que estivesse no estúdio (ou então algum índio amazônico, um cocalero boliviano, um peruano perdido lá pelos altos de Machu Pichu) ouvia aquele programa; mas era como se falássemos para Osasco inteira e para boa parte de Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi e outras cidades da Região Oeste da Grande São Paulo.
Para nós não bastava apresentar um programa esportivo na única emissora de rádio de Osasco. O pioneirismo nos convocava, atiçava.
Pois eu, Chico e Cláudio decidimos que seríamos os primeiros a transmitir ao vivo um jogo entre dois times de futebol profissional de Osasco,
“Profissional” é um pouco de exagero. Rochdale e Montenegro disputavam o equivalente à 5ª. Divisão do futebol de São Paulo e teriam certa dificuldade em vencer o Itabuna e o Colo Colo, times do Sul da Bahia cujos jogadores tinham/tem sérias dificuldades de relacionamento com uma dama chamada bola de futebol.
Dedé do Amendoim, vascaíno, petista. E eterno!
Após 46 anos percorrendo os bares de Itabuna com sua inseparável bicicleta, vendendo amendoim e ovo de codorna, Dorival Higino da Silva, também conhecido como Dedé do Amendoim ou, por motivos óbvios, Tesão, pendurou as chuteiras e os pedais em 2016.
Com oito filhos criados graças à sua labuta incansável, foi curtir a família e torcer/sofrer com o Vasco da Gama, seu time de coração, até ser acometido de uma enfermidade que o manteve recluso em casa.
Como Pelé, deixou sucessores na labuta para ganhar honestamente o suado pão de cada dia, mas não substitutos, porque Dedé era dessas figuras que mereceram o adjetivo “insubstituível”.
Dedé do Amendoim é, ao lado do Caboco Alencar, que teve que fechar o ABC da Noite por conta da pandemia e só agora promove uma reabertura gradual funcionando apenas aos sábados, é seguramente um dos personagens mais fascinantes da boemia itabunense, com histórias que dariam um livro.
Uma delas, ocorrida em meados dos anos 90, dá bem a dimensão do estilo Dedé. Vendia ele seus amendoins e seus ovos de codorna no Katiquero, vestindo com orgulho uma camisa do PT, quando um desses babacas que infelizmente poluem os bares perpetrou:
-Tira a essa camisa horrível que eu compro tudo…
Ao que Dedé respondeu na lata:
-Pois pra gente como você eu prefiro não vender nada…
E seguiu em frente, com sua bicicleta e sua dignidade.
Em 2022 Dedé foi vender seus ovos de codorna e seus amendonis lá no céu (fico aqui imaginando uma orgia angelical dados os efeitos propagados do amendoim).
Em tempo 2: O Katiquero reabriu com outro nome e outro proprietário . Ou seja, não reabriu…
Tá demitido!!!
Daniel Thame
Essa quem me contou foi o insuspeito Nestor Amazonas, que freqüentava muito a Rede Manchete, nos tempos em que a TV Cabrália era afiliada à emissora carioca.
Adolfo Bloch, já em fase outonal e vendo a televisão sugar todos os recursos do Grupo Manchete (que incluía gráfica, emissoras de rádio e uma revista de variedades/reportagens), andava pelos corredores do suntuoso prédio da tevê, implicando com Deus e o mundo.
Certo dia, ao deparar-se com o limpador de vidros com as roupas desalinhadas, não cortou conversa:
-Você está demitido, pode passar no departamento pessoal.
O rapaz foi se lamentar com seu chefe imediato, que foi logo dando um jeitinho:
-Seu Bloch anda meio estressado. Vá para outro andar e continue trabalhando…
Minutos depois, eis que seu Bloch aparece no tal “outro andar” e se repara com o mesmo rapaz limpando os vidros.
A cena que se seguiu é de puro nonsense:
-Ô meu rapaz, veja se arruma melhor suas roupas. Eu acabei de demitir um rapaz no andar de cima justamente porque ele estava mal vestido…
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PS- Aos interessados na história da ascensão e ruína do Império dos Bloch, sugiro o livro “Os Irmãos Karamabloch”, de Arnaldo Bloch, editado pela Companhia das Letras.

















