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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

junho 2024
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:: ‘TV Cabralia’

Nestor Amazonas, o cinegrafista e o pitú

 

Daniel Thame

dt chapeuComeço da TV Cabrália. 1988. Tempo em que as equipes de reportagem corriam atrás da notícia sem preocupação em economizar na gasolina ou na diária do repórter, do cinegrafista, do auxiliar e do motorista.

Hoje, a equipe se limita ao repórter e ao cara que acumula as funções de motorista/cinegrafista. Em alguns casos é a  “equipe de um só”.

Voltando à Cabrália. A equipe saiu para fazer uma matéria em Ubaitaba e aproveitou para fazer outra reportagem sobre a situação precária da rodovia Ubatã-Ipiaú. Duas boas reportagens, veiculadas nos telejornais da emissora.

Até aí, nada demais. Boas reportagens eram marca da Cabrália, uma espécie de pré-faculdade de Comunicação no Sul da Bahia, tamanho o número de profissionais que formou. O problema foi a conta do almoço, que incluiu até pitú.

nestorNestor Amazonas,  o mentor da TV Cabrália,  um dos mais completos profissionais de tevê do país, era um cara legal, mas não era dado a exageros, porque a emissora tinha dono e dono não costuma rasgar dinheiro.

Quando Nestor foi questionar a despesa, o cinegrafista esperneou:

-Ô Nestor, qualé? Eu tô acostumado a comer bem na minha casa!

Nestor encerrou o assunto:

-Vou almoçar hoje na sua casa. Se tiver pitú, a tevê paga essa conta. Se não tiver, você paga.

Desnecessário dizer quem teve o salário desfalcado no final do mês.

 

 

 

TV Cabrália, ´Faculdade de Comunicação` e a moça do posto de gasolina

Daniel Thame

 

Quando a  TV Cabrália,  primeira televisão do interior do Norte-Nordeste foi implantada em 1987 em Itabuna,  no Sul da Bahia, não havia faculdade de comunicação fora de Salvador.

 

E como gestor que deu vida a essa aventura épica,  Nestor Amazonas, a quem essa região desmemoriada  ainda deve o merecido reconhecimento,  queria trabalhar profissionais de fora,  a opção foi contar com mão de obra local.

 

Que mão de obra local, cara pálida, se a emissora, como se disse, era pioneira.

A primeira loucura-sana de Nestor foi me colocar como Gerente de Jornalismo, responsável entre outras coisas para montar a equipe de repórteres e apresentadores.

 

Jornalista com boa formação em mídia impressa e rádio,  expertise de vida moldada por uma década de mochileiro nas quebradas de nuestra América, mas conhecimento de televisão, zero, zero, zero!

O fato que é, na base da intuição (e também fazendo muita merda, até que um dia Nestor decretou que a cota de merda estava encerrada),  ao longo de uns sete a oito anos, acabei formando uma geração talentosa de profissionais de tevê, que se espalharam por Salvador, Feira de Santana, Conquista, Juazeiro, Santa Catarina, Rio de Janeiro e  São Paulo.

As tevês baianas Aratu, Itapoan e Rede Bahia se fartaram de contratar repórteres e apresentadores da Cabrália, sem que a gente pudesse desfrutar esses talentos por mais tempo.

Por esses acasos do destino e porque (como diria de novo el viejo Nestor, o que me faltava de talento sobrava de capacidade de trabalho, algo do tipo ´burrito, pero cumplidor`), acabei me tornando o que hoje a idade permite dizer sem  ser cabotino, a primeira ´faculdade de comunicação´  destas Terras do Sem Fim.

 

Citei Jorge Amado, mas o fato que levou a esse bolodório todo é digno do realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez.

 

Põe no ar:

 

Estava eu numa das ilhas de edição (um trambolho pré-histórico comparado à tecnologia de hoje) preparando as matérias do Jornal do Meio Dia, quando minha atenção é desviada para a ilha de edição ao lado, em que aparecia a imagem de uma moça gravando o sorteio de vales-gasolina, devidamente paramentada com o uniforme do Posto Universal.

 

(Antes que me acusem de um merchan descaradinho, eu nem dirijo e o  isqueiro pra acender meus Cohibas é a gás).

 

Volta pra ilha de edição. Esqueci as matérias, fui pra outra ilha, a da moça do posto, e me bastaram três minutos.

Me dirigi ao estúdio com uma única folha do script do jornal, e diante de uma equipe que não entendeu nada, mandei parar a gravação do sorteio, coloquei a folha no teleprompter (uma máquina com umas letras imensas, onde os apresentadores leem as noticias), pedi pra moça (essa sem entender menos ainda) sentar na mesa de apresentação do telejornal  e assim que eu desse o comando lá da ilha de edição, lesse a nota.

 

Leu uma, leu duas e nem precisou ler três vezes.

 

Voltei ao estúdio e  ainda sem saber o nome dela, decretei:

 

-Moça, avisa o dono do posto pra ele arrumar outra pessoa pra fazer o sorteio de gasolina. Você começa a trabalhar com a gente amanhã.

 

A Nestor Amazonas eu disse apenas: “acabo de descobrir uma daquelas apresentadoras que vão fazer história”.

Nestor foi menos retórico:

-Contrata.

Com uma semana, a agora ex-moça do posto já estava apresentando o jornal do Meio Dia, depois dividiu comigo e com Eduardo Lins (esse é outra história ´gaboniana´) uma experiência fantástica chamada Jornal da Semana, espécie de precursor e primo pobre do Mosaico Baiano, passou pela TV Santa Cruz e foi brilhar na Rede Globo e na Rede Manchete, depois Rede TV, Jovem Pan , onde, nas idas de uma de minhas filhas, Hannah Thame, para especializações em Medicina Veterinária, não apenas a recebia em sua casa (eu a chamo de Mãe de Adotiva de Hannah em Sunpolo), como quando a apresentava ao pessoal das tevês sempre repetia a mesma história: “essa menina é filha do rapaz que me tirou do sorteio do posto e me transformou em profissional de televisão…

 

O nome dessa moça, hoje dedicada a viagens esotéricas mundo afora mas sem se afastar   das comunicações, atende pelo nome de Cláudia Barthel.

 

Dona de um talento que não cabe nem na maior das telas e uma virtude rara nessa máquina de egos chamada televisão: gratidão.

 

No caso aqui, o grato sou eu!

 

E vamos aos nossos comerciais…

 

Rio Grande do Sul, Dom Paulo, TV Cabrália e os nossos ´catarinenses`

Daniel Thame

A tragédia do Rio Grande do Sul, que deixou dezenas de vítimas fatais e milhares de desabrigados e está fazendo com que o Brasil se mobilize numa emocionante corrente de solidariedade, me fez lembrar de um pecadilho cometido  três décadas atrás.

O tempo, senhor da razão (e das dores nas costas, dos cabelos brancos e ralos e otras cositas mas) permite essas reminiscências. Até porque, o tal pecadilho que aqui vou revelar em nada altera uma eventual recusa ou um improvável passaporte para o Reino dos Céus.

TV Cabrália, 1992. Como ocorre agora com o Rio Grande do Sul,  Santa Catarina enfrentava uma enchente apocalíptica e o Vale do Itajaí foi arrasado pela fúria das águas. A Rede Manchete, da qual a Cabrália era afiliada, fez uma campanha para arrecadar alimentos, remédios, roupas e cobertores para os flagelados.

A TV Cabrália entrou na campanha e em poucos dias arrecadou toneladas de donativos, que seriam enviados a Santa Catarina.

Uma noite, por volta das 20 horas, entro no estúdio abarrotado de solidariedade, onde mal havia espaço para as câmeras e a mesa do apresentador.

 

De repente, me deu o estalo.

Naquele mesmo ano, moradores da Bananeira e do Gogó da Ema,  bairros paupérrimos da periferia de Itabuna, estavam sofrendo com as cheias do Rio Cachoeira. Nada que se comparasse à tragédia de Santa Catarina, mas centenas de famílias perderam seus parcos pertences e muitas estavam desabrigadas.

O raciocínio foi óbvio.

Se a gente pedisse donativo pras vítimas das enchentes em Itabuna, é provável que o retorno seria quase nenhum. Já para os catarinenses, em função da comoção nacional que se criou, mal havia espaço para colocar tantas doações.

Veio o estalo.

E com a cumplicidade do então Bispo Diocesano de Itabuna, Dom Paulo Lopes de Faria (esse sim, com certeza, já habitando o Reino dos Céus), a quem consultei sobre a minha intenção, uma parte dos donativos foi entregue para uma Igreja Católica e dali  para as famílias da Bananeira e do Gogó da Ema.

A outra parte, é bom que se diga, seguiu para os catarinenses, que sem saber e por linhas tortas, proporcionaram  um gesto de solidariedade aos itabunenses, irmãos de pátria e de infortúnio.

 

(Em tempo: antes de partir para o Céu dos Homens Bons e Justos, Dom Paulo foi meu parceiro em outra aventura: impedir que a Policia Militar de ACM, com sua conhecida ´gentileza´, invadisse a sede do MST em Itabuna para ´acariciar´ os sem-terras. Mas isso é outra história…)

Profissão Repórter-Memórias de um 22 de abril…

 

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Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de  45 anos de estrada, 36 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, negros,  sem-terras e estudantes.

Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.

 

Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.

A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos

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Vitória da Conquista, TV Cabrália e os ´riconheiros´ intocáveis. Ou nem tanto

 

 

Daniel Thame

Vitória da Conquista, final dos anos 80. A sucursal da TV Cabrália no Sudoeste Baiano dando os primeiros passos e lá estava eu, então gerente de jornalismo da emissora em Itabuna, na fase de ajustes da equipe local.

Tempos tão ´dinossauricos´ que as matérias eram enviadas de ônibus para Itabuna em fitas U Matic e editadas para entrarem nos telejornais.

Pré-histórico, mas ainda assim era inovador, porque a gente editava como se fosse ao vivo no Jornal do Meio Dia e no Repórter Regional.

Eis que o repórter Junior Patente chega da rua com a reportagem da prisão de quatro jovens, com uma senhora quantidade de maconha.

Fita pronta pra ser enviada, o então editor de jornalismo, cujo nome não vem ao caso (gracias Moro!), me diz:

-Essa matéria não pode sair, porque é tudo filho de gente conhecida.

Por “conhecida”, entenda-se, gente com grana ou com poder político.

Fui na jugular:

-E se fosse gente pobre, poderia sair?

O silêncio ensurdecedor do editor foi a resposta que eu esperava.

A matéria saiu e o editor demitiu-se logo depois, embora os jovens nem chegaram a sentir o gostinho da cadeia.

Afinal, em qualquer tempo, certas coisas definitivamente ´não vem ao caso`…

 

PS-O que vem ao caso é essa PEC  que criminaliza o porte de maconha  de forma genérica.

Ficamos assim, branco, rico e de bairro nobre com ´trocentos´ quilos é usuário; preto, pobre e da periferia com dez gramas é traficante e cadeia nele.

E viva o Congresso Irracional!

A TV Cabrália, o ´comunista´ e os santos bairros

Daniel Thame

A IURD ainda estava engatinhando no negócio de televisão e a TV Cabrália, no Sul da Bahia, foi uma das primeiras aquisições.

 

Como numa espécie de ´laboratório`, diretores da emissora, geralmente pastores, começaram a conviver com um veículo que, a partir da compra da Rede Record, impulsionou a expansão da Igreja, hoje uma das maiores do Brasil e que se espalhou pelo mundo.

 

Mas, pulando os bolodórios,  os diretores/pastores eram gente boa, bem intencionados mas já influenciados por uma ojeriza a tudo o que fosse de esquerda, essa coisa de comunista que não acredita em Deus.

 

Imagina então ter na direção do jornalismo alguém que mesmo não sendo comunista e acreditando em Deus, era filiado ao PT, defensor do MST e dos indígenas e para completar diretor do Sindicato dos Jornalistas, com imunidade que impedia a demissão.

 

Não pode demitir, vigia, porque  (só pra dourar o texto), o diabo mora nos detalhes.

Em sendo assim, toda manhã eu tinha que passar a pauta do dia para o pastor e também o script dos telejornais.

 

Um dia, por falta de assunto, uma das matérias era sobre a precariedade no  bairro São Lourenço (matéria de bairro é, sempre foi, é e sempre será a salvação dos dias em que nada de interessante acontece).

 

Quando pega o roteiro, o diretor, cujo nome não me lembro e não vem ao caso, perpetra:

-Nome de santo não pode! Coloca só bairro Lourenço.

Disfarço o espanto e explico:

-Mas pastor, não é o nome do santo, é o nome do bairro.

 

Ele deve ter pensado ´esse moloque pensa que enrola?` e foi taxativo:

 

-Coloca só Lourenço, eu já disse…

“Eu já disse”  era um eufemismo para “eu mandei”.

 

Eu podia obedecer e a gente entraria para o anedotário da tevê brasileira, quiçá mundial. Mas obedecer nunca foi o meu forte, como bem dizia o saudoso fundador da TV Cabrália, Dr. Luiz Viana Neto.

E insisti:

-Pastor, o senhor que é manda, mas grande parte dos bairros de Itabuna tem nome de santo. Imagina a gente colocar bairro Caetano, bairro Antônio, bairro Pedro, bairro Judas, bairro Inês, bairro Clara…

 

Ele  refletiu um pouco, deve ter se dado conta que  comunista não acredita nem em Deus e muito menos em santo e cedeu:

-Tá bom Daniel, deixa bairro São Lourenço.

 

Cedeu mas nem tanto:

-Mas vê se não fica fazendo matéria nesses bairros com nome de santo.

Eu que me virasse pra achar problemas na Mangabinha no Pontalzinho, no Califórnia, no Fátima….

Epa, Fátima não, que é nome de Nossa Senhora!!!

 

E vamos aos nossos comerciais…

 

PS- A única concessão que a Record fez foi ter sua sede em …São Paulo, não por acaso o mais poderoso dos santos….

No ar, a TV Cabrália

No ar, a TV Cabrália

Daniel Thame

 

Dt w6newsO mês era dezembro e o ano era 1987.

Em Itabuna, todas as cores no ar anunciavam a chegada de uma nova estação. Não era o verão.

Quem chegava -e lá se vão 36 anos- era a TV Cabrália, primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste, não apenas uma repetidora da programação da Rede Manchete, a quem era afiliada.

Mas uma emissora com programação própria, vida própria e, principalmente, com a alma do Sul da Bahia.

A chegada de TV Cabrália, como era de se esperar, gerou expectativa e euforia, numa civilização orgulhosa de seu fruto de ouro e de ter forjado o próprio desenvolvimento.

O fruto de ouro, dois anos depois, perderia seu brilho, esplendor e pujança por conta de uma doença com poderes de bruxa malvada.

A TV Cabrália, símbolo daquele tempo, atravessou sobressaltos, mas resistiu ao apocalipse econômico e social  que as bruxarias provocaram, fez história. E que história.

Começou como afiliada da Rede Manchete, depois SBT e, adquirida pela Igreja Universal do Reino de Deus, passou pela  fugaz  Rede Familia, teve uma incipiente fase na Rede Mulher e hoje integra a Rede Record.

É possível dizer que mudou sem mudar, porque ao longo destas quase quatro décadas, continua sendo o que sempre se propôs a ser: uma televisão com a cara e as cores do Sul da Bahia, com uma profunda identidade regional.

Gestada pelo espírito empreendedor do Dr. Luiz Viana Neto e que ganhou forma nas mãos do visionário Nestor Amazonas, a TV Cabrália, além de acompanhar os principais acontecimentos e se envolver nas grandes causas sulbaianas nestes 36 anos, foi uma espécie de escola de profissionais de televisão, profissão até então inexistente por essas plagas amadianas e/ou pragas vassorianas, com o perdão do trocadilho irresistível.

 

Vilma Medina, Mauricio Maron, Claudia Barthel,  Selma Aguiar,  Paula Maciel, Eduardo Lins, Roger Sarmento, Napoleão Fernandez, Madalena Braga, Andrea Silva, Adriana Quadros, Valdenor Ferreira, Renata Smith,  Delza Schaun, Iruman Contreiras, Junior Patente, Ramiro Aquino, Paulo Lavinsky, Cícero Dantas, Jota Borges, Roger Sarmento, Barbosa Filho,  Adriana Dantas, Tom Ribeiro, Carlos Barbosa,  Auriana Bacelar.

 

Uma seleção do melhor jornalismo, em qualidade e comprometimento com a profissão.

No comercial, Rui Carvalho , os saudosos  Rogélio Duran e Carlos Hellstrom;  Cristine Ribeiro.

Gente que fez história neste que é um momento histórico para as telecomunicações baianas.

36 anos neste dezembro de 2023. E que venham os 50, os 75, os 100 anos dessa TV Cabrália que é e sempre será o nosso primeiro amor.

 

(*) Daniel Thame, paulista de Osasco, radicado há 30 anos em Itabuna, foi gerente de jornalismo da TV Cabrália  desde a sua fundação em 1987 até o ano 2000. É também o primeiro funcionário registrado da emissora, o que não é muita coisa, mas também é muita coisa.

 

Luiz Viana Neto, TV Cabralia e um ´repirror´ em Ilhéus

dr luizDaniel Thame

dthameTV Cabrália, metade da década de 1990. Depois de implantar e consolidar a emissora como a imagem e a voz do Sul da Bahia, Nestor Amazonas partiu para encarar novos desafios. Ramiro Aquino ocupava a superintendência e eu comandava o departamento de Jornalismo.

 

A liberdade que o dono da emissora, o Dr. Luiz Viana Neto, que já partiu para a Eternidade, nos dava era tamanha que perdia-se o anunciante, tipo prefeitura ou supermercado, porque uma matéria-denuncia ia ao ar, para desespero do departamento comercial, então comandado por Rui Carvalho, hoje boss da RCM, uma das melhores agências de publicidade da Bahia.

 

No espectro político, a TV era quase um apêndice do PT e dos sindicatos, numa época em que PT e sindicatos não eram propriamente bem digeridos.

 

Mas o Dr. Luiz sabia disso e nunca partiu dele um único ato de censura.

 

Até um belo dia (sempre chega o belo dia,  e quase sempre prenuncio de tempestade), o Dr. Luiz convida Ramiro e a  mim para um ´rapirror´ no Hotel Jardim Atlântico, então o mais luxuoso de Ilhéus.

 

Uisque vai, uísque vem (eu odeio uísque, adoro é uma cachacinha, mas não ia fazer desfeita ao doutor Luiz), desce um camarão aqui, um peixinho ali. “Como vai a família?”, “O cacau ainda tem futuro?”, “O Rio Cachoeira está muito poluído?” e outras amenidades.

 

E  eu discretamente olho pra Ramiro como quem diz: “O Dr. Luiz não chamou a gente aqui pra comer e beber do bom e do melhor,  nem pra esse lenga-lenga”.

 

Não chamou  mesmo. Lá pelas tantas, as sutilezas foram jogadas ao mar.

 

Sem elevar o tom de voz, o Dr. Luiz se vira para mim e diz:

 

-Eu sei como você toca o jornalismo e  respeito suas posições políticas. Mas eu sou de direita e se você quiser continuar fazendo esse tipo de jornalismo compre uma televisão pra você.

 

Comprar uma televisão? Só se fosse um aparelho nas Casas Bahia (olha o jabazinho aí!) e ainda assim a perder de vista no  crediário.

 

Sejamos justos a esse extraordinário ser humano, que nem era tão de direita assim, mas um democrata conciliador que convivia bem com todas as tendências políticas.

 

O Dr. Luiz produziu uma frase de efeito, porque se dono ele era e as orientações eram claras, não foram poucas as vezes que essas ordens foram solenemente ignoradas e em vez de punição, recebi outra frase de efeito:

 

-Você tem um sério problema auditivo, só escuta o que é conveniente.

Em tempo: a TV Cabrália foi um divisor de águas na comunicação regional, mas até hoje o Dr. Luiz Viana Neto não teve o devido reconhecimento nessas quase plagas grapiunas.

 

Se eu tivesse comprado uma televisão…

Jornalista para sempre!

 

dt

 

Abril de 1977. Lá se vão 46 anos desde que o menino tímido e inseguro adentrou no jornal A Região, em Osasco, com um texto escrito a mão e foi recebido pelo dono do jornal, João Macedo de Oliveira. Não era o dono, acho que era um anjo, que me contratou na hora, talvez por bondade, talvez porque ali houvesse se dado a Epifania.

Naquela tarde chuvosa (como esquecer o tempo, tanto tempo depois?) me transformei no que já era desde os séculos e séculos amem. Jornalista. A Região, Diário de Osasco, O Batente (meu primeiro flerte com a imprensa de esquerda), Radio Iguatemi, Radio Difusora Oeste, Cidade Revista, esta ultima um projeto visionário com João Palma e Celso Villari, abatida por um  cruzado. No caso o Plano Cruzado.

dt cubaEm 1987, Alah sabe bem os motivos, o Sul da Bahia. Parecia um salto no escuro. Era a Luz. Por 13 anos, a TV Cabrália, pela intuição de Nestor Amazonas, e A Região (o mesmo nome outro anjo, que fingia ser demônio, mas era anjo), Manuel Leal. Minhas razões de viver e no caso de A Região, quase de morrer. Coberturas internacionais em Cuba e na Itália, reportagens memoráveis nos 500 ano do Brasil, a descoberta da fraude no Vestibular da Uesc, tráfico de crianças, a inacreditável história de Ferreirinha e Yolanda, o tráfico de crianças, a máfia dos cartões de crédito, um inesquecível programa especial nos 80 anos de Jorge Amado, e uma locomotiva com centenas de vagões de outras histórias.

O diretor de jornalismo que se transformou em Faculdade de Jornalismo. F..-se a modéstia!

Cansado de guerra, mas não de luta, o mergulho na assessoria de imprensa. Primeiro, Prefeitura de Itabuna, depois os Governos de Wagner  Rui, Jerînimo. Esquerda volver. O indescritível prazer de fazer o que gosta com algo que se identifica.

Impossível resumir 47 anos de jornalismo num texto tão curto.

Daria um livro, que a propósito escrevi cinco, mas isso é outra história.

Combati o bom combate, evitei os atalhos para seguir o caminho muitas vezes tortuoso, mas que eu acreditava (e acredito!) ser o mais correto.

O futuro?

Nesses sombrios tempos onde o futuro pode se encerrar nos próximos segundos, reitero o que já escrevi uma vez, parafraseando um certo Tiradentes:

-Se mil vidas eu tivesse, em mil vidas seria jornalista…

TV Cabrália, 35 anos. A imagem do Sul da Bahia

Com o produtor Luiz Henrique, o repórter Mauricio Maron, Jaques Wagner e o cinegrafista Sebastião Ribeiro. Carnaval de Itabuna,. inicio dos anos 2000.

Com o produtor Luiz Henrique, o repórter Mauricio Maron, Jaques Wagner e o cinegrafista Sebastião Ribeiro. Carnaval de Itabuna,. inicio dos anos 2000. El tiempo pasa…

 

A TV Cabrália completa 35 anos  nesta segunda-feira, 12 de dezembro.

Primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste, com sede em Itabuna, Sul da Bahia, a TV Cabrália foi um divisor de águas na comunicação regional.

Nestor Amazonas hoje em São Paulo, foi o alquimista que gestou uma tevê ~unica em seu tempo

Nestor Amazonas hoje em Aracaju, foi o alquimista que gestou uma tevê  única em seu tempo

Programas como o Cabrália Bom Dia, Jornal do Meio Dia, Repórter Regional, Cabrália Esportiva e Cabrália Rural durante mais de uma década valorizaram a programação regional, um marco na filosofia da emissora criada por Luiz Viana Neto e Henrique Marquez e gestada na genialidade ainda não devidamente reconhecida de Nestor Amazonas.

Este blogueiro, ex-jornalista em atividade e escritor extemporâneo, orgulha-se de ter sido o primeiro funcionário registrado pela TV Cabrália, onde ocupou o cargo de gerente de Jornalismo por 13 anos, até mergulhar nas aventuras e desventuras da assessoria política, em sucessivos governados do PT nas esferas municipal, estadual e federal.

Orgulho, entre outras coisas, de ter modestamente contribuído para o surgimento de profissionais como  Claudia Barthel, Mauricio Maron, Vilma Medina, Adriana Quadros, Eduardo Lins, Madalena Braga, Andrea Silva, Renata Smith, Roger Sarmento, Paulo Lawinsky. Delza Schaun, Rita Santana, Dirceu Góes, Paula Maciel e Patricia Abreu , que com seu talento romperam as fronteiras regionais. (Perdão se esqueci alguém e provavelmente esqueci, 35 anos não são 34 dias, quando se está chegando cruzou a barreira dos 60 de idade e mais de  40 na estrada do jornalismo)

 Alvíssaras ao nosso primeiro e eterno amor!





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