:: ‘TV Cabralia’
TV Cabrália, `Seu` Diógenes e Fernando Gomes, um duelo na portaria
Daniel Thame
Nos primórdios da TV Cabrália, e deve ser assim até hoje, a ordem era clara: sem se identificar, ninguém tinha acesso à emissora.
`Seu` Diogénes, o porteiro, era alguém para quem ordem não se discutia. Funcionário só entrava com crachá e visitante só com apresentação de documento de identificação. Ponto final!
Eis que um belo dia, o então prefeito de Itabuna, Fernando Gomes, em seu segundo dos cinco mandatos, chega para conceder uma entrevista ao Repórter Regional , numa tentativa da direção da emissora de estreitar as relações com o alcaide, que não eram necessariamente amistosas, em função do jornalismo demasiadamente independente praticado pela Cabrália naqueles tempos de antanho.
E eis que ao se dirigir à porta de entrada, Fernando Gomes é abordado por `seu` Diógenes:
-Documentos, por favor…
Fernando achou que só poderia ser uma brincadeira:
-Mas que documento, rapaz? Sou Fernando Gomes, o prefeito…
Não era uma brincadeira:
-Sem apresentar a identificação o senhor não entra…
Fernando começou a ficar impaciente, aquilo não estava no script.
E foi ai que ´seu` Diógenes perpetrou:
-Como é que o senhor quer entrar sem se identificar? Eu já pedi documento de identificação até pra Waldir Pires…
(Abre parêntese: Waldir Pires era à época ninguém menos que o governador da Bahia e conta a lenda que, com aquela simplicidade de monge beneditino, se identificou e entrou. Fecha parêntese).
A citação a Waldir Pires, com quem Fernando já estava rompido, foi a gota d´água. O prefeito simplesmente virou as costas e foi embora sem dar a entrevista.
Fernando Gomes retornou dias depois, após as devidas escusas da direção, que providencialmente escalou um outro porteiro para recebe-lo.
Porque para ´seu` Diogenes, hoje gozando a merecida aposentadoria, sem documento não entrava, fosse ele Fernando Gomes, Waldir Pires ou Papa, posto que ainda eram tempos em que um Papa, caso se aventurasse nas terras do cacau, seria recebido de braços abertos na emissora.
Depois de se identificar para ´seu` Diógenes, per supuesto.
TV Cabrália, Hotel Comandatuba e “rico come cada coisa”

Daniel Thame
TV Cabrália, início da década de 90. O recém inaugurado Hotel Transamérica, na paradisíaca (que certa feita um repórter da emissora confundiu com afrodisíaca, sabe-se lá porque) Ilha de Comandatuba, recebia famosos e endinheirados de São Paulo, Rio e Brasília, além de políticos de altíssimo escalão.
A gente tinha um esquema lá que sempre que chegava alguém famoso ou importante, era avisado. Para uma tevê regional, era uma festa entrevistar personalidades que só apareciam na então monopolista Rede Globo.
Os vips sentiam a nossa empolgação e quase sempre colaboravam, dando entrevistas para a Cabrália como se estivessem falando para o mundo. A gente fazia a gravação e ia almoçar no continente, porque a grana da diária não dava pra encarar um copo de água mineral no hotel, quanto mais um almoço.
Até que certa feita, fomos entrevistar o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, que descansava no hotel com a família.
Político não pode ver um microfone, seja ele da BBC, seja ele do serviço de alto falante de Potiraguá.
Ele deu uma longa entrevista, que a gente poderia usar durante uma semana nos telejornais.
Encerrada a gravação, Quércia convidou a equipe para almoçar. Para quem iria pegar um rango mulambento, aquilo era o que se pode chamar de convite irrecusável. Não recusamos. O almoço, como se previa, era um banquete. Todo tipo de saladas, pratos frios, pratos quentes, sobremesas. De se lamber os beiços.
Na equipe, havia um auxiliar de cinegrafista (função que hoje nem existe mais), meio tabaréu (caipira em baianês), que ficou observando como as pessoas se serviam, pra não passar vergonha. :: LEIA MAIS »
TV Cabrália, 38 anos. A imagem do Sul da Bahia

Com o produtor Luiz Henrique, o repórter Mauricio Maron, Jaques Wagner e o cinegrafista Sebastião Ribeiro. Carnaval de Itabuna,. inicio dos anos 2000. El tiempo pasa…
A TV Cabrália completou 38 anos nesta sexta, 12 de dezembro.
Primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste, com sede em Itabuna, Sul da Bahia, a TV Cabrália foi um divisor de águas na comunicação regional.

Nestor Amazonas hoje em Aracaju, foi o alquimista que gestou uma tevê única em seu tempo
Programas como o Cabrália Bom Dia, Jornal do Meio Dia, Repórter Regional, Cabrália Esportiva e Cabrália Rural durante mais de uma década valorizaram a programação regional, um marco na filosofia da emissora criada por Luiz Viana Neto e Henrique Marquez e gestada na genialidade ainda não devidamente reconhecida de Nestor Amazonas.
Este blogueiro, ex-jornalista em atividade e escritor extemporâneo, orgulha-se de ter sido o primeiro funcionário registrado pela TV Cabrália, onde ocupou o cargo de gerente de Jornalismo por 13 anos, até mergulhar nas aventuras e desventuras da assessoria política, em sucessivos governados do PT nas esferas municipal, estadual e federal.
Orgulho, entre outras coisas, de ter modestamente contribuído para o surgimento de profissionais como Claudia Barthel, Mauricio Maron, Vilma Medina, Adriana Quadros, Eduardo Lins, Madalena Braga, Andrea Silva, Renata Smith, Roger Sarmento, Paulo Lawinsky. Delza Schaun, Rita Santana, Dirceu Góes, Paula Maciel e Patricia Abreu , que com seu talento romperam as fronteiras regionais. (Perdão se esqueci alguém e provavelmente esqueci, 35 anos não são 34 dias, quando se está se cruzou a barreira dos 65 anos de idade e quase 50 anos na estrada do jornalismo)
Alvíssaras ao nosso primeiro e eterno amor!
Nestor Amazonas, o cinegrafista e o pitú
Daniel Thame
Começo da TV Cabrália. 1988. Tempo em que as equipes de reportagem corriam atrás da notícia sem preocupação em economizar na gasolina ou na diária do repórter, do cinegrafista, do auxiliar e do motorista.
Hoje, a equipe se limita ao repórter e ao cara que acumula as funções de motorista/cinegrafista. Em alguns casos é a “equipe de um só”.
Voltando à Cabrália. A equipe saiu para fazer uma matéria em Ubaitaba e aproveitou para fazer outra reportagem sobre a situação precária da rodovia Ubatã-Ipiaú. Duas boas reportagens, veiculadas nos telejornais da emissora.
Até aí, nada demais. Boas reportagens eram marca da Cabrália, uma espécie de pré-faculdade de Comunicação no Sul da Bahia, tamanho o número de profissionais que formou. O problema foi a conta do almoço, que incluiu até pitú.
Nestor Amazonas, o mentor da TV Cabrália, um dos mais completos profissionais de tevê do país, era um cara legal, mas não era dado a exageros, porque a emissora tinha dono e dono não costuma rasgar dinheiro.
Quando Nestor foi questionar a despesa, o cinegrafista esperneou:
-Ô Nestor, qualé? Eu tô acostumado a comer bem na minha casa!
Nestor encerrou o assunto:
-Vou almoçar hoje na sua casa. Se tiver pitú, a tevê paga essa conta. Se não tiver, você paga.
Desnecessário dizer quem teve o salário desfalcado no final do mês.
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Vitória da Conquista, TV Cabrália e os ´riconheiros´ intocáveis. Ou nem tanto…

Daniel Thame
Vitória da Conquista, final dos anos 80. A sucursal da TV Cabrália no Sudoeste Baiano dava os primeiros passos e lá estava eu, então gerente de jornalismo da emissora em Itabuna, na fase de ajustes da equipe local.
Tempos tão ´dinossauricos´ que as “cabeças” gravadas pelo apresentador matérias eram enviadas de ônibus para Itabuna em fitas U Matic e editadas para entrarem nos telejornais.
Pré-histórico, mas ainda assim era inovador, porque a gente editava como se fosse ao vivo no Jornal do Meio Dia e no Repórter Regional.
Eis que num desses dias que em Conquista parece a Europa por causa do frio de congelar, o repórter Junior Patente chega da rua com a reportagem da prisão de quatro jovens, com uma senhora quantidade de maconha.
Fita pronta pra ser enviada para Itabuna, o então editor de jornalismo, cujo nome não vem ao caso (gracias Moro!), me diz:
-Essa matéria não pode sair, porque é tudo filho de gente conhecida.
Por “conhecida”, entenda-se, gente com grana ou com poder político.
Fui na jugular:
-E se fosse gente pobre, poderia sair?
O silêncio ensurdecedor do editor foi a resposta que eu esperava.
A matéria saiu e o editor demitiu-se logo depois, embora os jovens nem chegaram a sentir o gostinho da cadeia.
Afinal, em qualquer tempo, certas coisas definitivamente ´não vem ao caso`…
O homem samambaia (rico come cada coisa)
Daniel Thame
TV Cabrália, início da década de 90. O recém inaugurado Hotel Transamérica, na paradisíaca (que certa feita um repórter da emissora confundiu com afrodisíaca, sabe-se lá porque) Ilha de Comandatuba, recebia famosos e endinheirados de São Paulo, Rio e Brasília.,
A gente tinha um esquema lá, que sempre que chegava alguém famoso ou importante, era avisado. Para uma tevê regional, era uma festa entrevistar personalidades que só apareciam na então monopolista Rede Globo.
Os vips sentiam a nossa empolgação e quase sempre colaboravam, dando entrevistas para a Cabrália como se estivessem falando para o mundo. A gente fazia a gravação e ia almoçar no continente, porque a grana da diária não dava pra encarar um copo de água mineral no hotel, quanto mais um almoço. :: LEIA MAIS »
TV Cabrália renova parceria com o Mutirão do Diabetes de Itabuna
A TV Cabrália-Rede Record renovou a parceria com o Mutirão do Diabetes de Itabuna, considerada uma das maiores ações de prevenção e tratamento da doença em todo o mundo, e incluído no calendário anual da Fundação Internacional do Diabetes. O apoio foi definido durante uma reunião com as presenças do diretor executivo da emissora Leandro Teixeira, a gerente comercial Cristine Ribeiro, o gerente de jornalismo Juca Badaró, o Dr. Rafael Andrade e Patrícia Ribeiro, da ONG Unidos pelo Diabetes, além de Elio Nascimento diretor do Hospital Beira Rio, a secretária executiva Gilmária Brito e a coordenadora de marketing Helen Carlos.

No encontro, foi destacada a importância da parceria da TV Cabrália-Record com o Mutirão do Diabetes por mais um ano, reforçando a importância da união entre imprensa, instituições de saúde e sociedade civil para ampliar o impacto desse grande movimento em prol da prevenção e do cuidado com o diabetes.

“Para a TV Cabrália, é motivo de orgulho apoiar um evento de grande alcance social, que mobiliza milhares de pessoas e faz de Itabuna um exemplo para o Brasil”, afirmou Leandro Teixeira. “A parceria com a TV Cabrália deu uma nova dimensão ao Mutirão, que hoje é reconhecido em todo o país. Seguimos juntos, com compromisso e dedicação, para transformar vidas e levar informação e saúde a toda a população”, destacou o Dr. Rafael Andrade.
Em 2025, o Mutirão do Diabetes acontece no dia 15 de novembro, com atendimento especializado no Hospital Beira Rio e ações de prevenção na Cidade do Diabetes na Praça Rio Cachoeira.
TV Cabrália e os ´nossos` catarinenses
Daniel Thame
TV Cabrália, inicio dos anos 90. Santa Catarina enfrentava uma enchente apocalíptica e o Vale do Itajaí foi arrasado pela fúria das águas. A Rede Manchete, da qual a Cabrália era afiliada, fez uma campanha para arrecadar alimentos, remédios, roupas e cobertores para os flagelados.
A Cabrália entrou na campanha e em poucos dias arrecadou toneladas de donativos, que seriam enviados a Santa Catarina.
Uma noite, por volta das 20 horas, entro no estúdio abarrotado de solidariedade, onde mal havia espaço para as câmeras e a mesa do apresentador. De repente, me deu o estalo.
Naquele mesmo período, moradores da Bananeira e do Gogó da Ema, bairros carentes de Itabuna, estavam sofrendo com as cheias do Rio Cachoeira. Nada que se comparasse à tragédia de Santa Catarina, mas centenas de famílias perderam seus parcos pertences e muitas estavam desabrigadas.
O raciocínio foi óbvio. Se a gente pedisse donativo pras vítimas das enchentes em Itabuna, é provável que o retorno seria quase nenhum. Já para os catarinenses, em função da comoção nacional que se criou, mal havia espaço para estocar tantas doações.
Não tive dúvidas. Com a cumplicidade do então bispo diocesano Dom Paulo Lopés de Faria, hoje habitando merecidamente o reino dos céus, uma parte dos donativos foi entregue para uma igreja e dali seguiu para as famílias da Bananeira e do Gogó da Ema.
A outra parte, é bom que se diga, foi entregue aos catarinenses, que sem saber e por linhas tortas, haviam proporcionado um gesto de solidariedade aos itabunenses, irmãos de pátria e de infortúnio.
A TV Cabrália, o ´comunista´ e os santos bairros

Daniel Thame
Itabuna, anos 80. A IURD ainda estava engatinhando no negócio de televisão e a TV Cabrália, no Sul da Bahia, foi uma das primeiras aquisições.
Como numa espécie de ´laboratório`, diretores da emissora, geralmente pastores, começaram a conviver com um veículo que, a partir da compra da Rede Record, impulsionou a expansão da Igreja, hoje uma das maiores do Brasil e que se espalhou pelo mundo.
Mas, pulando os bolodórios, os diretores/pastores eram gente boa, bem intencionados, mas já influenciados por uma ojeriza a tudo o que fosse de esquerda, essa coisa de comunista que não acredita em Deus e faz churrasquinho de crianças.
Imagina então ter na direção do jornalismo alguém que mesmo não sendo comunista e acreditando em Deus, era filiado ao PT, defensor do MST e dos indígenas e para completar diretor do Sindicato dos Jornalistas, com imunidade que impedia a demissão.
Não pode demitir, vigia, porque (só pra dourar o texto), o diabo mora nos detalhes.
Em sendo assim, toda manhã eu tinha que passar a pauta do dia para o pastor e também o script dos telejornais.
Um dia, por falta de assunto, uma das matérias era sobre a precariedade no bairro São Lourenço (matéria de bairro é, sempre foi, é e sempre será a salvação dos dias em que nada de interessante acontece).
Quando pega o roteiro, o diretor, cujo nome não me lembro e não vem ao caso, perpetra:
-Nome de santo não pode! Coloca só bairro Lourenço.
Disfarço o espanto e explico:
-Mas pastor, não é o nome do santo, é o nome do bairro.
Ele deve ter pensado: ´esse moloque pensa quer me enrolar?` e foi taxativo:
A TV Cabrália e a ´fumaça preta´ (Habbemus Cannabis!)

Daniel Thame
Essa história de fumaça preta e fumaça branca para a escolha do novo Papa me fez lembrar de uma história nos primórdios da TV Cabralia, comandada por Nestor Amazonas, lá pelo final dos anos 80.
Um cinegrafista e seu auxiliar, cujos nomes não vêm ao caso, foram vistos à noite na torre da emissora, em Itabuna, expelindo uma inconfundível fumacinha de aroma igualmente inconfundível.
Nestor não era fiscal do Ibama, mas ao saber que estavam ´queimando mato` no horário de trabalho (bons tempos em que as tevês locais tinham duas equipes de reportagem pela manhã, duas a tarde e uma à noite), e chamou os dois à sua sala. Bastava confirmar e o máximo que receberiam era uma bronca.
Mas ambos negaram e ainda se disseram indignados com aquela acusação injusta.
Nestor Amazonas, a quem a comunicação sulbaiana ainda deve o merecido reconhecimento, não era dado a lero lero. Foi direto ao ponto:
-Se vocês não estavam fumando maconha tarde da noite na torre da tevê, então estavam trocando c…
E perguntou, didaticamente:
-Vocês preferem sair dessa sala como viados ou como maconheiros?
Ambos optaram pela fumaça preta.
E habbemus cannabis!













