:: ‘Walmir Rosário’
A sentença contra o prefeito e whisky diário

Walmir Rosário
Recentemente abordei numa crônica um nosso professor de Direito Civil, Érito Francisco Machado (juiz, desembargador e presidente do TRT-BA 5ª Região), e recebi de colegas pedidos de novas histórias sobre ele. Mesmo sem ser preciso, não deixo de falar sobre seus atributos intelectuais, sua formação humanista e a independência em suas decisões.
Antes de Itabuna, aonde veio assumir a Justiça do Trabalho, foi juiz de Direito na Comarca de Irecê (BA), no final da década de 1950. E o Dr. Érito comentava que a prestação da justiça nos processos ia além dos autos, pois dependia da realidade e situação das partes. “Não posso condenar uma pequena empresa a pagar sentença absurda, fechar as portas e deixar outros 10 pais de família desempregados”, dizia.
E o juiz Érito Machado adotava uma linha de conduta rígida, a começar pelo modo de vestir, sempre social, se permitindo a tirar o paletó e arregaçar as mangas da camisa apenas quando ia à praia. Não frequentava qualquer ambiente, tampouco recebia presentes e outros mimos, obedecendo, rigorosamente, a liturgia do cargo e a educação familiar.
E ele nos contava que antes de ingressar na Justiça do Trabalho era juiz de Direito na comarca de Irecê. Reunia-se diariamente – após o expediente forense – na residência do prefeito, para um bate-papo intelectual seleto, com o padre, o diretor do ginásio, um pastor protestante, além do próprio alcaide e esporádicos convidados.
Menos lero e mais ciência na cacauicultura

Walmir Rosário
Não existe qualquer ser vivente que registre hoje um só político visitando a Ceplac e as fazendas de cacau do Sul da Bahia. Faz muito tempo que a cacauicultura baiana começou a ser desprezada por alguns setores da sociedade. E quem inaugurou essa virada foi o segmento bancário, fechando as torneiras para os financiamentos de custeio e investimento.
E esse caso de desamor data do final da década de 1980, com a infestação dos pés de cacau com a vassoura de bruxa, doença que dizimou os cacaueiros e quase mata sem dó nem piedade a principal matriz econômica do Sul da Bahia. Sem recursos para honrar seus compromissos com os trabalhadores, o manejo das roças e, sequer, comprar alimentos para a sua sobrevivência, o cacauicultor foi banido do mundo produtivo, comercial.
Nesta data era comum o desembarque de um monte de políticos no Sul da Bahia, para cumprir um extenso roteiro, a começar pelas instalações da Ceplac, fazendas (principalmente as mais infestadas) e redações de jornais, rádios e TVs. Com o cenho franzido, analisavam a situação de penúria do setor cacaueiro e prometiam reverter a terrível situação junto ao governo federal.
Os políticos de situação semeavam esperança ao garantir as ações salvadoras e os oposicionistas culpavam o governo pela imobilidade que resultou no maior crime de lesa pátria contra a região cacaueira. Como sempre, se autointitulavam representantes da lavoura e cobravam uma votação expressiva para eles (claro), pois assim teriam força para eliminar a crise.
Firmino Rocha, o orgulho da poesia itabunense

Walmir Rosário
Embora nunca tenhamos marcado qualquer encontro, religiosamente nos víamos, e sempre ao cair da tarde. Posso afirmar que nossos hábitos eram bem distintos em variados aspectos. Assim que terminava o expediente, eu o famoso operador de som da antiga Rádio Clube de Itabuna, Eliezer Ribeiro (Corpinho de Leão), nos dirigíamos ao Ita Bar para tomarmos um (uns) aperitivo(s).
Aos poucos, vislumbrávamos a figura do nosso personagem cruzar a rua que separava a praça Olinto Leone, onde morava, e embocar no beco em direção ao Ita Bar. Passava rente ao saudoso castelinho, com sua pasta de couro, daquelas que os vendedores viajantes utilizavam àquela época. No interior da pasta, nada de talões de pedidos ou prospectos de publicidades. Só poesias.
Pelo caminho o ritual diário era o mesmo: cumprimentava a todos com sorrisos, algumas frases de elogios, especialmente flores para as mulheres. Essa distinção era rotineira. As pessoas que ainda não o conheciam geralmente olhavam aquela figura com desconfiança, até serem informados e certificados que se tratava de Firmino Rocha, poeta, pessoa de bem, e para alguns com a cabeça nas nuvens.
A indumentária era a mesma: um terno surrado, voltado para a cor cinza, às vezes com gravata, bem frouxa no pescoço e a cabeça protegida por um chapéu de baeta. Sempre com um sorriso nos lábios. Se houvesse oportunidade, abriria a maleta e pegaria os papéis soltos ou o caderno e os mostraria, declamando uma das dezenas de poesias.
Ao chegar ao Ita, sentava-se num banco junto ao balcão ou à mesa diante dos convites. Luzia, a garçonete com anos de experiência e conhecimento dos fregueses, lhe servia uma cachacinha pura ou o famoso “leite de onça”, aperitivo da casa. Engrenava a conversa, apresentava seus novos trabalhos, desfiava versos de seus novos poemas.
É um erro o comunicador ser metido a besta

Orlando Cardoso
Walmir Rosário
Sem sombras de dúvida, o radialista Orlando Cardoso é um ícone da comunicação radiofônica de Itabuna. Não apenas pelos 64 anos ininterruptos à frente do microfone, mas pelo conceito adquirido junto aos ouvintes da região cacaueira. É preciso competência, carisma e credibilidade junto ao público – cativo – por longos anos.
E uma das marcas de Orlando Cardoso é ter responsabilidade em tudo que leva ao ouvinte, com o apoio de boa música e os comentários dos fatos no dia a dia de seus programas. E não é pra menos, pois a credibilidade do comunicador garante uma audiência cativa, com reflexos positivos na área comercial, com anúncios nos programas.
E a simplicidade de Orlando Cardoso não permite que ele fale sobre a publicidade no seu programa diário (matinal) Panorama 640 (meia quatro zero), sem espaços vazios na grade de comerciais. E cheios de orgulho, alguns colegas e amigos dizem que é o único programa a recusar novas publicidades, por um fator inédito: não existe espaço disponível.
Com toda a tranquilidade Orlando revela que o rádio lhe deu muita experiência de vida, a chance de conhecer parte do país, o que jamais teria em outras profissões. E não economiza elogios ao dizer que o rádio sempre foi tudo pra ele, depois de Deus e a família. E em seguida emenda que nunca foi metido a besta, o que lhe ajudou também na política.
Orlando Cardoso trabalhou nas três emissoras AMs de Itabuna – Difusora, Clube e Jornal – sempre disputando o primeiro lugar em audiência, com a mesma tranquilidade, focando sempre na sua comunicação. Numa conversa nossa há algum tempo ele disse que tem muita gente boa de audiência no rádio, mas que não conseguiu se eleger na política por não ser popular, simpático, e que a política não perdoa.
Mas os ouvintes não têm a menor ideia da trabalheira que é ser líder de audiência. E pra começo de conversa, exige um projeto que caia no gosto do ouvinte, acompanhado de músicas e boas informações. No esporte não é diferente e ele mesmo já passou muitos dissabores em estádios onde transmitia jogos da Seleção de Itabuna, a Hexacampeã Baiana de Amadores.
1952- a maior vitória do futebol tricolor

Walmir Rosário
Um livro para ficar na história dos torcedores do Fluminense carioca, ou das Laranjeiras, como queiram, estará à disposição dos tricolores de todo o Brasil, contando a história da 2ª Copa Rio, conquistada pelo Fluminense, em 1952, data do seu cinquentenário. E a obra do escritor Tasso Castro – 1952, A maior conquista do futebol tricolor – será lançada nesta segunda-feira (10 de fevereiro), às 18h30min, no Shopping Jequitibá, em Itabuna.
De pronto, vale avisar aos tricolores mais moços, que a Copa Rio foi o primeiro Campeonato Mundial de Clubes, realizado pela então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), a CBF da época, com licença da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Os jogos eram realizados no Rio de Janeiro e São Paulo, por equipes da Europa e da América Latina, duas delas brasileiras.
E o texto cirúrgico e preciso é o resultado de pesquisa realizada por Tasso Castro, que conta em detalhes o futebol da época, ressaltando o grande feito do Fluminense, desde a participação do Campeonato Carioca de 1951, considerado um timinho pela mídia. Além de faturar o Carioca de 51, os dirigentes ainda convenceram a CBD e a Fifa a realizarem a Copa Rio um ano antes, já que seria realizada de dois em dois anos, portanto, em 1953.
No livro, o Autor também mostra que o Fluminense foi o primeiro time brasileiro a vingar a nossa derrota de 1950 para a Seleção do Uruguai, que ficou conhecida como o “Maracanazo”. Isto porque o Fluminense jogou contra o Peñarol e aplicou um “chocolate” de 3X0, e nem tomou conhecimento dos carrascos Ghiggia, Schiaffino, dentre outros. Obdúlio Varela não jogou por estar contundido.
Esta vida social me deixa exausto

Walmir Rosário
Afirma o ditado que Deus escreve certo por linhas tortas. Concordo em gênero, número e grau e por tudo que há de mais sagrado, pois as confirmações sempre me são mostradas e com rigor, digamos, científico, ou quase. Este fim de semana, por exemplo, fui impedido de comparecer a uma série de eventos, já programados com bastante antecedência.
E o motivo foi pra lá de justo, aqueles incômodos nem tão inesperados, causados pelo nervo ciático e as imperfeições na velha coluna cansada de guerra. E o veredito foi dado de forma brusca pelo meu team de personal trainer, os professores Vilma e João José, que também carregam o sobrenome Rosário, proibindo qualquer estripulia.
Resignado, deixei de ir a Campo Formoso para comemorar, ao vivo e em cores, os 94 anos de minha mãe, no dia 1º. No mesmo dia ainda tentei que me liberassem para um pulinho em Itabuna, pois participaria dos festejos antecipados dos 94 anos do Caboclo Alencar, que reina absoluto no ABC da Noite, no Beco do Fuxico, e ainda daria os parabéns ao amigo e colega Gabriel Nunes e Paulo (Índio) Lima (todos no dia 2, junto com Yemanjá).

Todos os meus sonhos foram por água abaixo e me contentei em parabenizá-los por meio de mensagens no Whatsapp, sem um aperto de mão, um abraço apertado e, sequer, desejar tudo de bom nesta vida brindando com uns dois ou três goles de batida. Todo o meu planejamento seguiu água abaixo, ou como diriam os mais exaltados, o meu castelo ruiu, sem mais nem menos.
Ainda bem que alcancei a dádiva de comemorar recentemente os 80 anos do Almirante Nélson, numa festividade que deu o que falar em toda a Canavieiras, devido ao brilho dos serviços e ao número e qualidade dos convidados. É por isso que tenho a convicção de que nada mais correto do que “o que tiver que fazer hoje não deixe para o amanhã”.
A formação de craques na Itabuna do passado

Walmir Rosário
Mas qual eram os segredos para Itabuna formar tantos craques? De cara posso garantir que para um atleta atuar no Campo da Desportiva Itabunense era preciso passar por um verdadeiro vestibular, nos “babas” disputados em campinhos dos bairros ou escolinhas de futebol. Aprovado, a partir daí poderia tentar uma vaga nos times amadores.
Tínhamos, por exemplo, a Academia de Futebol Grapiúna, dirigida pelo cirurgião-dentista Demóstenes Carvalho, e os times de Adonias da Mangabinha, de Tim do bairro da Conceição, dentre outros. E os que mais se destacavam eram convidados a jogar nas diversas equipes aspirantes até chegar ao time de cima das agremiações amadoras.
E os campinhos de bairro não eram raridades, como hoje! Bastava um terreno baldio mais ou menos plano, sem muitas pedras, e duas traves. Era assim na Borboleta (hoje rodoviária); banca do peixe, Escola de Celina Braga Bacelar, Maravalha, (centro); São Judas Tadeu; campo do Tênis, torre da Rádio Difusora, Malícia, Brasilgás, Vila Zara, Eucaliptos (bairro da Conceição); Cortume (Banco Raso) para se submeterem aos olheiros e indicarem futuros craques.
O América da Vila Zara, comandado por Adonias, em 1963, era um dos times de camisa que forneceu jogadores para várias equipes. Em 1972, o mesmo América mantinha praticamente a mesma formação, mesclado com jogadores mais novos. João Garrincha, Dema, Betinho Contador, Zé Nito, Luiz Fotógrafo, e tantos outros.
“Só morrerei depois de ver Pelé jogar”

Walmir Rosário
O brasileiro sempre foi apaixonado pelo futebol. Não conheço nenhuma pesquisa que nos coloque no topo da pirâmide entre os vários países do mundo, mas nem precisa, somos nós e pronto. Nenhum povo alcançou os nossos feitos em copas do mundo, temos resultados fantásticos nos campeonatos mundiais de clubes e mais que o valham.
E nos apaixonamos por um clube, devotando a ele toda a nossa paixão. Pra cada um de nós o meu time é o melhor e só não ganhou o campeonato por fatores extracampo, como as decisões dos árbitros de futebol, cujas coitadas das mães são xingadas por qualquer motivo fútil. Pouco interessa se os diretores não contrataram os melhores jogadores e sim pernas de pau.
Mais que torcer por um time, alguns se apaixonam – no bom sentido – pelos craques, e isso tenho como provar desde meus tempos de menino lá pras bandas do ainda bucólico bairro da Conceição, em Itabuna. Tínhamos os nossos craques, jogadores dos times amadores e da imbatível Seleção Amadora de Itabuna, mas também devotávamos nosso amor pelos craques do Rio de Janeiro e São Paulo.
E um desses era o Tio Coló, que não era bom de bola, mas gostava de jogar com estilo. Estilo, aliás, era com o próprio: não dispensava uma calça de linho passada a ferro com goma, um sapato do tipo mocassim branco, camisa esporte listrada, fino violonista. No máximo se permitia andar com sandália japonesa, a legítima, nas cores preto e branco, como do Santos de Pelé.
Estudar na Fespi era um sufoco, mas divertido

Vista aérea da Uesc e o professor Érito Machado
Walmir Rosário
Estudar na Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (Fespi), atual Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) era um sufoco, principalmente no turno da noite. Isso nas décadas de 1970/80, por falta de estrutura nos transportes coletivos, sempre superlotados e em horários espaçados. Bem melhor ir de carro próprio ou uma providencial carona.
Mas esses eram os problemas enfrentados fora dos muros da sonhada futura universidade. Dentro, novos e diferentes problemas se avolumavam, como a falta de pagamento aos professores e funcionários, o que desaguava em constantes greves; falta constante de energia elétrica, que transferiam os alunos das salas de aula para o bar do Jabá, no bairro do Salobrinho.
Achávamos graça das agruras que passávamos, tendo em vista a excepcional qualidade de conhecimento dos professores, grandes profissionais do direito na magistratura, ministério público, advogados. A grande maioria não possuía os famosos títulos de doutores, tão em voga na atualidade, mas esbanjava sabedoria, prontos para dar aulas de improviso de qualquer matéria ou tema.
Dezembro chegou e compromissos aumentam

Walmir Rosário
Uma avalanche de atribuições chega junto com o mês de dezembro, isso para quem – como eu – assume as responsabilidades. Tenho que me virar para não falhar com minha presença numa obrigação qualquer, desde a mais singela até os encargos mais sérios. Os deveres contraídos não aceitam as corriqueiras desculpas de última hora, do tipo, um compromisso de última hora…
Um velho e saudoso amigo sempre me dizia, “Rosário, se você começar a falhar nas atribuições contraídas, ou simplesmente recusar os convites, pode ter certeza, que daqui a uns dias você não será lembrado nem para participar de sepultamentos”. E essa é a lei que impera soberanamente na vida social, taxando os inveterados ausentes como antissociais.
Pelo que já devem ter percebido, e não estou me referindo aos compromissos financeiros, cuja inadimplência será tratada por órgãos especiais, a exemplo de SPC, Serasa, cartório de protestos. Refiro-me à vida em sociedade, da qual não se recusa os encontros entre amigos, chegados ou não, em locais antes nunca imagináveis. Faz parte.
Confesso que sou exigente nos meus compromissos assumidos e sou daqueles que acredita que beber cerveja é igual a tomar banho: tem que ser uma obrigação diária. De antemão aviso que a idade nem sempre permite que eu lembre todos os eventos que deverei participar, por culpa exclusiva da memória, às vezes preocupada com temas nada relevantes.













