:: ‘Walmir Rosário’
Como a Praia dos Milionários recebeu esse nome

Walmir Rosário
No final da década de 1960 e início de 1970 o point ilheense era o distrito de Olivença. Distante 18 quilômetros da sede, era frequentada por poucos ilheenses e ainda menos itabunenses. Estrada de chão, muita poeira, areia e as chamadas costelas de vaca tornavam a viagem uma aventura. O local de área de veraneio, férias ou outros desafios. Destino de alguns abastados.
Alguns itabunenses também possuíam casas, sítios ou fazendas na antiga estrada Pontal-Olivença, entre eles a família Messias. Num desses domingos, Berger Brasil, da Loja Consul, que atendia a Classe A de Itabuna, se dirigiu para encontrar o amigo José Badaró e encontra outro chegado, Antônio Brito, que o convida para passar o dia com eles.

Iram Marques – Cacifão
Após as desculpas de praxe, Brasil explica que tem compromisso firmado em Olivença, onde iria jogar um baba, e para tanto, carregava uma bola e um isopor cheio de cervejas em lata. Diante da extensão do convite para o próximo domingo, prometeu que apareceria com os colegas para o prometido baba. E chegou com uma boa turma, boa de bola e de cerveja.
De maneira informal, começaria ali a primeira partida do futuro Baba dos Milionários, que fez história e batizaria uma das mais importantes praias da zona sul de Ilhéus. No domingo seguinte – o terceiro –, apareceram também alguns ilheenses, a exemplo de Ninho (Marcos Vieira). A ideia era manter os jogos entre os itabunenses e os ilheenses.
Os 69 anos da Ceplac em brancas nuvens

Walmir Rosário
No dia 20 de fevereiro passado recebi um zap do colega ceplaqueanos Marco Franco lembrando que aquela da era especial: os 69 de fundação da Ceplac. Claro, não poderia estar longe de minha memória, mas fiz questão de ficar calado, até mesmo para auscultar o nível de lembrança de um aniversário tão festejado em épocas passadas.
Prometi ao colega tocar no assunto em seguida, o que farei a partir de agora. E acredito que fiz bem por aguardar, pois recebi de outro colega ceplaqueano, Luiz Ferreira da Silva, um dos primeiros engenheiros agrônomos contratados, o livro “Ceplac Revivida”, recém-saído da gráfica. Uma coletânea de lembranças de seu tempo (da Ceplac) áureo.
Pois bem, na sexta-feira (20-02), também recebi algumas mensagens nos grupos de Whatsapp e até um vídeo com membros da atual diretoria ressaltando a data e os feitos da Ceplac, com promessas de breve ressureição. E todos os pálidos feitos prometidos para o futuro se baseavam numa esperança dos efeitos de um decreto federal editado recentemente.
Bem que eu gostaria de eu a força da tinta sobre o papel – no caso, o Diário Oficial da União – tivesse o poder de garantir tal proeza. Não se trata de tolo ceticismo, mas de simples percepção da situação atual do governo federal, sem recursos suficientes para fazer andar a máquina pública, que anda sem a lubrificação necessária em reais para cumprir seu papel.
Acredito mesmo que os discursos dos dirigentes tenham sido pelo estrito cumprimento do dever de ofício, e como se diz nas forças armadas: dar moral à tropa. Não se faz ciência sem pessoal altamente especializado, principalmente na economia cacaueira, cultura perene em que as pesquisas podem levar até mais de 20 anos para produzir resultados positivos.
Infelizmente, o quadro de pessoal da instituição sofre baixas diárias com a aposentadoria, produzindo resultados negativos, como escritórios de extensão fechados, laboratórios sem profissionais especializados para produzir ciência, e recursos para fazer a engrenagem andar. A situação se agrava, ainda mais, com a debacle nos preços internacionais. Mesmo assim torço pelo milagre.
Itabuna presta homenagem ao poeta Telmo Padilha

Walmir Rosário
Ainda em tempo Itabuna sai do rol dos inadimplentes ao prestar uma justa homenagem ao poeta itabunense Telmo Fontes Padilha. Dívida antiga, mas que começa a ser honrada, do jeito que merece o “poetinha”, como carinhosamente o chamávamos. Um intelectual que gostava do povo, de sua cidade e que muito contribuiu para a arte e cultura.
Nesta quinta-feira (26), finalmente, foi inaugurado o Palco da Poesia, com um mosaico de 150 poetas de Itabuna, e a peça central é uma escultura concebida e executada pelo escultor Diovane Tavares, homenageando o poeta Telmo Padilha. A obra foi construída numa parceria entre o Clube do Poeta (que administrará a área) e a Prefeitura de Itabuna, na Orla do Berilo, um dois points da boemia itabunense, com a presença da família do poeta.

Telmo Padilha
Nascido em Ferradas (antigo distrito e hoje bairro de Itabuna) em 05 de maio de 1930, Telmo Padilha nos deixou em 17 de julho de 1997, num trágico acidente na BR-101, entre Buerarema e Itabuna. Nesses 67 anos fez acontecer como pessoa, menino, gente grande, poeta, jornalista, um amigo daqueles que gostamos do fundo do peito. E a recíproca era verdadeira, com toda a sua elegante simplicidade.
Apesar de nos deixar drasticamente, continuou sendo aquela figura inesquecível, sempre a nos brindar com sua poesia, sua prosa, textos jornalísticos irretocáveis, de tamanha elegância e graça, como exaltava Onaldo Xavier. Não sei se cabe aqui ressaltar que em Telmo Padilha a vida e a arte eram uma só, sem imitações.
Tomo a cumplicidade de Onaldo Xavier para expor o que disse no Prefácio de Canto de Amor e Ódio a Itabuna: “A poesia de Telmo é seu retrato por inteiro e ele poetizava para todo o mundo, e sua terra, como um eterno poema, não poderia ser esquecida. No poema de abertura, tal qual um épico camoniano, o autor discorre em momentos belíssimos, coroados com sentimentos diversos de amor, alegria, beleza, raiva, incompreensão e compaixão sobre sua cidade, como a querer prestar contas com ela…”, ressaltou.
Nos escrutínios de memória, mais uma obra de Durval

Walmir Rosário
Um Raio X de corpo inteiro, ou uma tomografia computadorizada, para ser mais contemporâneo, foi o que achei do mais novo livro de Durval Pereira da França Filho, “Nos Escrínios da Memória”. Li e reli com bastante atenção. A primeira vez para elaborar a apresentação de mais uma consiste obra do amigo, bancário, poeta, historiador, professor e escritor canavieirense. A segunda, para estas linhas.
Falar sobre a capacidade intelectual do professor Durval é “chover no molhado”, haja vista sua farta obra deste graduado e pós-graduado em História, mestre em Cultura e Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz/Universidade Federal da Bahia. Também membro cofundador da Academia de Letras e Artes de Canavieiras (Alac).
De pronto, antes de tecer qualquer comentário sobre a obra ora em questão, me dou à permissão de ressaltar a coragem do homem e escritor Durval em autobiografar a si mesmo. Produziu um trabalho literário de alta qualidade, mais que isso: isento, perfeito, sem puxar a sardinha para sua brasa, dado o equilíbrio, desambição, sem qualquer apego ao estrelismo. Já era o esperado.
O conhecimento, sua difusão na sociedade e a Uesc

Alessandro Fernandes, reitor da Uesc
Walmir Rosário
Agora em Itabuna, estou mais perto da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), respirando os ares da sabedoria emanados daquele centro de conhecimento, que vem acumulando troféus e títulos de excelência. Felizmente a Uesc tomou um caminho bem diferente de outras instituições de ensino superior, que descem ladeira abaixo neste Brasil contemporâneo.
De pronto, dou pleno conhecimento público que não estou alisando os bancos de nenhum curso superior, o que me faria bem, mas tão somente bisbilhotando o Centro de Documentação (Cedoc). Quase todos os dias, munido de máscara contra a poeira e ácaros, e luvas para me livrar das velhas tintas gráficas, estou espreitando, conferindo as páginas dos jornais antigos de Ilhéus e Itabuna.
São edições incompletas em determinados anos, mas permite pesquisar o que acontecia em épocas passadas. As minhas visitas seriam apenas (não são mais) para rever as glórias do futebol de Itabuna, por meio dos seus times e da eterna vencedora Seleção de Itabuna, assuntos para futuros livros, com a missão de informar aos que não tiveram a felicidade de viver àquela época.
Com a mão nas páginas, relembro fatos tantos vividos pela sociedade pretérita em Itabuna, Ilhéus e região sobre a economia, as agruras sofridas pela cacauicultura, bem como os bons tempos em que a tonelada de cacau era vendida nas bolsas de Nova Iorque e Londres a preços compensadores, coisa de US$ 4,5 mil até US$ 5 mil, tudo contado em dólares.
A sociedade mantinha um padrão de vida bem confortável e Itabuna se dava ao luxo de tocar os discos em LPs e compactos (poucos sabem o que é isso) em lançamentos simultâneos com o Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Mas como nem tudo são flores, os protestos e reclamações apareciam estampados nas páginas de nossos jornais sem a menor cerimônia.
A saga dos sírios e libaneses no Sudoeste da Bahia

Walmir Rosário
Os árabes – sírios e libaneses –, incluindo aí os povos egípcios e turcos, quando se encontram à mesa é uma festa gostosa sem data para acabar. Em meio às delícias de comer e beber, muitas histórias. E não falam somente das saudades sentidas da terrinha do outro lado do Oceano Atlântico, mas da felicidade que sentem em viverem no Brasil, sobretudo, de serem brasileiros.
Imaginem o sentimento do jornalista, escritor e advogado Wilson Midlej em contar as muitas histórias de sua família, que por motivos diversos, fincaram moradia permanente no Brasil, mais especificamente no Sudoeste da Bahia. Mas como eles não vivem sozinhos, os “brimos” ganharam generosos espaços no livro A Saga dos Sírios e Libaneses no Sudoeste da Bahia.
Se mais o irrequieto Wilson Midlej não contou foi motivado pela falta de informações verídicas, confirmadas por meio de documentos, ou viva voz dos que aqui aportaram e adotados num país distante, diferente em costumes e clima. Enfrentaram um mundo novo sem, sequer, falar uma palavra do nosso português, embora conhecessem o francês, inglês, árabe e outros idiomas.
Amigo de verdade não se compra
Walmir Rosário
De há muito tempo a palavra amigo vem sendo descaracterizada e usada para nomear pessoas que nos batemos no dia a dia, embora não possuímos qualquer requisito de simpatia, confiança, ou quem sequer conhecemos. Às vezes nos referimos a alguém como amigo apenas para fazer uma pergunta e queremos mostrar educação ou alguma intimidade.
Na Canção da América, composta por Fernando Brant e Milton Nascimento, a coisa é mais séria e solenemente expõe: “Amigo é coisa pra se guardar/Debaixo de sete chaves/Dentro do coração…”. No Brasil o vocábulo amigo tem o mesmo poder de um canivete suíço nas mãos de quem se encontra no meio do mato sem cachorro e a usa como em mil e uma utilidades, como se fosse Bombril.
Em nenhum outro país deste mundão de Deus a palavra “amigo” é tão mal utilizada quanto no Brasil, quem sabe para mostrar aos cinco continentes que somos o povo mais bonachão na face da terra. Fora daqui, o brasileiro quebra a cara ao tentar dar um abraço em quem acabou de conhecer e apenas pediu uma simples informação.
Professores “dão aula a alunos” no Baby Beef

Walmir Rosário
Eu sempre utilizo um ditado como modo de conduta: “Não vou a tudo em que sou convidado, muito menos onde sequer fui lembrado”. Por todo esse tempo esse costume não me causou qualquer arrependimento ou dissabor. Sei que não sou um bom conselheiro, pois me faltam predicados, embora não me furte a dar algumas dicas sobre os riscos que podem acometer aos penetras.
Outro comportamento que faz bem a qualquer desprevenido é não aparecer em locais nos quais seus bolsos são desqualificados, monetariamente. Em tempos passados, o velho talão de cheque poderia quebrar um galho no acerto de contas, embora nos dias seguintes fosse ele convidado a comparecer ao banco com os recursos para o competente depósito e cobrir o cheque voador. Hoje não mais, o cartão de crédito é rejeitado na hora e o Pix nem por sonho.
Durante toda a minha vida convivi com amigos de todos os comportamentos. Uns mais afoitos e de boa lábia, cujo poder de convencimento quebrava o mau humor do dono do estabelecimento e o permitia assinar um vale de quitação duvidosa. Um deles, após muitos goles de cachaça e cerveja, não contou conversa e puxou do bolso um talão de cheque e o preencheu com o valor da conta da mesa. Só que era a folha da requisição do talão de cheques, conforme ficou sabendo na segunda-feira, com a visita do dono do bar.
Desses casos coleciono algumas dúzias, mas um deles me chamou a atenção, e dia desses, ainda me fez lembrá-lo o colega causídico Antônio Apóstolo. Éramos estudantes de Direito, nos velhos tempos da Fespi, depois Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Estávamos no saudoso Baby Beef, disparado o melhor restaurante que Itabuna “já teve”.
Festejar 80 anos é pouco. Durval já planeja os 90

Walmir Rosário
Dizem que algumas frases são como flechas atiradas. Jamais voltam, e nunca serão esquecidas, apagadas do mapa ou da memória das pessoas, embora não façam mal ou bem correm o mundo. E foi justamente o que aconteceu com o coleguinha das redações (desculpem a audácia), Nélson Rodrigues, com algumas de suas mais conhecidas frases de efeito.
E essa – bastante repetida –, “toda a unanimidade é burra”, acredito que Nelson a criou por não ter tido a oportunidade de conhecer o canavieirense Durval Pereira da França Filho, ou simplesmente professor Durval. E não é que ele – Durval – completou 80 anos em 11 de agosto último, cercado de amigos forjados ao longo de sua vida.

Aproveitou o sábado (09-08) para comemorar a data nas formas religiosas e profana. Pela manhã, culto na Igreja Adventista, da qual é membro desde os 8 anos de idade, se não fui traído pela data. À noite, reuniu amigos de Canavieiras e de outras cidades, muitos presente para abraçar o mestre e o colega num clube da melhor idade, entre eles eu e Raimundo Tedesco.
Coitado, de uma só vez, sofre acidente e deboche

Walmir Rosário
Nisvaldo Damasceno era uma figura ímpar. Nascido em Anuri, distrito de Arataca, chegou ainda menino em Itabuna e logo se ambientou no bairro da Conceição. Bom aluno, sempre passava de ano com distinção e louvor nos cursos primário e ginasial. Era reconhecido pela sua intimidade com o a gramática portuguesa, matemática e outras disciplinas.
Com a mesma intensidade em que se debruçava nos livros se ambientava bem nos bares da vizinhança, que para ele não era apenas um local onde se praticava o esporte etílico, mas também a poesia. Enquanto apreciava as cervejas geladas declamava com intimidade os versos de Gregório de Matos, Castro Alves, Sosígenes Costa e outros que tais.
Exímio na datilografia e na língua portuguesa, desde cedo se especializou nos textos cartorários. Datilografava compromissos, escrituras de compra e venda e as certidões mais diversas, com o mais legítimo português adaptado aos termos jurídicos, sem erros e em tempo recorde, impressionando os serventuários dos cartórios extrajudiciais e clientes.












