:: ‘Walmir Rosário’
Memorial Inédito conta a história do Bairro Conceição
De forma bastante singela, acredito que o ato de viver pode ser comparado a assumir a direção de um veículo. Ter foco no presente do caminho que lhe rodeia, olhando, sempre, pelo retrovisor o passado, e analisando as possibilidades do futuro, do que possa vir pela frente. São através das histórias do passado que poderemos entender mais sobre nós mesmos, para que possamos encarar o futuro sem qualquer receio.
Dito isso, passo a narrar, com alegria, um “achado” importante da minha infância, vivida no bairro da Conceição em Itabuna. Essa descoberta é um memorial de autoria das professoras Edith Oliveira de Santana, Jiunice Oliveira de Santana e do engenheiro agrônomo e pesquisador aposentado da Ceplac, Sandoval Oliveira de Santana, que conta grande parte da história do bairro, em textos e fotos.
O trabalho, que leva o nome Bairro da Conceição e os Primórdios, foi elaborado para homenagear o cinquentenário da implantação da Paróquia Nossa Senhora da Conceição (8-12-1958 a 8-12-2008), com informações antecedentes ao ano de 1958. Todo o trabalho foi realizado por meio de consultas aos moradores descendentes dos desbravadores, com registros dos personagens.
Tyrone inventa o turismo da cerveja barata
O Procon – ou seja lá que órgão o represente – precisa vir a Canavieiras com uma certa urgência, não para um período de férias e veraneio dos seus representantes, mas para fiscalizar o preço alto da cerveja, mercadoria muito cara por essas bandas. Nada tenho contra o veraneio desses ilustres “fiscais do povo”, que em épocas recuadas foram do Sarney, mas nessa condição poderiam se acostumar com os preços praticados pelos bares e restaurantes e nos prejudicar mais, ainda.
E nesse assunto falo de cátedra, por ser um consumidor quase que diário dessa mercadoria, tão admirada e consumida pelos brasileiros, embora os índices não sejam lá, essas coisas em relação a outros países. Confesso que atualmente não estou colaborando tanto para o aumento dos índices de consumo, e por isso já fui acusado de aposentado do Paraguai e, pior, como um enfermo de saúde combalida por pessoas malfazejas, fuxiqueiras perniciosas, o que cabe uma reparação judicial. Deixa estar, jacarés!
Mas minha aparente debilidade física pouco interessa e muito menos se me encontro em tratamento. O certo é que dentro de pouquíssimo tempo, estarei de volta às lides etílicas de alta frequência nos bares de Canavieiras e cidades circunvizinhas, com a constância requerida para tanto. E nesse meu festejado retorno gostaria que as autoridades constituídas, para tanto, já tivessem tomado uma providência (não a excelente cachaça mineira) para reduzir a conta, por conta das cervejas mais baratas.
A despedida do goleiro prejudicou o Itabuna
O ano era 1972. De passagem por Itabuna, resolvi ficar um fim de semana para rever os velhos amigos e assistir a uma partida de futebol pelo Campeonato Baiano de profissionais, ainda realizado no velho campo da Desportiva. E jogavam o Itabuna Esporte Clube (IEC), o meu time de fé, o Esporte Clube Vitória. “Vai ser um jogaço”, avaliei pelo número de craques das duas equipes.
Na tarde da sexta-feira que antecedia o jogo (domingo), fui à ao campo da Desportiva para rever a equipe itabunense e os amigos esportistas. Um fato que me chamou a atenção foi a decisão de um dos goleiros do Itabuna, Mineiro, se despedir do time, por achar que não teria chance na equipe, devido ao nível dos outros dois goleiros: João e Luiz Carlos.
E, para agradecer a participação de Mineiro durante o tempo em que passou no Itabuna, a diretoria e o técnico do Itabuna resolveram prestar uma homenagem a esse goleiro na sua despedida, escalando-o como titular naquela partida. Luiz Carlos foi dispensado e João ficou como o goleiro reserva para a partida contra o Vitória, que tinha formado um grande esquadrão.
Não sei por que motivo acreditei que aquela homenagem era fora dos propósitos, pois se um colaborador se despede, vai embora, é porque não está dando certo ou qualquer outro motivo que impeça a sua participação. Fiquei com minhas dúvidas, compartilhadas com os amigos presentes. Era uma premonição. Talvez, até por ser Luiz Carlos, o titular absoluto, o goleiro dispensado para o jogo.
Acho até que, por respeito ao Vitória, que formou um timaço para ser o campeão daquele ano, com atletas de primeira linha, o Itabuna deveria jogar com sua força máxima, para fazer frente o rubro-negro da capital. Relembro muito bem dessa magnífica escalação: Agnaldo, Roberto, Leleu, Válter e França; Fernando (Almiro) e Juarez; Osni, Gibira, André Catimba e Mário Sérgio.
Em Itabuna, futebol é no céu
Walmir Rosário
Quantos aos desígnios de Deus ninguém discute. A morte é o fim da vida. Cada um presta contas lá em cima pelo que fez aqui na terra. Esta é a lei implacável dos dons divinos. Aqui na terra, não chega a ser bem assim, mas as aparências são mais ou menos as mesmas. O que chama a atenção sãos os seus desígnios, escolhendo os que Ele quer ao Seu lado, numa espécie de lista, fila, sei lá…
Aos poucos, Ele vai fazendo a chamada. No mês passado levou Pedrinha (Antônio Oliveira), já nos seus 85 anos de idade, cerca de 40 deles dedicado ao futebol amador. Meio-campista do Botafogo do bairro da Conceição, fez história formando uma das maiores tabelinhas junto com Mundeco. E lembrei que em 2016, também levou para a sua glória três esportistas de uma só vez: Adonias Oliveira, Léo Briglia e Vivaldo Moncorvo.
É um luto daqueles que Itabuna vai vivendo, paulatinamente, com a perda um ou vários dos seus filhos, embora nunca com os que militaram num único setor, o esporte, e sucesso assegurado em vida, deixando perplexo os amigos e parentes. Cada um, é claro, na sua área de atuação. Enquanto Léo era o dono da bola, o goleador, os outros não podem ser considerados menores.
Confraternização marca os 40 anos do Bar de Ithiel
Walmir Rosário
Mesmo com o dia cinzento e as chuvas esparsas, na tarde de sábado (30-10) ninguém arredou o pé do Alto Beco do Fuxico, um dos mais respeitáveis redutos da boemia de Itabuna, na comemoração dos 40 anos de fundação do Bar de Ithiel. O evento superou todas as expectativas e durante sete horas seguidas quase duas centenas de antigos clientes confraternizaram, beberam, comeram e dançaram à vontade.
À noite, no finalzinho da festa, os “velhinhos” ainda encontravam ânimo para agendar um novo encontro, este para comemorar o cinquentenário do Bar de Ithiel, com todos os requintes necessários para uma festa de arromba, expressão bastante usada em anos passados. Aos clientes antigos se juntaram esposas, filhos, amigos, não importando a classificação de idade.
Aos que imaginam que invento ou aumento os fatos acontecidos, de pronto vou avisando que deverei omitir acontecimentos tantos, tendo em vista o clima de euforia reinante, o que peço as devidas desculpas. Mas garanto que desde os dias 28 e 29 de outubro de 2011 (sexta-feira e sábado), por conta da comemoração dos 30 anos, o Alto Beco do Fuxico não sediou uma festa de tamanha responsabilidade e animação.
Para os que não conhecem os frequentadores do Beco do Fuxico nas suas três identificações geográficas – Baixo Beco, Médio Beco e Alto Beco –, em poucas palavras narrarei sua importância no contexto etílico, festivo e de camaradagem. E começo perguntando que bar forma uma numerosa família, reunindo amigos que moram em cidades diferentes, mesmo não mais existindo fisicamente?
Walmir Rosário lança “Crônicas de Boteco, um guia sem ordem”
“Crônicas de Boteco, um guia sem ordem” é um livro para quem pretende se tornar um frequentador de botequins, os que porventura tenham alguma curiosidade sobre o clima reinante neles ou aqueles clientes costumeiros da extensão do lar. O livro – por enquanto apenas em formato online (e-book) – está à disposição dos leitores no portal da Amazon, no link https://amzn.to/3rsgC4p.
Como relata o autor Walmir Rosário, são crônicas bem-humoradas e não tenha receio de entrar para conferir qualquer um deles. Basta dar o primeiro passo, sentar, observar a clientela em volta, perguntar as especialidades da casa fazer o pedido e experimentar. Enquanto não chega seu pedido não se constranja em puxar conversa com quem está ao seu lado e pergunte qualquer coisa. Você já fez um amigo.
E essas experiências são contadas com os botecos localizados numa única via pública de Itabuna, na Bahia: o Beco do Fuxico, que já foi divido em três zonas distintas, o baixo beco, o médio beco e o alto beco. Em cada ambiente, um costume diferente, mesmo que os frequentadores, em maioria sejam os mesmos. Experimente uma boa cachaça, batida, cerveja gelada e os melhores tira-gostos.
Frequentador de botequins neste imenso Brasil e alguns países, há várias décadas, Walmir Rosário conta histórias, costumes, o espírito de corpo, o humor dos proprietários e o que fazer para se tornar mais um dessas tribos. Não se incomode se o dono do boteco não lhe trata com a deferência esperada, pois pode estar fazendo charme para lhe conhecer melhor.
O sumiço da Coruja do Pedrão
Walmir Rosário
Pelo que se comentava – a boca miúda –, Pedrão (Pedro Ribeiro) teria desistido de manter o seu estabelecimento aberto no hoje Alto Beco do Fuxico, após ter perdido seu pássaro de estimação, que lhe acompanhava há mais de 20 anos. Era uma coruja supereducada, que não se intrometia na conversa dos clientes, embora prestassem atenção a tudo e a todos com a maior discrição. Uma amiga fiel de Pedrão.
Além de servir à vasta clientela quase todos os tipos de bebidas, Pedrão também oferecia serviço de restaurante, considerado por servir uma das comidas mais deliciosas do centro da cidade, rivalizando, na parte de aves, com as galinhas ensopadas e a molho pardo do ABC da Noite, do Caboclo Alencar. Também era inigualável nas comidas de resistência, como rabadas, fatadas, mocotós, sarapatéis e sobe-e-desce.
Bastava chegar no dia anterior ou logo cedo e sugerir a Pedrão que gostaria de comer o prato de sua predileção que ele se encaminhava à feira livre e adquiria todos os produtos necessários para o almoço ou jantar aprazado. Todos os dias, além da clientela de bebidas e tira-gostos, apareciam alguns senhores da alta sociedade para desfrutar das coisas boas da vida deixada por Deus para satisfazer os homens de boa vontade.
Alunos do ABC da Noite em sala de aula
Walmir Rosário
Nunca, em tempo algum neste Brasil, uma visita foi tão comemorada pelos boêmios do Beco do Fuxico e adjacências. Entrando o mês de abril, justamente no dia 1º, em que se costuma a contar mentiras, uma verdade merece ser contada em alto e bom tom: o Caboclo Alencar, nos seus 90 anos, deu as caras no Beco do Fuxico, o endereço do mais conceituado boteco de Itabuna.
Sem alarde ou notícias enviadas aos colunistas sociais que emolduram e abrilhantam nossa imprensa, a visita do Caboclo Alencar teve a simples finalidade de realizar uma vistoria nas instalações do majestoso ABC da Noite, fechado desde que apareceu a pandemia. No chamado grupo de risco, o Caboclo preferiu encerrar as atividades – temporariamente – no seu estabelecimento. :: LEIA MAIS »
A gentileza dos políticos longe das câmeras
Walmir Rosário
Quando governador, Paulo Souto, frequentemente passava os fins de semana na pacata Canavieiras, cidade em que podia circular livremente sem as costumeiras aporrinhações da vida política, com pessoas lhe parando nas ruas para pedir benesses, que vão desde o emprego para si e parentes até a construção de obras e serviços que trouxessem os benefícios. Como precisava se esquivar, deixando esse mister para os assessores mais chegados, treinados para deixar importunar o governador, Canes era a cidade perfeita.
Na maioria das vezes, entretanto, o governador teria de desembarcar em Ilhéus, por conta da falta de condições e segurança para pousar no aeroporto de Canavieiras. Nesses casos, o hoje aeroporto Jorge Amado era a solução. Só que, para o desespero de Paulo Souto, pessoa recatada, a chegada do avião do governador era um acontecimento, visto que também “era ilheense”, cidade em que morou por muitos anos, estudando e trabalhando como radialista e depois geólogo.
Nesta época, o prefeito de Ilhéus, Jabes Ribeiro, conhecedor dos hábitos de Paulo Souto, alertou seus amigos que trabalhavam no aeroporto – desde os motoristas de táxis, carregadores e funcionários da Infraero – de avisá-lo imediatamente sobre a chegada do avião governamental. E os pedidos do prefeito eram consideradas ordens, não podiam deixar de ser cumpridas.
O eclético Bar do Mario, dos lanches à Boemia
Walmir Rosário
Outra figura carimbada instalada no médio Beco do Fuxico era o Mário, que chegou a trabalhar com duas empresas ao mesmo tempo – uma do ramo etílico e outra de lanches – quase coladinha à outra. De início, se estabeleceu com um bar na esquina do Beco do Fuxico com a rua Duque de Caxias, posteriormente passou a vender lanches e, vislumbrando que as duas atividades não se combinavam, separou-as, lidando com os dois ramos.
Passado mais uns anos, Mário Alves de Almeida, toma a decisão de juntar as atividades num só local – no imóvel da esquina, em que residia em cima, após a construção de um prédio – e a convivência foi perfeita por longos anos. Um dos motivos dessa associação de atividades teria sido a compatibilidade de horários: das 7 às 10h30min e das14h30 às 17 horas, a turma do lanche; nos outros horários prevalecia a turma da cachaça e da cerveja.
E nessa convivência harmoniosa permaneceram por anos a fio, até deixar as coisas mundanas para o seu herdeiro – também Mário – que até hoje privilegia os lanches, mas não deixa de atender aos antigos clientes etílicos, somado aos novos, porém em quantidade menor. Vez mesmo tem a turma que trabalha no comércio e nos escritórios, que tem preferência pelos lanches no meio da manhã e da tarde.
O Mário não caiu de paraquedas – sem mais nem menos – no Beco do Fuxico (que também atende por travessa Adolfo Leite e Ithiel Xavier, no Alto Beco do Fuxico). Mário já era um experimentado dono de bar, lanchonete e bomboniere na famosa rua Rui Barbosa, em frente ao Cine Plaza. Ali desenvolveu experiência para atender a uma clientela eclética, formada pelo público das matinês, vesperais e soirées (suarê).























