:: ‘ACM’
Lula diz que há ódio contra o PT e pede campanha ´paz e amor´ na Bahia
O ex-presidente Lula defendeu os feitos dos 11 anos de governo do PT no país durante evento no qual o PDT anunciou apoio ao pré-candidato petista ao governo baiano, deputado Rui Costa. O ex-presidente ainda recomendou ao pré-candidato que não faça uma campanha “falando mal” do adversário.
– A gente não precisa repetir aquela mazela que tinha aqui na Bahia, no passado, com Antônio Carlos Magalhães xingando todo mundo. Nós queremos é provar que somos melhores que eles, e com números.
O ex-presidente também disse que o ódio contra a presidente Dilma Rousseff tem como principal alvo o projeto do PT. Lula falou de melhorias na área social no Brasil nos últimos 11 anos, da ampliação do número de universidades e de mudanças de hábito do brasileiro. E, novamente, saiu em defesa da presidente:
– Poucas vezes este país teve a sorte de ter uma pessoa com a idoneidade, o caráter e a seriedade da Dilma. Muitas vezes vão falar “ah, ela não ri, ela não conversa tanto quanto o Lula“. Mulher não tem que ficar arreganhando os dentes não. Mesmo dentro de casa, a mulher é mais severa. Uma mulher presidente da República é demais para eles [os opositores].
Lula ainda fez mea culpa. “Nem sempre a gente está bem. A gente sabe que tem momento que não consegue fazer tudo. E quando não consegue, o povo fica puto. Não vou votar mais nele”. Ele ainda se comparou a Getúlio Vargas e disse que “a coisa mais barata é cuidar de pobre. O pobre quer é educação, trabalhar, alimento na mesa, o pão de cada dia à custa de
O ex-presidente alfinetou os presidenciáveis Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) ao falar de políticas sociais. “Quem é que cuida dos pobres em Minas Gerais? É o governo federal. Quem é que cuida em Pernambuco? É o governo federal. Quem faz o Luz para Todos no Brasil? É o governo federal. Quem é que faz universidade? Eles não serão loucos de cortar o Bolsa Família”. (do Pimenta na Muqueca)
Profissão repórter. (Porto Seguro, 500 anos depois de Cabral…)
Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de 30 anos de estrada, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, sem-terras e estudantes.
Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.
Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.
A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos
Dois episódios ocorridos na tarde-noite de sexta-feira, dia 21, ajudam a entender o festival de selvageria em que se transformou a festa dos 500 anos do Brasil, exaustivamente preparada para coroar o Governo da Bahia e, principalmente, catapultar o senador Antonio Carlos Magalhães para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso.
Por volta das 16 horas, policiais militares fortemente armados bloquearam a rodovia que liga Eunápolis a Porto Seguro. Eles alegavam cumprir ordens da Defesa Civil, já que a cidade não comportava mais ninguém. Tudo perfeito, à exceção de um mero detalhe: Porto Seguro não possui Defesa Civil. O objetivo era evitar que os sem-terra, acampados em Eunápolis, entrassem em Porto. O bloqueio foi estendido a turistas e até aos moradores das duas cidades. Um turista que veio de João Pessoa, na Paraíba, exibiu as reservas de hotel e afirmou que seu direito de ir e vir, garantido pela Constituição, estava sendo desrespeitado.
A resposta do policial merece entrar para os anais da história do Brasil:
-Aqui na Bahia quem manda é o Antonio Carlos Magalhães.
Ou seja, pega a Constituição e…
Por volta das 20 horas, é realizada em Coroa Vermelha a plenária de encerramento da Conferência dos Povos Indígenas, que reuniu cerca de 3 mil índios de 150 tribos de todo o País. Exaltadas, lideranças indígenas se referiam a FHC usando termos como “canalha”, “vagabundo”, “sem palavra”. O ultimo a falar foi o pataxó Luiz Tiliá. Coube a ele dar o tom da conferência:
-Amanhã nos vamos fazer uma caminhada até Porto Seguro e a polícia não vai deixar. Quero que cada tribo junte os dez guerreiros mais fortes. Eles vão na frente, porque nós vai passar de qualquer jeito.
Um vidente previu chuvas e trovoadas em Porto Seguro durante o 22 de abril. Acertou na previsão do tempo e na metáfora.
Chovia torrencialmente em Coroa Vermelha quando cerca de mil integrantes do movimento Outros 500, formado principalmente por estudantes mal saídos da adolescência, marchavam para a área onde foi realizada a conferência indígena. O objetivo era se juntar aos índios na caminhada até Porto Seguro.
Aí, surge a polícia militar. Um manifestante negro é agarrado pelos cabelos. Sua companheira tenta defendê-lo e é jogada ao chão. O tumulto estava formado. Policiais atiram para o alto, jogam bombas de gás lacrimogêneo e espancam quem aparece pela frente.
Assustados, os manifestantes correm para as casas dos pataxós e respondem às agressões com pedradas. Uma das pedras atinge o índio Crispim na cabeça.
Pronto. Estava dado o pretexto para que o comandante da operação, Wellington Muller, prendesse cerca de 140 integrantes do Outros 500. Alegou que estava agindo em defesa dos índios, embora os próprios indígenas alegassem que a pedrada em Crispim fora acidental e provocada pela truculência com que a polícia investiu contra os manifestantes.
Procuradores da República, a senadora Marina Silva, os deputados Haroldo Lima e José Dirceu e a deputada estadual Alice Portugal tentaram, em vão, argumentar que as prisões eram ilegais e que a violência dos PMs era injustificada. A todos, Muller respondia com um monocórdio “não reconheço sua autoridade.”
Armou-se o palco para um conflito de proporções maiores e ele evidentemente ocorreu. Por volta das 11 horas, índios marchavam para Porto Seguro quando encontraram uma barreira de PMs, incluindo o batalhão de choque. Antes mesmo que os índios se aproximassem os PMs, com o ensandecido Muller à frente, começaram atirar com balas de borracha e a jogar bombas de gás lacrimogêneo. Saldo: mais de 30 feridos, entre eles nenhum policial militar, prova maior de que não houve confronto e que apenas uma das partes bateu.
E como bateu! Jornalistas de todo o Brasil e da várias partes do mundo comentavam que a repressão aos índios, negros e sem-terras já era previsível. O que assustou a todos foi a violência com que a polícia militar agiu. Era como se não bastasse apenas impedir que os manifestantes chegassem a Porto Seguro mas, como disse a senadora Marina Silva, deixar bem claro a todos, que nesse país lugar de pobre é na senzala, enquanto a classe dominante goza os prazeres da casa grande.
Corta, então, para a casa grande. No estreladíssimo hotel Vela Branca, cercado por um forte aparato de segurança, Fernando Henrique e o presidente de Portugal Jorge Sampaio almoçam com convidados. A elite empresarial e política do País. Num pronunciamento insosso, FHC falou dos avanços sociais do país, alfinetou os sem-terra e, por fim, fez um brinde com a legítima cachaça brasileira.
Do lado de fora do banquete, uma cena insólita. Impedidos de trabalhar (desta vez a truculência ficou por conta dos seguranças e dos burocratas do Itamarati), jornalistas sentaram no chão e cantaram o Hino Nacional. Minutos depois, numa entrevista coletiva montada às pressas, FHC tentou ironizar os jornalistas e cantou também o Hino Nacional. Errou a letra duas vezes.
O que esperar de um presidente que, já no segundo mandato, não sabe o hino do País que governa?
Para que a visita, prevista para durar quatro dias e encurtada sucessivamente até se limitar a meras três horas, não se limitasse ao almoço, o presidente visitou a Cidade Histórica, reformada pelo Governo do Estado. Cumprimentou a simpática família Schürmann que voltava após uma viagem de dois anos pelo mundo, plantou uma muda de Pau Brasil, acendeu a Chama do Conhecimento, viu atores fantasiados de índios e posou para fotos abraçado a baianas do acarajé.
Os moradores da Cidade Histórica viram a festa da janela, impedidos que estavam de sair de casa.
Era visível o desconforto do senador ACM e do governador César Borges. O primeiro, perguntado sobre a repressão aos índios e sem-terras, respondeu que preferia não ver, porque era é um dia de festa, um dia para os brasileiros comemorarem. O segundo afirmou que apenas mantive a ordem, garantindo a segurança do presidente.
Sensato, o senador Paulo Souto condenou a maneira como o processo foi conduzido:
-O Governo do Estado fez grandes obras em Porto Seguro, urbanizou Coroa Vermelha, construiu um Centro de Convenções fantástico, mas o que vai repercutir no mundo todo são os tumultos.
Acertou na mosca. A imprensa brasileira (incluindo a Rede Globo, que em determinado momento tentou se apoderar da celebração dos 500 anos) deu amplo destaque à pancadaria e pouco falou da visita ao Centro Histórico. Jornais como o New York Times, dos EUA, o Libération, da França, e o Independent, da Inglaterra, falaram da violência contra os indígenas.
A foto do índio Gildo Terena, ajoelhado no asfalto e de braços abertos pedindo clemência aos policiais, saiu na capa dos principais jornais do planeta. A mesma imagem, com a sequência onde Terena é atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo e em seguida pisoteado pelos PMs foi veiculada em centenas de emissoras de televisão.
Fernando Henrique foi embora antes de assistir ao espetáculo “O dia em que o Brasil nasceu”, misto de teatro e cinema com luzes e fogos de artifício. Escapou de um derradeiro constrangimento.
Revoltados porque o show era apenas para convidados do governo e pela colocação de um tapume que impedia qualquer vista do espetáculo, turistas e moradores primeiro protestaram com xingamentos. Depois, jogaram pedras aleatoriamente. Antes que a revolta ganhasse proporções incontroláveis, a polícia chegou e, conhecedores do que havia ocorrido com os índios, estudantes e sem-terras, as pessoas preferiram optar por programas menos arriscados, como passear pela Passarela do Álcool.
Os relógios marcavam duas horas e trinta minutos do dia 23 de abril quando voltou a chover torrencialmente em Porto Seguro. Entre irônico e revoltado, um bêbado comentou:
-Depois de uma confusão dessas, na festa dos 1000 anos do Descobrimento eu não venho de jeito nenhum.
Provavelmente nem FHC, ainda que na remota hipótese de sucessivas reeleições e da imortalidade que só os que se julgam deuses costumam almejar. Nem FHC…
SAI JORGE AMADO, ENTRA SHAKESPEARE. SAEM GABRIELA E NACIB, ENTRAM ROMEU E JULIETA
Como produto de televisão, a novela “Gabriela”, encerrada no final de semana, esteve a um passo da perfeição. Fotografia magnífica, direção segura, e cenários que reconstituíram a Ilhéus do início do século XX, onde se passou o célebre romance escrito por Jorge Amado. E interpretações antológicas de José Wilker como o coronel Jesuino, Maitê Proença como dona Sinhazinha, Laura Cardoso como a fofoqueira/beata/quenga Dorotéia e Antonio Fagundes como o coronel Ramiro Bastos/ACM.
Gabriela, a novela, é uma adaptação de Gabriela, o livro. E de adaptação, não se deve esperar fidelidade total ao texto original. E nesse quesito, a novela passou longe do livro.
Alguns exemplos: o triangulo Berto-Lindinalva-Juvenal não existe no livro, mas ganhou destaque na trama, da mesma forma que o romance secreto entre Maria Machadão e o coronel Ramiro e o caso entre o coronel Amancio e Miss Pirangi.
No final da trama, em que Gabriela e Nacib viraram quase figurantes, ganhou força a história de amor proibido entre Mundinho Falcão e Gerusa, que não passa de um flerte irrelevante no livro.
Saiu Jorge Amado, entrou Willian Shakespeare. Sairam Gabriela e Nacib e entraram Romeu e Julieta, com direito a prisão no convento, à espera do príncipe salvador. Menos mal que nas cenas finais, rolou o que restou a Nacib e Gabriela no folhetim: cenas calientes de sexo, garantia de audiência.
A história do novo porto, pano de fundo do romance, embate entre estagnação e desenvolvimento, atraso e progresso, essa passou batida mesmo. Novo porto em Ilhéus? Oxe, deixa isso pra lá.
Jorge Amado costumava dizer, com sua fina ironia, que as melhores traduções de seus romances eram as de idiomas que ele não conseguia entender. Em russo, búlgaro, chinês, mandarim, etc.
Vale o mesmo para as adaptações de seus livros.
Como adaptação, há que se pregar à novela Gabriela o adjetivo “espetacular”, mesmo com a cruel e saudosista comparação com a versão original.
Pena que, no quesito turismo, Ilhéus mais uma vez deixou o trem passar, o navio zarpar. Nem com a comemoração do centenário de Jorge soube aproveitar a maré a favor.
Mas isso já é uma história da vida real.
O DIA EM QUE OS EXCLUIDOS DESCOBRIRAM A VIOLÊNCIA DA POLÍCIA BAIANA
12 anos depois, Justiça responsabiliza Estado pela violência
A Justiça Federal condenou o governo da Bahia a pagar R$ 10 milhões em razão da violenta repressão da PM à manifestação de indígenas e militantes de outros grupos na festa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, realizada em 22 de abril de 2000. Cabe recurso à decisão.
A sentença foi motivada por uma ação movida em 2006 pelo Ministério Público Federal. Nela, o Estado é condenado a indenização por dano moral coletivo por ter impedido “o direito constitucional de reunião e liberdade de expressão de índios, negros e cidadãos comuns”.
Naquela data, índios e sem-terra, entre outros grupos, foram impedidos pela Polícia Militar de se aproximar de Porto Seguro (BA), onde o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) encabeçava as festividades dos 500 anos. Na ação, 141 militantes foram presos e ao menos 15 índios se feriram. Para a Procuradoria, a operação foi “desproporcional”.
A ordem de reprimir os manifestantes teria partido do então governador César Borges, atendendo a um “pedido” do então senador ACM, à época do auge de seu poder.
A propósito, vale conferir a reportagem feita por esse blogueiro, que estava em Coroa Vermelha na “porrada” dos 500 anos , e publicada no jornal A Região.
JORGE, AMADO E VISIONÁRIO
Quem acompanha a novela Gabriela não pode deixar de notar que o Coronel Ramiro Bastos, interpretado por Antonio Fagundes, está cada vez mais a cara de ACM, seja no visual, seja no palavrório.
Ver Ramiro/Fagundes é rever o ACM mandão, que exigia que santos fizessem chover, tratava jornalista adversário a caneladas e se julgava dono da vontade e do voto popular.
Até trombar com um cara vindo do Rio de Janeiro, com novas idéias e um visão de política baseada na renovação e no diálogo, de quem lamenta não poder resolver a pendenga que desponta a cada capítulo na base do trabuco.
Não resolve e ainda vê o desafeto acabar com o seu reinado.
Epa, Jorge Amado, além de ótimo romancista, era um visionário!
















