:: ‘filme’
Amour
Por Raquel Rocha
Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) são um casal de aposentados. De gosto erudito, conservam o hábito de frequentar teatros e óperas. A história começa justamente no teatro Campos Eliseos com a câmera de frente para uma grande plateia. As pessoas chegando, se sentando, assistindo a apresentação, e não vemos o palco, somente a plateia e o casal octogenário em meio a todas aquelas pessoas.
Eles têm uma filha, mas vivem sozinhos, são independentes e tem uma relação de intensa cumplicidade. Tudo corre bem na rotina deles, até que Anne sofre um AVC e precisa fazer uma cirurgia. Vários planos do apartamento vazio à noite mostram que a vida de ambos nunca mais será a mesma.
Ao voltar do hospital, ela está com a parte direita do corpo paralisada, mas tenta conservar sua autonomia, fazer suas coisas sozinha e repetir o tempo todo que não está inválida. Tendo consciência de sua condição degenerativa ela faz um pedido um tanto cruel pro marido: ”Prometa-me uma coisa. Por favor, nunca me leve de volta ao hospital.”
A partir desse momento vemos a personagem definhar, corpo e mente. Seu orgulho sendo ferido a cada agravamento da doença, a perda da capacidade de cuidar de si mesma, de controlar suas funções fisiológicas. Anne não quer viver assim, o desejo de morrer está estampado em seus olhos e em seus gestos. Depois de perder o controle sobre seus movimentos, Anne perde também a lucidez. A filha quer interná-la, levá-la para um lar de idosos, mas Georges não permite, ele respeita a vontade da esposa mesmo quando ela não tem mais vontade. O casal tem uma dignidade peculiar.
O filme é de uma sensibilidade poucas vezes vista. É uma história triste, mas sentir a morte chegar aos poucos também é triste. Tem muitos momentos de silêncio, mas às vezes simplesmente não há o que ser dito. Planos longos, sequências arrastadas, mas é assim a velhice, a doença… ao nos sentirmos impotentes parece que o tempo teima em não passar.
“A história que eu conto é uma forma estética de ver esta promessa de amor”, declarou Michael Haneke, que também dirigiu “A Fita Branca” (Das weiße Band) e sempre se recusou a explicar seus filmes. Em Amour as palavras são mesmo desnecessárias.
Amour (em português Amor, tradução altamente desnecessária) é um filme velho, um filme angustiante, mas é verdadeiro, dolorosamente verdadeiro, um filme que nos faz pensar, nos faz sentir, nos ensina a amar. É uma obra-prima.
“As coisas vão continuar, e um dia tudo vai acabar.”
O filme concorre ao Oscar nas categorias de melhor direção, melhor filme, melhor filme estrangeiro, roteiro original e melhor atriz. Emmanuelle Riva é a atriz mais velha a ser indicada a estatueta. Ela tá realmente espetacular no filme, mas acho que a interpretação máxima de Amour é a de Jean-Louis Trintignant. As vezes ver o outro sofrendo é pior que sentir a dor.
Trailer
As aventuras de Pi
Depois de Razão e Sensibilidade, O Tigre e o Dragão, Hulk, O Segredo de Brokeback Mountain e Aconteceu em Woodstock o cineasta Ang Lee mostra que sua versatilidade não tem limites com Life of Pi.
A história de Pi é contada por ele próprio a um escritor em busca de uma história para seu próximo livro. Pi é um garoto indiano que cresce em uma família diferente, com uma nova mentalidade: pais que acreditam mais na ciência que na religião. Para o pai de Pi religião é escuridão mas apesar disso ou por causa disso Pi é religioso. “Os deuses eram meus super-heróis enquanto eu crescia” ele conta para o escritor.
Pi não é apenas hindu, ele conhece o cristianismo ao entrar em uma igreja e ver a imagem de Cristo pregado na cruz. O padre explica: “Deus fez seus filho semelhante a nós humanos, para podermos compreendê-lo. Não podemos compreender Deus em toda sua perfeição mas podemos compreender o filho de Deus e seu sofrimento como se fosse nosso irmão.” Não satisfeito o garoto se envolve com a religião muçulmana e diz sentir uma paz no contato com Alá. Durante o jantar o pai reclama que o filho não pode ter 3 religiões “Porque acreditar em tudo ao mesmo tempo é como não acreditar em nada.” Mas Pi tem uma personalidade singular, uma determinação incomum e uma vontade de vida que vamos descobrir no decorrer do filme.
Ao relatar o episódio do jantar para o escritor Pi conclui.
Pi- “A fé é uma casa de muitos quartos”
Escritor- “E nenhum quarto para dúvida?”
Pi- “Claro, em todos os andares. A dúvida é útil, ela faz com que a fé fique viva.
No meio de tantas histórias fascinantes, inclusive a que explica o nome de Pi (que eu não vou contar pra não estragar a surpresa) uma crise bate a porta do jovem. A família de Pi tem um zoológico por conta de algumas dificuldades o pai decide se mudar para o Canadá, embarcando num navio de carga com a família e todos os animais do zoológico. O navio naufraga numa grande tempestade e Pi consegue sobreviver em um pequeno barco junto com alguns animais. Um tigre, um orangotango, uma zebra de perna quebrada e uma hiena. A hiena mata a zebra a despeito das tentativas de Pi de impedir o ataque, em seguida a hiena mata também o orangotango e por último o tigre mata a hiena.
Restam no barco Pi e o tigre. Pi tem que descobrir como sobreviver, manter o tigre vivo e principalmente não ser devorado por ele. Nessa parte o filme se arrasta um pouco com uma sequência interminável de episódios de Pi fugindo do tigre, Pi tentando dominar o tigre, Pi alimentado o tigre e Pi fugindo do tigre novamente. Pi passa a maior parte do tempo em uma jangada que é presa ao barco através de uma corda para poder se a distanciar da embarcação em que o grande animal carnívoro faminto se encontra. Os acontecimentos se arrastam um pouco mas nós somos compensado com a fotografia é primorosa, nessa parte do filme encontramos as imagens mais bonitas do filme, uma verdadeira obra-de-arte. De todos os concorrentes ao oscar esse é trabalho mais belo que eu vi.
Se Ang Lee se faz um tiquinho cansativo em meados na narrativa, depois ele consegue retomar todo caráter envolvente do início e fechar com chave de ouro. O final é surpreendente, desses quem nem todo mundo entende, mas quem entende se sente maravilhado com a experiência de ter assistido a essa obra surreal.
“Obrigado, Vishnu, por me apresentar a Cristo”
Trailer
Ficha técnica: Diretor: Ang Lee -Elenco: Tobey Maguire, Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon – Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark – Roteiro: David Magee, baseado na novela Yann Martel- Fotografia: Claudio Miranda -Trilha Sonora: Mychael Danna – Duração: 129 min – Ano: 2012
- Life of Pi recebeu 11 categorias no Oscar 2013, incluindo melhor filme, melhor direção, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia.
- Há uma discussão de que o filme é um plágio a história “Max e os Felinos”, do brasileiro Moacyr Scliar. As obras são bem semelhantes realmente.
A Indomável Sonhadora
Por Raquel Rocha
Na corrida para assistir todos os filmes indicados ao Oscar antes da grande cerimônia de premiação me deparei com Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild). Filme de baixo orçamento, do diretor estreante Benh Zeitlin.
O filme é narrado sob o olhar de uma menina de 6 anos Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) que vive isolada numa ilha com o pai alcoólatra Wink (Dwight Henry). O lugar, que eles chamam de banheira, corre o risco de ser inundado a qualquer momento mas os moradores se recusam a sair de lá. Para piorar o pai de Hushpuppy está doente e não quer se tratar. Sabendo que vai morrer ele tenta explicar a filha o quanto a vida é dura e que ela precisa ser forte para sobreviver, ser forte quase como um selvagem. Mas a menina não ouve só as palavras duras do pai, ela tenta interpretar o mundo a sua maneira ouvindo os animais, as pedras e as plantas. “Sempre e em todo lugar, todos os corações batem e bombeiam e conversam de formas que não entendo.”
A ilha acaba sendo alagada numa referência a destruição provocada pelo furacão Katrina. Pai e filha permanecem lá, navegando num barco feito com a carroceria de uma camionete, a procura de outros moradores. Eles não pensam em sair da ilha alagada, nem se revoltam diante da catástrofe, simplesmente aceitam os fatos. Não era permitido chorar, apenas lutar para sobreviver.
É um filme surpreendente que foge do lugar comum das grandes produções mainstream. Denso na maior parte da narrativa com a câmera quase sempre em movimento dando ares de documentário a obra. Personagens reais, humanos até na desumanização provocada pela adversidade. Frequentemente vemos na TV notícias de regiões alagadas e junto com elas, notícias de saques a estabelecimentos comerciais, pessoas que não podem sair de suas casas por medo de roubarem suas coisas mesmo estando tudo embaixo da água. Em Indomável Sonhadora existe uma solidariedade incomum entre o moradores da banheira, que se ajudam e comemoram juntos a vida, por mais difícil que ela seja. Aliais, tudo nesse filme é incomum, principalmente a relação entre pai e filha, que por vezes parece rejeição, descaso, crueldade, mas que na verdade é uma relação de amor e proteção. “Todos perdem aquilo que os fez. É a lei da natureza. Os fortes ficam para ver, não fogem”
O filme recebeu quatro indicações ao Oscar 2013: melhor filme, diretor, atriz e roteiro. A pequena Quvenzhané Wallis agora com 9 anos é a mais jovem atriz a receber uma indicação ao Oscar, quebrando o recorde de Tatum O’Neal que foi indicada ao Oscar em 1973 com apenas 10 anos pelo filme Lua de Papel (Paper Moon) no qual ela contracenava com seu pai Ryan O’Neal. A diferença é que Tatum O’Neal levou a estatueta pra casa, coisa difícil de se repetir com Quvenzhané mas não impossível. De qualquer forma, com ou sem estatueta, a atuação da Indomável Sonhadora já é inesquecível.
Mais quotes/citação
“Os animais fortes sabem quando estão com o coração fraco.”
Ficha técnica: DIREÇÃO: Benh Zeitlin/ DURAÇÃO: 93 min /ROTEIRO: Lucy Alibar, Benh Zeitlin/ EDIÇÃO: Crockett Doob, Affonso Gonçalves/ FOTOGRAFIA: Ben Richardson
Elenco: Quvenzhané Wallis (Hushpuppy), Dwight Henry (Wink), Levy Easterly (Jean Battiste); Lowell Landes (Walrus); Pamela Harper (Little Jo)
Trailer
Django Livre- O novo filme de Quentin Tarantino
Inspirado no western italiano da década de 60 também chamado Django do diretor Sergio Corbuccio, o filme de Tarantino faz jus ao gênero com muitos tiroteios, enquadramentos abertos, trilha sonora dramática e um herói com cara de mau. As semelhanças terminam por aqui.
O novo Django, interpretado por Jamie Foxx, é um escravo que depois de sofrer maus tratos e ser separado da sua esposa, acaba sendo comprado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz, (ChristophWaltz). De escravo, Django passa a ser amigo e parceiro de trabalho do Dr. Schultz. O doutor lhe dá a liberdade para juntos percorrem as fazendas do sul dos EUA matando procurados pela justiça e, nas suas palavras: “Quanto mais perigosos, maior a recompensa”.
O maior recompensa de Django não é dinheiro. Seu desejo é encontrar e libertar sua esposa Broomhilda (Kerry Washington) e ao final de várias caçadas eles chegam até a propriedade onde está a moça. O lugar pertence ao latifundiário Calvin Candie (Leonardo di Caprio) famoso por promover lutas de escravos até a morte. (Spoiler leve) Para conseguir comprar a escrava Broomhilda eles armam um plano que, claro, tinha que terminar em um desastre com muito sangue. Aliás, o sangue é uma marca presente durante todo o filme. Diferente de westerns onde os tiros levam a mortes rápidas e limpas, os tiros em Django Unchained levam a esguichos de sangue, miólos espalhados, buracos nos corpos e gritos agonizantes.
A violência é uma marca registrada de Tarantino que tem em sua biografia filmes como Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Kill Bill e Bastardos Inglórios, mas a violência nesses filmes de tão exagerada acaba se tornando irreal, quase plástica, quase bela, sobretudo em Kill Bill. Em Django a violência tem uma certa dose de crueza que incomodou alguns espectadores: cenas de torturas, chicotadas até um escravo devorado por cães. Para quem não gosta de filmes violentos Django não é uma boa indicação.
Por outro lado, para aqueles que não se importam com banhos de sangue vale a pena assistir a mais essa belíssima obra de Tarantino que foi brilhante em vários aspectos como a trilha sonora, com músicas selecionadas dos discos do próprio diretor, a fotografia incrível e interpretação dos atores, destacando-se Christoph Waltz, que ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante em 2010 pela interpretação do Coronel Landa e nesse filme chega a ofuscar o próprio Django. Samuel L. Jackson, parceiro antigo do diretor faz uma interpretação irretocável do mordomo negro que parece odiar os negros mais que qualquer branco, e Leonardo DiCaprio na pele do cruel Calvin Candie, ator que está cada dia mais maduro, consegue surpreender a cada filme. Candie por sinal é o primeiro vilão que Tarantino confessou odiar, ele que sempre teve uma certa simpatia pelos seus vilões afirmou não encontrar nenhuma característica redimível neste.
A película de 3 horas que aborda delicado tema da escravidão é cheia de diálogos memoráveis e mesmo com caráter sanguinolento tem uma boa dose de humor que faz com que as emoções de expectador se alternem.
Apesar do nome, o mérito da obra está mais no filme do que no personagem central que, talvez pelo sofrimento, seja frio e indiferente a tudo que não seja o resgate da esposa, diferente do Django de 1966 que conservava um certo ar de justiceiro. Mas essa questão do carisma do personagem (ou da falta dele) não torna Django Livre um filme menos sensacional, do que ele de fato é. Sensacional, forte e polêmico, daqueles que você termina de assistir mas continua pensando nele.
Ficha Técnica: Django Livre (Django Unchained). Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino. Ano: 2012.
Elenco: Django – Jamie Foxx, Dr. King Schultz – Christoph Waltz, Calvin Candie – Leonardo DiCaprio, Broomhilda von Shaft – Kerry Washington, Stephen – Samuel L. Jackson.
Raquel Rocha é Graduada em Comunicação Social – Rádio e TV pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
Filme Capitães da Areia tem pré-estréia hoje
O filme Capitães da Areia que terá pré-estréia para convidados hoje(5), dois dias antes do lançamento nacional, dia 07, que ocorre simultaneamente nas salas de exibição em todo o País e no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. A diretora e os 12 capitães da areia, além de outros atores e responsáveis pelo filme estarão na pré-estréia baiana, juntamente com jornalistas, críticos, cineastas, artistas diversos, empresários da área cultural, personalidades de várias vertentes, dentre outros convidados, num total de 600, capacidade das quatro salas do Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha, onde será realizada, a partir das 21 horas. O filme tem o apoio da Bahiagás.
Um dos mais famosos livros de Jorge Amado, escrito em 1937, Capitães da Areia tem em seus 12 principais personagens seres que já povoavam a imaginação de milhões de pessoas. Agora eles ganham vida e definitivamente sua forma humana, na obra gestada pela neta e diretora Cecília Amado, que vislumbrou e concretizou o projeto.
O livro de Jorge Amado é um “best-seller”, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos, sendo 600 mil só nos últimos dois anos. O filme começa agora sua trajetória, como parte das comemorações dos 100 anos de nascimento do escritor, que serão desenvolvidas até agosto de2012. Atrilha sonora é de Carlinhos Brown e a direção de fotografia leva a assinatura de Guy Gonçalves. O mote da história é a liberdade em contraponto ao abandono. Trata da infância carente, drama atual em todo o Brasil, que é abordado com uma visão mais universal trazendo a tona questões como superação, amizade e lealdade.



















