:: ‘cronica’
A formação de craques na Itabuna do passado

Walmir Rosário
Mas qual eram os segredos para Itabuna formar tantos craques? De cara posso garantir que para um atleta atuar no Campo da Desportiva Itabunense era preciso passar por um verdadeiro vestibular, nos “babas” disputados em campinhos dos bairros ou escolinhas de futebol. Aprovado, a partir daí poderia tentar uma vaga nos times amadores.
Tínhamos, por exemplo, a Academia de Futebol Grapiúna, dirigida pelo cirurgião-dentista Demóstenes Carvalho, e os times de Adonias da Mangabinha, de Tim do bairro da Conceição, dentre outros. E os que mais se destacavam eram convidados a jogar nas diversas equipes aspirantes até chegar ao time de cima das agremiações amadoras.
E os campinhos de bairro não eram raridades, como hoje! Bastava um terreno baldio mais ou menos plano, sem muitas pedras, e duas traves. Era assim na Borboleta (hoje rodoviária); banca do peixe, Escola de Celina Braga Bacelar, Maravalha, (centro); São Judas Tadeu; campo do Tênis, torre da Rádio Difusora, Malícia, Brasilgás, Vila Zara, Eucaliptos (bairro da Conceição); Cortume (Banco Raso) para se submeterem aos olheiros e indicarem futuros craques.
O América da Vila Zara, comandado por Adonias, em 1963, era um dos times de camisa que forneceu jogadores para várias equipes. Em 1972, o mesmo América mantinha praticamente a mesma formação, mesclado com jogadores mais novos. João Garrincha, Dema, Betinho Contador, Zé Nito, Luiz Fotógrafo, e tantos outros.
Dezembro chegou e compromissos aumentam

Walmir Rosário
Uma avalanche de atribuições chega junto com o mês de dezembro, isso para quem – como eu – assume as responsabilidades. Tenho que me virar para não falhar com minha presença numa obrigação qualquer, desde a mais singela até os encargos mais sérios. Os deveres contraídos não aceitam as corriqueiras desculpas de última hora, do tipo, um compromisso de última hora…
Um velho e saudoso amigo sempre me dizia, “Rosário, se você começar a falhar nas atribuições contraídas, ou simplesmente recusar os convites, pode ter certeza, que daqui a uns dias você não será lembrado nem para participar de sepultamentos”. E essa é a lei que impera soberanamente na vida social, taxando os inveterados ausentes como antissociais.
Pelo que já devem ter percebido, e não estou me referindo aos compromissos financeiros, cuja inadimplência será tratada por órgãos especiais, a exemplo de SPC, Serasa, cartório de protestos. Refiro-me à vida em sociedade, da qual não se recusa os encontros entre amigos, chegados ou não, em locais antes nunca imagináveis. Faz parte.
Confesso que sou exigente nos meus compromissos assumidos e sou daqueles que acredita que beber cerveja é igual a tomar banho: tem que ser uma obrigação diária. De antemão aviso que a idade nem sempre permite que eu lembre todos os eventos que deverei participar, por culpa exclusiva da memória, às vezes preocupada com temas nada relevantes.
Clube dos Rolas Cansadas analisa candidatos

Walmir Rosário
Com a eleição na reta final, muita gente ainda não escolheu seu candidato, na maioria das vezes por falta de informações. É que eles ficam entocados durante quatro anos, aguardando apenas a largada para uma boa colocação numa câmara municipal qualquer, também chamada de câmara de vereadores. E aí falta tempo suficiente ao eleitor conhecê-los de perto.
Confesso que pensei em analisar esses candidatos, mas com o passar do tempo esqueci completamente da minha promessa. Ainda bem que tenho amigos que sabem cuidar das questões dos amigos, reparando algumas falhas cometidas ao longo do tempo. E foi providencial o convite de Valdemar Broxinha para nos dedicarmos à análise dos candidatos durante um dia inteiro.
E o local escolhido foi o Bar Laranjeiras, de Bené, no centro da cidade, perto de todos os interessados. Imediatamente surgiu outro pretexto: reeditar uma das reuniões do Clube dos Rolas Cansadas, no local mais apropriado. Bastou uma ligação de Valdemar Broxinha, Bené cuidou de gelar cerveja, preparar uma boa quantidade de almôndegas caseiras para saciar a sede e fomes dos associados.
Ondas de pensamentos

Vânia Fagundes
Deitei a minha cabeça sobre o travesseiro e deixei os meus pensamentos fluírem. Estava disposta a deixá-los livres.
Resolvi que, desta vez, os observaria apenas de longe.
Pegaram um trem em movimento e seguiram viagem.
Passarem por um enorme túnel e saíram por uma janela de um dos vagões. Seguiram flutuando sobre relvas, florestas, plantações…
Avistaram o mar e ele tinha uma cor intensa, o seu azul parecia conter todos os azuis do planeta. Eles olharam para trás, como a me procurar. Escondi-me sobre uma nuvem viajante.
Vi quando pararam sobre uma enorme onda e resolveram surfar. Sorrateiros, sorriram e acenaram para mim. Juntei-me a eles.
Companheiro de viagem

Vania Fernandes
Minha amiga costuma viajar de carro. Dirige muito bem, adora um volante. Mas daquela vez decidiu que faria a viagem de ônibus. Voltava de Salvador quando deu-se o fato.
Vinha sentada na primeira fileira logo atrás do motorista. Ao seu lado, ninguém. E ela queria que fosse assim a viagem toda. Estava confortável ocupando as duas poltronas com as pernas bem espichadas. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. Quando o carro parou em Feira de Santana, entrou um sujeito que, pedindo licença, sentou-se ao lado dela.
Aí a viagem tranquila até então, começou a desregular. Alegando um pouco de frio, aumentou a temperatura do ar condicionado, e ajeitou o cobertor. Queria dormir. O sujeito ao seu lado, espichou o braço, fechou a sua própria saída de ar e foi para fechar a dela também.
Não prestou. Ela não gostou da intromissão. Bateu no braço dele impedindo-lhe que fizesse qualquer mudança.
– Ué, disse ele, não entendi. A senhora não falou que estava com frio?
– Mas eu não lhe pedi para mexer no meu ar.
– Mas eu tenho rinite alérgica.
– Então desligue o seu.
– A senhora vire para lá.
– Eu viro para onde eu quiser virar. A poltrona é minha. Vire o senhor para onde quiser.
A lista

Vânia Fagundes
Entro em um supermercado o maior e o único climatizado da cidade. Imediatamente me ligo na música que está tocando. Pego um carrinho, mas já não sei se canto, se danço ou se compro.
Resolvi fazer as três coisas ao mesmo tempo. Afinal sei quase todas as músicas da MPB dos anos 1980 que estavam rolando na playlist.
Não ligo para o que os outros pensem ou achem da situação inusitada, afinal dei férias ao meu juízo, lembram-se?
Uma moça olha para mim e ri. Digo para ela que eu estava feliz porque não estava tocando nenhuma música gospel, pois quando eu quero escutar esse estilo musical, passo na igreja (que frequento muito raramente) para escuta-la.
Não sei porque, mas está na moda por aqui em Ipiaú, cidade onde moro, muitos estabelecimentos comerciais tocarem apenas esse estilo. Credo!
Volto a minha atenção para a minha lista de compras que trago nas mãos, ela é relativamente pequena. Toda semana a minha funcionária coloca uma listinha em cima da bancada da cozinha.
Às vezes finjo não vê-la. Hoje eu fiz uma proposta para ela: “o que você acha de comermos dia sim e dia não, assim começaremos uma dieta juntas?”
Ela riu muito, mas não aceitou o que propus, obviamente.
Voltemos para o supermercado onde continuo a dançar e a cantar. Chego na balcão do açougue, confiro mais uma vez o que vem a seguir na tal lista e leio, bacon e “corno”, pelo menos foi o que eu li.
Peço ao atendente: “moço, por favor, me dê 250 gramas de bacon”. E pergunto rindo assim que recebo o que havia pedido: “aqui vende corno?”
Ele me olha com um olhar atravessado e nada responde. Insisto mais uma vez, e mostro a tal lista, e como vejo que ele não vai me responder digo:
-Deve ter bastante, mas não estão à venda, né?
O Hexampeonato da Seleç,ão de Itabuna

Walmir Rosário*
Atesto e dou fé que o que agora passo a narrar é rigorosamente verdade, daí não retirar ou mudar uma só vírgula do assunto em questão, o futebol amador baiano. Está nos anais da história que a Seleção Amadora de Itabuna se consagrou hexacampeã (em títulos seguidos) do Campeonato Intermunicipal Baiano, feito que até os dias de hoje se encontra tremulando nos píncaros do futebol amador da Bahia.
Tudo começou no ano de 1957 – embora o campeonato seja relativo a 1956 – em 27 de outubro, com um empate em 3X3, em casa, no campo da Desportiva, numa partida cheia de emoções. É que até os 45 minutos do segundo tempo, a Seleção de Itabuna perdia por para a Seleção de Belmonte. Aí, um chute de Tertu marca o gol salvador da pátria. Do meio de campo ele consegue colocar a bola na gaveta superior, onde as corujas dormem.
Bastava caprichar no próximo jogo, na casa adversária, e tomar a dianteira. Não deu outra, Itabuna venceu por 3X1 e deu início a um próspero período de vitórias e títulos. A próxima vítima foi a Seleção de Ubaitaba, vencida por 2X1, na Desportiva e por 4X0 em Ubaitaba. E a partida foi bastante tumultuada, com a expulsão do goleiro itabunense Asclepíades, substituído pelo atacante Santinho, ainda com 20 anos de idade.
Daí pra frente Itabuna venceu Valença em sua casa por 4X3 e repetiu a vitória na Desportiva por 4X1. Para finalizar o campeonato, ganhou da Seleção de Salvador – no campo da Graça – por 2X1 e liquidou a fatura contra os soteropolitanos por 3X1, em Itabuna. Era uma equipe pra ninguém botar defeito, que já tinha mostrado seu potencial ao vencer o Torneio Antônio Balbino em abril de 1957.
No Bicampeonato não foi diferente e a Seleção de Itabuna, mesmo tendo que esperar por três anos para o reinício do campeonato, em 1961. Pra começo de conversa, ganhou da Seleção de Itajuípe, em sua casa, por 3X1, com 2 gols de Zé Reis e um de Florizel. No jogo de volta, em Itabuna, ganhou pelo placar de 3X2, todos marcados por Florizel, considerado o maior centroavante que já atuou em Itabuna.
Nas quartas de final, a Seleção de Itabuna vence o Jequié em sua casa por 3X2, e no jogo de volta abate o selecionado da Cidade do Sol por 4X0, no campo da Desportiva. Na semifinal empata com a Seleção de São Félix em 0X0, na casa adversária, e aplica 1X0 em casa, num gol magistral de Santinho. Com essa vitória Itabuna tinha tudo para colocar a mão da taça, mas o adversário na final seria a Seleção de Feira de Santana.
O sonho das lâminas verticais em Itabuna
Walmir Rosário
Na década de 50 do século passado, os estudantes baianos tomaram conta – de cabo a rabo – da União Nacional dos Estudantes (UNE). Dentre eles, muitos itabunenses participavam da diretoria ou exerciam forte liderança entre a estudantada brasileira, a exemplo de Gutemberg Amazonas, Gervásio José dos Santos, Laércio Pinho Lima e Dagoberto Brandão.
Formados, com o canudo nas mãos, cada retornou a Itabuna para seguir sua profissão escolhida. Gervásio José dos Santos implantou uma forte banca de advogado; Gutemberg e Dagoberto suas empresas de engenharia civil; e Laércio Pinho um escritório de consultoria em economia, prestando serviços às empresas privadas e órgãos públicos, àquela época ainda uma novidade no interior.
Diplomado pela conceituada Faculdade de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, considerada um centro de excelência no ensino superior, Laércio chega a Itabuna resolvido a realizar profundas transformações na cidade, tirá-la de sua condição de cidade do interior (apesar de rica) e dotá-la de todos os requisitos de uma verdadeira metrópole. Um sonho ousado. Como ele.
Em Itabuna cada um com sua profissão e a política fervendo nas veias, tal e qual acontecia nos tempos do Colégio Central, em Salvador, e nos cursos universitários, dirigindo grêmios estudantis, centros acadêmicos e diretórios centrais. E esse caminho trilhado por eles na academia e continuou fielmente após a formatura, cada um militando no seu partido político.
Em Itabuna, ao reencontrar o amigo Dagoberto Brandão, também recém-formado e disposto a aplicar todos os ensinamentos aprendidos na Escola Politécnica, Laércio foi enfático e decisivo ao propor a elaboração de um grande projeto. Monumental, seria a palavra mais adequada para adjetivar aquele calhamaço de papéis com textos e cálculos matemáticos e estatísticos. Sem delongas, propôs ao amigo:
O delegado queria indiciar a tadinha da Florisbela

Florisbela seria levada a júri
Walmir Rosário
No final dos anos 80 do século passado (1980 e tantos) ainda predominavam nas cidades de pequeno porte os delegados sem formação jurídica, os chamados “delegados calça curta”. E um desses delegados atuava na cidade de Itapé, no sul da Bahia. Diligente, nada escapava que não fosse transformado em inquérito, desde um pequeno bate-boca sem chegar às vias de fato, até a ocorrência de um homicídio.
Até para manter a fama de mau com a simples finalidade de manter a ordem a qualquer custo, o delegado fazia valer a sua nomeação para o cargo de autoridade policial sempre cuidando do cumprimento da lei. Não importava o crime ou contravenção penal, o transgressor era obrigado a se explicar na delegacia, em flagrante, ou prestar depoimento para o competente ser instaurado.
Com isso, o promotor de justiça que atuava numa das Varas do Crime da Comarca de Itabuna (que abrangia Itapé) tinham um trabalho redobrado para analisar esses inquéritos e verificar as possibilidades de transformá-los em processo, oferecendo denúncia. E não era fácil, tendo em vista que, por mais que o escrivão e delegado se esforçassem, o trabalho não era considerado um “primor jurídico”, mas nada ficava sem a devida apreciação do Ministério Público.
Um desses inquéritos chamou a atenção do promotor público, ex-militante da advocacia, professor de Direito Penal e Processo Penal, tribuno dos mais eloquentes, daqueles que empolgam tanto a plateia como os jurados, convencendo-os da imputação do crime. E no inquérito que recebeu, por mais que o nosso promotor se esforçasse, não conseguia acreditar no que estava lendo.
E não foi por falta da devida atenção, pois assim que o inquérito lhe chegou às mãos, o promotor examinou com toda a atenção, para tentar se convencer sobre as imputações feitas pelo escrivão, claro que obedecendo às ordens do delegado. Por mais que apurasse sua atenção, não conseguia vislumbrar a tipificação penal ali descrita e a capacidade da ré, nominada Florisbela.













