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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

março 2026
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:: ‘Crônica de Domingo’

Para o domingo não ficar sem crônica, a 15 de março de 2026

Paloma Amado

 

Amigos, pedi a meu pai para publicar este texto seu sobre Asunción Flores, em semana que ouvi Índia e mais uma quantidade enorme de guarânias paraguaias, que acalentaram meu coração. Ao mesmo tempo, tive a alegria de ter encontrado meu irmão paraguaio Oscar Llanes, jurista e diplomata, e seu filho, meu sobrinho Oscarcito. Vieram à Bahia e pudemos nos abraçar e trocar juras de amor fraternal. Pena que desta vez Mazhra, sua mulher, ela irmã também, não veio.

Quando mamãe ficava muito triste, colocava na vitrola um disco de harpa paraguaia. Já sabíamos que não se devia mexer com ela. Eu muitas vezes deitava no seu regaço, quietinha, e ela me fazia cafuné. Quando fico triste, logo vem na minha cabeça Sublime añoranza, trago en alma mia… Não estou triste, mas um resto da virose Baiana System (e eu nem fui ao carnaval!!!) ficou e me amoleceu de tal maneira, que beira a tristeza. O sistema interno entendeu como harpa paraguaia!

A vontade é somente de voltar para a cama, assistir ao programa rural, ver o paredão do BBB — Puxei a minha mãe, assisto BBB! – e tomar um café forte para ver se eu pego no tranco.

Sentei aqui para resgatar alguma coisa de há muito tempo, Moustaki veio comigo para auxiliar no texto, encontrei logo este pequeno texto de Navegação de Cabotagem – ele meteu logo a pata e acrescentou pequena indicação em polonês… – e acabei escrevendo mais que podia. Saio agora correndo para postar no Face, fazer o café e me deitar.

Bom domingo a todos.
(Viena, 1956 — o paraguaio)

Faminto, fome de comida e de mulher, assim encontro o compositor José Asunción Flores, meu camarada, personalidade de relevo no pecê paraguaio, meu amigo de velha data, vem-me consignado pelos companheiros argentinos, traz-me carta de Rodolfo Ghioldi. Passa por Viena a caminho de Moscou, os soviéticos demonstram interesse por suas composições, a celebridade do autor de Índia e sua posição política abrem-lhe as portas da União Soviética.

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Crônica de domingo: Milagres que vivi 8 – Mãe Viturina de Iroko

Paloma Amado

 

Mãe Viturina era baiana de acarajé, mãe pequena de um candomblé banto, Tempo era o dono de sua cabeça. Entre os bantos, Tempo é representado por Irôko, a árvore sagrada. Na Bahia elas são gameleiras, imensas, amarradas com um pano, enorme laço dado com as pontas caídas. Vitu, como a chamávamos, era muito nossa amiga.

Quando chegamos à Bahia no início dos anos 60, meus pais instituíram a Domingueira, uma festa de portas abertas, todos os domingos, para os amigos daqui e de fora. Tinha música, sorvetes, cervejas, papos maravilhosos. Não podia faltar acarajé e abará, que durante anos foram feitos por Vitu, dona do melhor tempero da cozinha baiana.

 

Um dia ela sofre um AVC, ficou hemiplégica, deixou privou as ruas da Bahia e nossa casa de seu tabuleiro, retirou-se.

 

Os orixás, no entanto, exigem de seus filhos que dancem para eles em seus dias de festa, e chegara a hora de dançar para Iroko. Ela mandou nos convidar e nós fomos assisti-la em seu dia.

Os atabaques soaram, três filhas de santo levantaram Mãe Viturina da cadeira, e a conduziram numa dança difícil para quem não tinha mais o movimento das pernas. De repente, Tempo chegou, entrou em sua filha e ela se libertou. Saiu rodopiando sozinha em suas duas pernas, concessão de Iroko, que dança numa perna só, nenhum mal superava o poder do seu orixá.

 

No intervalo para a troca de roupas, enquanto íamos ao barracão para comer a comida ritual, vimos passar Vitu, quer dizer, Tempo, sem ninguém segurar, majestosa. Se achegou a nós, abraçou meus pais, a mim, a Nancy. Depois pegou Carybé pelas pernas e saiu rodopiando com ele pelo terreiro. Foi ainda mais impressionante. Olhei para papai e perguntei: Você viu o que eu vi? Claro, meu bem. Então me explica. Explicar? O melhor nesses casos é não buscar explicação.

Você viu e eu também. São os milagres da Bahia, minha filha. Guarde para você, se contar não vão te acreditar.

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Crônica de domingo, Carnaval da Brigitte Bardot

Paloma Amado

 

Acordei cedo neste sábado com uma escola de samba paulistana desfilando na televisão. Me dei conta de que adormecera sem desligar o aparelho, e quando me vi no espelho do banheiro, constatei que nem a fantasia eu tinha tirado! A fantasia é de gato e composta de duas orelhinhas presas a grampos, que se coloca no cabelo.

(Um breve parêntesis para explicar que fui à farmácia comprar remédio para pressão e a atendente, muito gentil, me perguntou se eu não tinha interesse em adereços carnavalescos. Me apresentou vários e eu me encantei pelas orelhas de gato, que acrescentei à minha compra. Em casa, uma certa decepção, pois meus gatos não ligaram a mínima…)

Eu me olhei no espelho, toda desgrenhada — com as orelhinhas — e comecei a cantar: “Brigitte Bardot, Bardot. Brigitte beijou, beijou. La dentro do cinema todo mundo se afobou”… Que maluquice… só que não! Cantar a antiga música de carnaval sobre a musa francesa recém-falecida, me olhando descabelada no espelho, para mim fez todo o sentido e eu queria contar essa histórinha.

Tinha uns 6 anos quando o filme de Roger Vadim, E Deus criou a mulher, chegou ao Brasil. Os comentários na minha casa eram muitos, meu tio James bastante entusiasmado com a nova atriz francesa, já vira o filme duas vezes. “Você já viu esse filme, Jorge? A atriz aparece pelada, deitada de lado, uma coisa louca”. Meu avô João, um entusiasmado pelo sexo feminino, animava-se todo, perguntando detalhes. Papai não tinha tempo para ir ao cinema, mas também queria saber mais.

Eu, que brincava ali perto, ouvia Brigitte Bardot pra cá, Brigitte Bardot pra lá, não estava entendendo nada e fiquei muito curiosa. Perguntei à mamãe, que também ouvia e, eu não sei por que, amarrara a cara. Você sabe, mãe, o que é uma brigittebardot? Mamãe relaxou, riu e me respondeu: “É uma mulher de cabelo desgrenhado. ” Fiquei de alguma forma na mesma, não fazia muito sentido, pois era difícil entender o entusiasmo dos homens da minha família por uma mulher desgrenhada. Enfim, achava os adultos bem complicados e deixei prá lá. Mas o termo brigittebardot ficou para sempre como sinônimo de descabelada.

Assim, que hoje, ao som do samba enredo “Ora mi maio Oxum@, da Escola de Samba Barrocas Zona Sul, eu me olhei no espelho e constatei: Pura brigittebardot fantasiada de gato. Imediatamente entoei a música do grande Miguel Gustavo, que o Jorge Veiga cantava. Declarei para mim mesma, me olhando no espelho: Começou meu carnaval! Tirei uma foto para vocês verem e eu guardar de lembrança.

Bom domingo a todos, e bom carnaval para quem gosta da festa! Ora iê iê ô!

Crônica de Domingo, Coleção Milagres que vivi 6: A Jaca

Paloma Amado

A primeira árvore plantada por meus pais na casa do Rio Vermelho foi uma jaqueira, era indispensável garantir a presença na casa da fruta preferida, a das fazendas de cacau, a que não podia faltar no café da manhã do coronel João Amado, meu avô. Hoje é uma grande árvore, sempre deu muitos frutos e neste fevereiro de 2026 está carregada de alto a baixo.
Carybé, meu dindo, ia lá para casa papear. Chegava pedindo: Zelhusca, me dá um bloco de papel. Um bloco inteiro? Mamãe provocava o compadre para se divertir, farta de saber que ele deixaria o bloco cheio de desenhos engraçados. Papai virado em jaca foi um dos que compunha a série Jorge Fruta!

Mamãe se mudara, a casa estava fechada há alguns anos, tentávamos fazer dela um museu, quando veio do México meu amigo Carlos Castro e sua mulher Teresa. Fã de papai, queria conhecer onde morara. Fui com eles. Na porta encontrei duas moças que tentavam convencer o vigia a deixar dar só uma espiadinha. A senhora deu sorte, dona, a filha do homem tá vindo aí, se ela deixar…

Deixei, é claro, e entramos os cinco na casa vazia, triste da falta dos seus donos. O dia estava ensolarado, aproveitamos para caminhar pelo jardim, relembrando histórias. De repente, Carlos me perguntou que árvore era aquela, imensa, com frutos enormes. Tentei explicar a jaqueira e sua jaca, mas empaquei sobre o gosto. Gosto de quê? De jaca, ora, gosto forte, único, a pessoa ou adora ou detesta. E ainda tem os tipos, pode ser dura, pode ser mole… Não parece com nada, só provando.

Saímos para sentar no banco da mangueira, onde as cinzas de papai alimentavam as frutas.

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Crônica de domingo, Milagres que vivi: a paulista e o anel africano

Paloma Amado

Tocou a campainha na rua Alagoinhas. Beatriz Costa, a atriz portuguesa que era nossa hóspede, atendeu a porta, estava sozinha em casa. A senhora paulista procurava por Jorge Amado, precisava que ele lhe indicasse onde estava seu anel. Que coisa mais doida essa, pensou Beatrizinha. Me explique melhor, minha senhora. A paulista estava nervosa demais para relatar a história com alguma coerência. Cheguei de São Paulo há uma semana, já volto amanhã, só hoje soube quem era o intelectual importante, preciso saber do anel… Desesperada com a notícia de que ele não estava e só voltaria muito mais tarde, despediu-se de Beatriz com um Eu sou mesmo azarada, minha vida não tem solução, e foi embora.

Soubemos da história dela depois. Com a vida toda atrapalhada, sem dinheiro e problemas familiares, a costureira da periferia de São Paulo tentara de tudo, acabou numa sessão de Umbanda, religião de sua vizinha. No terreiro, logo baixou uma Pomba-Gira que a abraçou e disse para ir imediatamente a Salvador, procurar ali o intelectual mais importante, que ele lhe diria onde encontrar um anel africano que iria abrir seus caminhos, clarear seu tempo. Ela, mesmo sem acreditar muito, vendeu o que ainda restava, inclusive sua máquina de costura – o ganha-pão – comprou uma passagem de ônibus para a Bahia, alugou quarto numa pensão em São Bento.

Voltaria em uma semana, o dinheiro não dava para mais que isso. Nesse meio tempo teria de descobrir quem era esse tal de intelectual, falar com ele, descobrir o paradeiro do anel e tomar posse do seu amuleto. Era uma prebenda difícil.

Naquele mesmo dia, depois de levar cinco para descobrir que o tal intelectual podia ser Jorge Amado, descobrir seu endereço, ir até lá e ele não estar, perdera completamente as esperanças.

Voltou para a pensão, onde os hóspedes, amigos recentes condoídos com sua situação, esperavam ansiosos. E aí? Nada, minha vida é mesmo um desastre. Estavam formando um grupo para ir naquela noite ao Axé do Opô Afonjá assistir à festa de Oxóssi. Tanto fizeram que a convenceram a ir também, cerimônia linda, não vá desperdiçar sua última noite em Salvador.

Ao desembarcar no terreiro, a primeira pessoa que o grupo avistou foi papai. Olha ali o Jorge Amado! Ele é Obá de Xangô e filho de Oxóssi! Só podia estar aqui. A paulista não perdeu um só segundo, partiu para ele. Beatriz viu a cena e disse para papai ser aquela a senhora que estivera em casa. Jorge Amado, cadê o meu anel africano? Ela perguntou na tampa, sem dizer boa noite. Assim como a pergunta, a resposta veio direta: Pergunte a Camafeu de Oxóssi, que está passando aí ao seu lado. Ele sabe.

Ela partiu célere: Camafeu, cadê o meu anel africano? Ela perguntou já puxando da bolsa um desenho que a Pomba-Gira fizera. Camafa olhou o desenho. Está comigo! Recebi uma partida de anéis da África nessa semana e guardei ele para mim. A mulher desabou, amparada pelo grupo de amigos. Combinaram a ida dela ao Mercado Modelo na manhã seguinte, quando Camafeu, que

tinha ali uma barraca de produtos de candomblé, lhe daria a solução de sua vida.
Nunca mais soubemos dela. Quando penso no assunto, imagino que seus problemas se resolveram, ela saiu vitoriosa. Também nunca soube porque papai indicou Camafeu, sem fazer nenhuma pergunta à senhora, nem conhecer sua história. Anel africano, minha filha, é com Camafeu… E ele estava passando do lado bem naquela hora. Arrematava: Milagres do povo da Bahia.

Bom domingo a todos.

Crônica de domingo : Retalhos de poesia

Paloma Amado

 

Perdi a conta das vezes que ouvi dizerem para meus pais, penso que por adulação, o velho e ridículo chavão: Atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher. Papai ficava irritado, coisa rara de acontecer com ele. A resposta não variava: “Zélia nunca andou atrás de mim, sempre esteve ao meu lado e nós dois — dois e não um só — de mãos dadas caminhamos para frente.

O nosso para frente sempre foi à esquerda”. Hoje, pensando nesse ensinamento, começaram a vir à minha cabeça vários poemas e eu resolvi fazer uns recortes e uni-los.

Ficou assim:

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
Num sol de (quase) dezembro, eu vou
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Caminante no hay camino
Se hace el camino al andar
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
É assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos

Mas o tempo é como um rio
Que caminha para o mar
Passa, como passa o passarinho
Passa o vento e o desespero
Passa como passa a agonia
Passa a noite, passa o dia
Mesmo o dia derradeiro

Meu amor não tenhas mêdo
Me dê a mão e o coração, me dê
Quem vive, luta partindo
Para um tempo de alegria
Que a dor de nosso tempo
é o caminho
Para a manhã que em seus olhos se anuncia
Apesar de tanta sombra
Apesar de tanto medo.

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Crônica de domingo, Seresteiros

Paloma Amado

 

Nunca vou esquecer de meu pai, sentado na varanda aberta, perguntando para minha mãe:
— Zezinho, você que sabe tudo de música, contribui aqui com Vadinho que vai fazer uma seresta para Dona Flor.

Mamãe não se fez de rogada e imediatamente começou a cantar com a sua voz linda e afinada:

Noite alta, céu risonho
a quietude é quase um sonho,
o luar cai sobre a mata
qual uma chuva de prata
de raríssimo esplendor…

Papai quase chorou de emoção, parecia que a seresta feita por mamãe era para ele… E era!

Tirando dona Zélia, o maior seresteiro que já existiu, para mim, se chamou Silvio Caldas. Eu o ouvi cantar pela primeira vez quando era menina em Recife. A minha vida era um palco iluminado… ele cantava e era tão lindo.

Lembranças de velha? Deve ser. Pois eu assisti na televisão esta semana um rapaz que se intitula o Rei da Seresta, cantando uma música chamada Lamour ou L’Amour ou La Mour. As opções são dadas na Internet às várias mensões a uma mesma música que diz assim:

Se eu não voltar pra casa

Eu não posso viver…
(vão desculpando a falta de concordância verbal, mas ele é rei e tudo pode…)

Lamour, deixa eu sentir
você perto de mim

Lamour, que foi rever você

Divana, Matidana, Agamenon

Você entendeu? Parabéns! Eu não. A única conclusão a que cheguei foi que o cidadão é bissexual e ama duas mulheres, Divana e Matidana, e um homem, Agamenon.

E quem é esse Rei da Seresta? Chama-se Silfarley! Isso mesmo! Pessoas da minha idade conheceram o ator Cyll Farney, 41 filmes, 5 novelas, galã de sucesso com longa carreira. A avó do compositor, cantor e rei da seresta também conheceu e foi por causa do entusiasmo que a senhora tinha pelo ator (que ele dizia ter sido cantor), que escolheu o nome, mudando só um tiquinho…

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