:: ‘Coleção Milagres que vivi 6: A Jaca’
Crônica de Domingo, Coleção Milagres que vivi 6: A Jaca

Paloma Amado
A primeira árvore plantada por meus pais na casa do Rio Vermelho foi uma jaqueira, era indispensável garantir a presença na casa da fruta preferida, a das fazendas de cacau, a que não podia faltar no café da manhã do coronel João Amado, meu avô. Hoje é uma grande árvore, sempre deu muitos frutos e neste fevereiro de 2026 está carregada de alto a baixo.
Carybé, meu dindo, ia lá para casa papear. Chegava pedindo: Zelhusca, me dá um bloco de papel. Um bloco inteiro? Mamãe provocava o compadre para se divertir, farta de saber que ele deixaria o bloco cheio de desenhos engraçados. Papai virado em jaca foi um dos que compunha a série Jorge Fruta!
Mamãe se mudara, a casa estava fechada há alguns anos, tentávamos fazer dela um museu, quando veio do México meu amigo Carlos Castro e sua mulher Teresa. Fã de papai, queria conhecer onde morara. Fui com eles. Na porta encontrei duas moças que tentavam convencer o vigia a deixar dar só uma espiadinha. A senhora deu sorte, dona, a filha do homem tá vindo aí, se ela deixar…
Deixei, é claro, e entramos os cinco na casa vazia, triste da falta dos seus donos. O dia estava ensolarado, aproveitamos para caminhar pelo jardim, relembrando histórias. De repente, Carlos me perguntou que árvore era aquela, imensa, com frutos enormes. Tentei explicar a jaqueira e sua jaca, mas empaquei sobre o gosto. Gosto de quê? De jaca, ora, gosto forte, único, a pessoa ou adora ou detesta. E ainda tem os tipos, pode ser dura, pode ser mole… Não parece com nada, só provando.
Saímos para sentar no banco da mangueira, onde as cinzas de papai alimentavam as frutas.
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