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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

março 2026
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:: ‘Milagres que vivi 8 – Mãe Viturina de Iroko’

Crônica de domingo: Milagres que vivi 8 – Mãe Viturina de Iroko

Paloma Amado

 

Mãe Viturina era baiana de acarajé, mãe pequena de um candomblé banto, Tempo era o dono de sua cabeça. Entre os bantos, Tempo é representado por Irôko, a árvore sagrada. Na Bahia elas são gameleiras, imensas, amarradas com um pano, enorme laço dado com as pontas caídas. Vitu, como a chamávamos, era muito nossa amiga.

Quando chegamos à Bahia no início dos anos 60, meus pais instituíram a Domingueira, uma festa de portas abertas, todos os domingos, para os amigos daqui e de fora. Tinha música, sorvetes, cervejas, papos maravilhosos. Não podia faltar acarajé e abará, que durante anos foram feitos por Vitu, dona do melhor tempero da cozinha baiana.

 

Um dia ela sofre um AVC, ficou hemiplégica, deixou privou as ruas da Bahia e nossa casa de seu tabuleiro, retirou-se.

 

Os orixás, no entanto, exigem de seus filhos que dancem para eles em seus dias de festa, e chegara a hora de dançar para Iroko. Ela mandou nos convidar e nós fomos assisti-la em seu dia.

Os atabaques soaram, três filhas de santo levantaram Mãe Viturina da cadeira, e a conduziram numa dança difícil para quem não tinha mais o movimento das pernas. De repente, Tempo chegou, entrou em sua filha e ela se libertou. Saiu rodopiando sozinha em suas duas pernas, concessão de Iroko, que dança numa perna só, nenhum mal superava o poder do seu orixá.

 

No intervalo para a troca de roupas, enquanto íamos ao barracão para comer a comida ritual, vimos passar Vitu, quer dizer, Tempo, sem ninguém segurar, majestosa. Se achegou a nós, abraçou meus pais, a mim, a Nancy. Depois pegou Carybé pelas pernas e saiu rodopiando com ele pelo terreiro. Foi ainda mais impressionante. Olhei para papai e perguntei: Você viu o que eu vi? Claro, meu bem. Então me explica. Explicar? O melhor nesses casos é não buscar explicação.

Você viu e eu também. São os milagres da Bahia, minha filha. Guarde para você, se contar não vão te acreditar.

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