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Crime e castigo

A decretação da prisão preventiva do secretário de Governo da Prefeitura de Porto Seguro, Edésio Lima, sinaliza de forma claríssima que os crimes de mando na Bahia começam a fazer parte de um passado que só não é desejável esquecer porque ainda existem casos emblemáticos a serem esclarecidos.
Edésio Lima, que teve a prisão solicitada pelo delegado Evy Paternostro e acatada pelo juiz da Vara Crime Roberto Freitas Júnior, é acusado de ser o mandante do assassinato dos professores Álvaro Henrique Santos e Elisney Pereira, diretores da API/Sindicato Seguro. Também tiveram a prisão preventiva decretada pela Justiça os policiais militares Sandoval Barbosa dos Santos, Geraldo Silva de Almeida e Joilson Rodrigues Barbosa, apontados como responsáveis pela execução do crime.
Álvaro e Elisney foram assassinados em setembro de 2009, quando lideravam uma intensa campanha salarial no município. Eles foram emboscados numa área rural do município. Na sequência, foi assassinado o motorista do secretário, Antônio Carlos Santos, crime que a polícia suspeitou ter sido “queima de arquivo”. As suspeitas contra Edésio Lima se ampliaram durante as investigações e se fortaleceram com a tentativa de homicídio contra uma testemunha-chave do caso, que levou 12 tiros, mas sobreviveu e está sob proteção policial.
A morte dos professores teve repercussão estadual e mobilizou Porto Seguro, que se uniu cobrando a punição dos responsáveis pelos crimes. Como as investigações correram em segredo de justiça, muitos chegaram a temer que o caso fosse descambar para a vala da impunidade.
Felizmente, não foi o que ocorreu. As secretarias estaduais de Segurança Pública e de Justiça e Direitos Humanos se empenharam na apuração, deixando claro que se houve crime, haverá o castigo, sempre respaldado na lei.
Edésio e os policias militares, acusados formalmente pelas mortes dos professores Álvaro e Elisney, do motorista Antonio Carlos e da tentativa de assassinato da testemunha, terão todo o direito de se defender.
Comprovada a culpa, irão pagar pelos bárbaros crimes que cometeram.
A Bahia que desejamos não comporta mais que pessoas que lutam pelos seus direitos e pelos direitos de seus companheiros de profissão sejam silenciadas pela truculência de quem não aceita contestações ou opiniões divergentes.
Os tempos são de diálogo e não de chicote.
De respeito às manifestações democráticas e não de tiros e de pancadarias.
Quem não entendeu e/ou não se adaptou a esses novos tempos, que pague pelos erros que cometeu, seja ele de que partido for e qual a condição financeira de que disponha.
A impunidade, essa mancha vergonhosa que nos acompanhou durante décadas, definitivamente não combina com a Bahia de hoje e a Bahia que se constrói para o futuro.
A Fantástica Fábrica de Charutos
No final de semana fiz um pit stop em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, para reforçar meu estoque regulador de charutos.
Os puros do Recôncavo podem não ser páreo diante dos inigualáveis cubanos, mas não fazem feio, ao contrário, são de excelente qualidade, com um preço que não abala o estoque regulador da conta bancária.
Visitei e me abasteci na fábrica Velame, tocada pelo pai, seu Denis, e pelo filho, Alan. Uma fabriquinha modesta, mas honesta, que fornece charutos para as grandes fábricas, fornecedoras de charutos para o Brasil e o Exterior.
Quem apreciar um bom charuto ou uma cigarrilha e estiver trafegando pela BR 101, vale a pena dar uma paradinha em Cruz das Almas e conferir.
A fábrica Velame fica na rua J. B. da Fonseca, 235, centro. O fone é (75) 3621-2479.
Fundação Nacional dos Insensatos
A culpa pelo conflito entre supostos índios tupinambás e pequenos produtores rurais, que se instalou na região da Serra do Padeiro em Buerarema e ameaça se estender a áreas rurais de Ilhéus e Una pode ser debitada única e exclusivamente na FUNAI, a Fundação Nacional do Índio.
Que, no caso em questão, pode ser chamada da Fundação Nacional dos Insensatos.
A partir de um inacreditável relatório elaborado por técnicos da FUNAI, conferindo aos tupinambás uma extensa área de 35 mil hectares nos três municípios sulbaianos, o que era apenas reivindicação se transformou numa espécie de lei, pelo menos para os supostos índios;
O relatório não tem poderes para tanto, é passível de contestação e ainda precisa passar por várias etapas até que passe a valer ou não, mas serviu como salvo-conduto para que propriedades rurais sejam invadidas, saqueadas, destruídas e que seus moradores, a esmagadora maioria composta por agricultores familiares, sejam ameaçados e agredidos.
Para os tupinambás (ou os que dizem pertencer a essa etnia, já que existem denuncias de cadastramento de índios em Buerarema e cidades vizinhas), a área de 35 mil hectares lhes pertence e ponto final.
E, em sendo assim, se a área lhes pertence, os atuais ocupantes que tratem de escafeder-se, caso contrário serão expulsos, se necessário com o uso da pressão, como vêm ocorrendo na Serra do Padeiro.
A barafunda criada pela FUNAI, além da dimensão da área que ela sugere ser demarcada, não avaliou que os pequenos produtores ocupam essas terras há várias gerações e de lá tiram o seu sustento. Não podem ser simplesmente arrancados de lá, como quem arranca uma erva daninha ou como se fossem usurpadores, o que efetivamente não são.
Nada disso foi levado em conta pelos burocratas insensatos da FUNAI, que de seus gabinetes refrigerados em Brasília, assistem à distância as conseqüências do relatório que perpetraram.
Que os indígenas, pilhados e explorados desde que Pedro Álvares Cabral descobriu nos trópicos um porto seguro, precisam ter seus direitos preservados é fora de discussão. Isso vale também para os legítimos descentes dos tupinambás. A reparação, portanto, é justa e necessária.
Mas, o que não se pode é, em nome de se fazer justiça com algumas centenas de índios, se cometer uma injustiça com milhares de pequenos produtores rurais.
O bom senso que faltou à FUNAI deve prevalecer entre as autoridades responsáveis pela manutenção da ordem, antes que o que ainda é escaramuça de parte a parte se transforme numa guerra sangrenta.
Uma guerra que infelizmente já começou e que precisa parar imediatamente.
Porque, se ela se intensificar, as conseqüências são mais do que previsíveis.
Violentamente previsíveis.
A MORTE CHEGA CORRENDO

Na BR 101, a caminho de Cruz das Almas, nas proximidades de Travessão, uma picape passa voando pela gente, numa velocidade superior a 120 quilômetros.
Quando estamos chegando a Gandu, um acidente gravíssimo na pista. A picape bateu numa carreta que transportava cerveja e se transformou num monte de ferro retorcido. O motorista da picape morreu na hora e ainda foi possível ver seu corpo esmagado entre o volante e o banco.
Pergunta-se: é necessário correr tanto, arriscando a vida dessa maneira?
A resposta é desnecessária.
Os doutores do povo

A conclusão de um curso em nível superior já é, por si só, uma grande conquista. Significa, entre outras coisas, atingir um estágio educacional elevado, romper uma barreira que, infelizmente, apenas uma pequena parcela da população consegue transpor, nesse funil que ainda é o ensino universitário.
Concluir um curso de Direito, uma das mais prestigiadas e concorridas profissões, amplifica ainda mais essa conquista. Ao lado de Medicina, o Direito é o curso mais disputado em todos os vestibulares, sejam eles em instituições públicas ou privadas.
E o que dizer então, de um grupo de pessoas para quem, tempos atrás, cursar Direito numa faculdade privada era um sonho inatingível?
Nesse sentido, a formatura da 3ª. Turma de Direito de Faculdade de Ciência e Tecnologia (FTC/Itabuna), torna-se ainda mais significativa. Foi a primeira em que alunos do Sul da Bahia se formaram em Direito graças ao ProUni, o programa do Governo Federal que abriu as portas do ensino superior para estudantes de escolas públicas.
São pessoas que, apesar do esforço elogiável e da dedicação aos estudos, dificilmente teriam condições de acesso as universidades públicas, visto que iniciaram o curso antes da implantação do sistema de cotas.
E que, em nenhuma hipótese, teriam condições de arcar com os custos de uma faculdade privada, num dos cursos com a mensalidade mais cara. O ProUni foi, para eles, a ferramenta imprescindível abraçar a carreira que escolheram.
E a Turma de Direito da FTC não teve um ou dois alunos do ProUni, o que já seria digno de registro, mas nove novos bacharéis.
Nove novos profissionais aptos a exercer uma profissão que é fundamental para a plenitude da cidadania e a manutenção da democracia.
Maria Janice Brito Lacerda, Rodrigo Eduardo Rocha Cardoso, Ramon Amaral de Deus, Daniel dos Santos de Oliveira, Joventino Sampaio Santana, Marcio Luiz Cardoso Fernandes, Liomarques Barbosa dos Santos, Rita de Cássia Rocha Moreira e Tony Coelho Santos.
Esses são os bacharéis em Direito formados pela FTC através do ProUni.
Verdadeiros doutores do povo, que por suas origens e suas histórias, certamente não serão apenas profissionais bem sucedidos na área do Direito, mas pessoas comprometidas com a Justiça Social.
Por uma questão de princípios e, porque não, de gratidão pela monumental oportunidade que tiveram e souberam aproveitar.
Guerreiros e guerras

Houve um tempo em que nos estádios de futebol as torcidas vestiam a camisa do time do coração e faziam tremular as bandeiras, entoando hinos de apoio ao clube e a seus ídolos. Um tempo em que ir ao estádio era um programa tipicamente familiar.
Era um tempo, também, em que se praticava o futebol-arte, de toques, dribles, lançamentos precisos e gols que, de tão bonitos, mereciam placas.
Vão longe esses tempos quase poéticos, em que Pelé, Garrincha, Didi, Rivelino, Falcão e Zico, só para citar os craques nacionais, desfilavam talento pelos gramados.
Da arte, sobraram lampejos perpetrados vez ou outra por um jogador extraclasse, cada vez mais raro, que insiste em romper as amarras de esquemas táticos que priorizam a força bruta.
E, por força de um espírito competitivo em que se joga para vencer ou vencer, a arte deu lugar à correria, à preparação física que transforma meninos talentosos em atletas-robôs.
Saiu a inspiração, entrou a transpiração.
Saíram os craques, entraram os guerreiros.
Sim, os guerreiros, que motivam até propaganda de cerveja e que transmutam, sem a menor sutileza, campos de futebol em campos de batalha.
Se o que temos é batalha campal, guerra pelo resultado positivo, nada mais natural que esse espírito guerreiro se espalhasse para as arquibancadas.
E se espalhou mesmo.
O torcedor espontâneo, apaixonado pelo time, deu lugar às chamadas torcidas organizadas, verdadeiras facções que se dirigem aos estádios como quem se dirige a uma guerra, onde é preciso abater o inimigo a qualquer preço.
Nada de apitos, buzinas, fogos de artifício.
Pedaços de pau, barras de ferro, bombas de fabricação caseira e revólveres compõem o kit-guerreiro. Um verdadeiro arsenal, para ferir e se for o caso matar o inimigo.
No futebol guerreiro, a guerra se dá em todas as frentes.
Alex Furlan de Santana, 26 anos, é a mais recente vítima dessa guerra. Ele foi baleado na cabeça durante um confronto entre torcedores do São Paulo e do Palmeiras. Outras 12 pessoas saíram feridas.
Em tempo: em campo, os guerreiros do Palmeiras venceram os guerreiros do São Paulo por 2×0.
Mas, quem se importa com isso?
Balança mas não cai?

Itabuna e Colo Colo começaram o Campeonato Baiano com ganas de brigar pelo título e trazer a taça para o Sul da Bahia, o time itabunense pela primeira vez e o ilheense repetindo o feito de 2005.
Fizeram uma boa pré-temporada, contrataram jogadores experientes, técnicos tarimbados e conseguiram até patrocinadores de peso, que não tiveram receio em espalhar seu apoio em out-doors e outras peças publicitárias.
Em Itabuna e Ilhéus, otimismo dos torcedores.
Parecia que o Dragão e o Tigre iriam engolir os adversários e fazer tremer o Bahia e o Vitória, os gigantes de Salvador e candidatos naturais ao título.
Pouco mais de um mês depois do início do Baianão e rompida a primeira fase, o que era sonho virou pesadelo para os dois times.
O Itabuna chegou a iludir o torcedor, com dois triunfos logo de cara, contra o Atlético de Alagoinhas e o poderoso Vitória. Depois, empacou.
Em nove jogos, ganhou dois, empatou um e perdeu seis. Marcou seis gols e levou treze. Trocou de treinador, mandou jogadores embora, trouxe reforços, mas parou nos sete pontos, namorando a perigosa zona do rebaixamento para a Segunda Divisão.
A classificação para as finais tornou-se um delírio de ultra-fanático e a conquista do título uma miragem.
A realidade é brigar para não cair.
Já o Colo Colo disse a que não veio desde o início: tomou de 5×0 do Bahia logo na estréia. Depois, ganhou apenas um mísero joguinho e ainda assim a duras penas.
No mais, foram sete derrotas, algumas delas por goleada. Marcou onze gols e tomou vinte e três. Trocou meio time, técnicos entram e saem e o time continua na pasmaceira.
Classificação? Título? Nem na ficção “jorgeamadiana”!
O torcedor ora e implora para que o time não caia para a Segunda Divisão, juntando suas preces aos itabunenses.
Para o Itabuna e o Colo Colo e seus desafortunados torcedores, o Baianão de 2010 só não acabou porque, triste ironia, ambos estão irmanados no mesmo propósito: não cair.
Mas, que eles estão balançando, não há como negar.
O Tigre e o Dragão que se aquietem, porque o momento está para São Jorge e São José, respectivamente padroeiros de Ilhéus e Itabuna.
Santos padroeiros, como se depreende, são mais apropriados do que animais, quando se entra no quesito milagre.






















