Silvio Porto

Li o livro do Jaguar, Confesso que Bebi e resolvi escrever uma homenagem ao amigo Tasso dono de um dos melhores bares que já existiu em Itabuna no final da década de 80.

Com um texto engraçado, bem construído e inteligente, Jaguar, que foi um dos fundadores do Pasquim, fez, sim, jornalismo, ao mesmo tempo em que fez humor e literatura. Em tempos em que cada vez mais tenta-se converter o jornalismo em algo isolado do resto, definindo-o em conceitos que excluem outras formas de arte, afirmo que o livro de Jaguar é um exemplo do contrário.

 

E é jornalismo – e de qualidade – pelo seguinte: o livro conta histórias, das pessoas e dos lugares. Histórias de nomes conhecidos que tomaram seus aperitivos nos botecos da vida, histórias dos donos dos bares, histórias contadas pelos donos dos bares, histórias dos bares. No fim das contas, jornalismo é isso: contar histórias. E parte do bom jornalismo é contar histórias relevantes e interessantes. É o caso.

 

Os bares também são a cultura de uma cidade, e, ao contrário do que devem achar os mais conservadores, crônicas sobre a boemia não estimulam o abuso de álcool – um problema sério –, mas seu consumo consciente como mais uma forma de diversão, tão normal quanto as outras.

 

Eu não poderia fazer uma crônica sobre o melhor bar que existiu em Itabuna, sem me inspirar no melhor livro sobre bares que já li do Jaguar: Confesso que bebi.

Abel Silva poeta da MPB , certa feita disse com muita inspiração:” o bar é o descanso do lar”.

Entre tantas músicas de sua autoria( nesta em parceria com Sueli Costa) , Jura Secreta que Simone eternizou :

“Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que eu não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
Do que por não saber ainda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega é o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que eu não sofri.”

Os grandes clássicos de Pixiguinha, Noel Rosa, Vinicius, Tom Jobim, Chico Buarque, só existiram por causa da mesa de um bar.

Alguns amigos me chamavam para beber 08hs da manhã e eu dizia , mas ainda é muito cedo.

Cedo aqui, no Japão já é 08hs da noite. Se a gente estivesse lá , já não estaria bebendo?

 

E tá certo!

 

O Vive La Vie tinha uma coisa boa.

O dono Tasso bom de conversa, tricolor do Flu do Rio de quatro costados, não deixava o cara sozinho na mesa.

 

Você sentado no bar sozinho, é muito triste, passa uma de menor abandonado.

Ele grande observador , sempre dava uma atenção especial aos solitários.

Paulo Mendes Campos, autor de uma frase , que sempre gostei e agora chegando na chamada terceira idade, mais ainda, chorando a morte dos amigos: “Na proximidade do crepúsculo , homem nenhum de alguma sensibilidade pode distinguir entre os mortos e os vivos que o acompanham “.

Paulo Mendes Campos, doutor em bar, crônica e poesia, reuniu em livro, algumas crônicas, com uma delas com o nome O amor acaba.

Porque bebemos tanto assim?

 

Um bar legal e perfeito precisa de pelo menos uma destas qualidades: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida.

 

O Vive La Vie , eu diria chegou lá.

 

O grande ator americano Humphrey Bogart, que no filme Casablanca, o seu personagem era dono do Bar mais famoso do cinema , certa feita disse a seguinte frase:

 

“Todo homem está sempre três doses abaixo do normal”.

 

Todos lembram do filme, considerado um dos grandes filmes de todos os tempos, Casablanca tem um Rick’s Café , onde Bogart e Ingrid Bergman imortalizaram uma canção, um romance e um bar.

Em Itaipava no estado do Rio tem o bar do Carlinhos, e um aviso: “Só aturamos bêbados ricos”.

Dizem que os herdeiros da família Real Portuguesa são habitués do boteco.

Jaguar quando lá esteve bebericando e comendo, doou uma tabuleta que dizia: “se você bebe para esquecer, pague antes de beber”.

Na mesa de bar, tudo acontece, e quando dois conterrâneos se encontram , pode ter certeza que depois de muita conversa, no final descobrem que são parentes, principalmente se são baianos ou mineiros.

Nossa família tem parentes demais, a sorte, e que minha mãe não era frequentadora de boteco e não bebia, se não meu irmão a parentada dobrava.

 

Lu , minha sobrinha que é chegada num boteco, poderia até fazer esta parte, mas não puxou a avó neste particular de descobrir parente.

 

Lu bebendo puxou mais ao pessoal de Bodinho seu pai, Bebeto seu tio, que fazia farras de dois a três dias sem tirar o copo da boca.

 

Amizade boa , nasce muito nos botecos e bares da vida.

 

Vinicius de Moraes dizia que o melhor amigo do homem é o cachorro.

 

Como ele não tinha um, dizia que o seu uísque era um cachorro engarrafado.

 

Dizia ainda Vinicius que preferia ser um bêbado conhecido do que um alcoólatra anônimo.

 

No pinguim , bar famoso em Ribeirão Preto , São Paulo certa feita li no sanitário masculino:

 

Mesada e como menstruação, vem uma vez por mês e acaba em 04 dias.

 

Paulo Francis sempre dizia que bebia para tornar as pessoas interessantes.

 

E de bar em bar a gente aprende uma grande filosofia de vida e razão para viver.

 

O Vive La Vie tinha uma clientela fiel e cativa. Não teve vida longa e deixou saudades.

 

Sergio Cabral , o pai, disse certa feita que os que não amam os botecos e bares estão perdoados.

E viva a vida!

Vive La Vie!

 

Silvio Porto  médico e, como se denota, tem um texto maravilhoso e envolvente.