Vania Fernandes

Minha amiga costuma viajar de carro. Dirige muito bem, adora um volante. Mas daquela vez decidiu que faria a viagem de ônibus. Voltava de Salvador quando deu-se o fato.

Vinha sentada na primeira fileira logo atrás do motorista. Ao seu lado, ninguém. E ela queria que fosse assim a viagem toda. Estava confortável ocupando as duas poltronas com as pernas bem espichadas. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. Quando o carro parou em Feira de Santana, entrou um sujeito que, pedindo licença, sentou-se ao lado dela.

Aí a viagem tranquila até então, começou a desregular. Alegando um pouco de frio, aumentou a temperatura do ar condicionado, e ajeitou o cobertor. Queria dormir. O sujeito ao seu lado, espichou o braço, fechou a sua própria saída de ar e foi para fechar a dela também.

Não prestou. Ela não gostou da intromissão. Bateu no braço dele impedindo-lhe que fizesse qualquer mudança.
– Ué, disse ele, não entendi. A senhora não falou que estava com frio?
– Mas eu não lhe pedi para mexer no meu ar.
– Mas eu tenho rinite alérgica.
– Então desligue o seu.
– A senhora vire para lá.
– Eu viro para onde eu quiser virar. A poltrona é minha. Vire o senhor para onde quiser.

A viagem que poderia ser tranquila seguiu fazendo barulho. A poltrona do tal sujeito tinha vontade própria. Toda hora rangia seus dentes e caía para trás. Minha amiga reclamou, pediu-lhe que fizesse menos zoada e que ele respeitasse o seu silêncio. O homem lhe disse que só poderia viajar com a poltrona ereta, por causa de uma hérnia na lombar, mas que a dita cuja estava com defeito. Ela o aconselhou a ir reclamar com o motorista. Ele resmungou algo e permaneceu onde estava. Não demorou para a poltrona cair para trás novamente. A viagem parecia não ter fim. A cadeira ruidosa continuava a impor a sua própria vontade. Queria seguir deitada, era teimosa. Talvez quisesse dormir também. Vá saber. A cada solavanco, provocado pelos buracos da estrada, a bicha relinchava para trás, para depois ser puxada para a frente novamente. O vai-e-vem continuou por quilômetros.

Quando o ônibus chegou em Jequié o tal sujeito saltou para tomar um café e a minha amiga aproveitou para mudar de assento. Quando o cara retornou, mudou de lugar também. E assim seguiram em paz até o destino final.