Vania Fagundes

 

Estávamos na Estrada do Chocolate que liga o município de Uruçuca ao de Ilhéus. Vínhamos ouvindo música, observando as várias árvores caídas ao longo do acostamento e os muitos cabos de energia pendurados.

Comentávamos quantos estragos a chuva da última semana havia feito naquela região de Mata Atlântica e o quanto tinha sido bom não termos decidido viajar na terça passada.

Como tenho mania de contar, comecei a somar em voz alta a quantidade de troncos caídos. Distraída que sou, me perdi nas contas. Acho que já passam de vinte, pontuei.

Eu vinha durante toda a viagem conversando besteiras que nos faziam rir. Por instantes eu me calei, sou de falar pouco(?), foi aí que ele me perguntou: Acabou o repertório? Ele sempre me faz essa pergunta quando acontece de eu me calar um tiquinho. Respondi-lhe que estava conversando com o meu cérebro e que ele começava a escrever uma crônica futura.

A nossa frente, de repente, não mais que de repente (sempre quis escrever essa frase) destampou um ônibus velho com uma cortina roxa tremulando feito bandeira, voando pela janela. Parecia querer dar tchau para quem passava por ele. Meu filho, que seguia ao volante, falou: Essa cortina roxa está querendo sair do ônibus, que bizarro, repare também como ele está todo torto, todo empenado.

Nesse momento parei o meu diálogo interno e disse: Ele deve estar com problema de hérnia de disco, melhor chamar um osteopata para fazer um alinhamento. Rimos feito loucos. Eu tinha decidido dar férias ao meu juízo.