Uma visita ao Pré-assentamento Dois Riachões – uma vivência em economia solidária, uma imersão na cultura do cacau
Uma vivência em economia solidária, uma imersão na cultura do cacau.
O chocolate como perspectiva sustentável
Efson Lima
Estive no dia 17 de fevereiro de 2020 no Pré assentamento Dois Riachões, encravado em uma pequena colina no município de Ibirapitanga. A recomendação de ir visitar foi feita pelo Superintendente de Economia Solidária e Cooperativismo, Milton Barbosa, cuja repartição está vinculada à Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Estado da Bahia.
A visita foi orquestrada pelo jovem Fidel Max, uma das lideranças da Rede de Agroecologia Povos da Mata. Poderia ser mais um dia daqueles em que o gestor publico é amarrado pelas reuniões e sugado pela burocracia interminável, mas não, desta vez, a perspectiva foi outra. Foi alvissareira. Somava-se à tarefa da visita, o Centro Público de Economia Solidária ( Cesol) liderado pelo coordenador geral, Thiago Fernandes e o coordenador de articulação Gilson Araújo, ambos desafiados pelo ver, ouvir e fazer, equipamento mantido por meio de contrato de gestão financiado pela SETRE, no total, são 13 no Estado da Bahia.
Particularmente, sou um jovem que tive a sorte de não morar nas fazendas de cacau, mas tive a oportunidade de ouvir muitos relatos de meus pais e de tantos outros trabalhadores dessas fazendas. Uma coisa é ser dono, outra coisa é entregar sua força de trabalho. Assim sendo, o Pré – assentamento Dois Riachões vai se diferenciando, pois, nele a propriedade tem um sentido coletivo. A terra é meio de sobrevivência e não de acumulação e concentração de riqueza.
A beleza das ações do Pré – assentamento Dois Riachões não está só na ressignificação do conceito de propriedade. Vai muito além, perpassa pelo sempre presente desejo da região sul da Bahia em ser produtora de chocolate. Beneficiar o principal produto da região – o cacau. Nosso cartão postal.
Os projetos em curso no Pré -assentamento Dois Riachões são ousados. Que bom! Ousadia é uma palavra que não pode faltar no momento. Os discursos que nos chegam são retrógrados, desafiadores do que conhecemos como humanidade… Outros tempos certamente virão. Os desafios do Pré – assentamento Dois Riachões são tocados por Luciano Ferreira, uma das lideranças juntamente com outras pessoas. Afinal, o projeto é coletivo.
No assentamento, vimos uma fábrica-escola de chocolate sendo construída. Além do espaço de fabricação, as pessoas poderão saber e aprender sobre a produção do chocolate, as etapas do beneficiamento, a história e as estórias sulbaianas. A preservação da mata atlântica e o fazer preocupado no desenvolvimento sustentável, na agroecologia. É a possibilidade do encontro do mágico com o real. Do sonho com a realidade. É a afirmação de um novo modo de produção. Reunir as pessoas para sonhar, produzir, comercializar, acreditar em uma realidade inclusiva é uma das centralidades da economia solidária. O Pré-assentamento Dois Riachões representa esse caminho. Há também um espaço de gastronomia em construção. O curioso é que o financiamento é coletivo. Os produtores tomam empréstimo e pagam colaborativamente. O Pré -assentamento Dois Riachões é um espaço vivo de aprendizagem. As escolas, faculdades e universidades da região precisam visitar e conhecer ainda mais.
Há sociedades que preferem plantar, outras beneficiar. O sul da Bahia está sendo desafiado a plantar, beneficiar, estudar, melhorar a qualidade da produção e comercializar. Dominaras etapas do processo é caminho para uma agregação de valor. Cada chocolate tem uma identidade. Tem uma particularidade de ser e estar no mundo. Esperamos que essas tecnologias estejam sempre disponíveis para os agricultores familiares, os empreendimentos de economia solidária e de todos aqueles que pensam em uma sociedade justa e solidária. Onde o desenvolvimento sustentável seja uma condição para vivermos melhor.
Portanto, ter estado no Pré-assentamento Dois Riachões foi uma oportunidade de vivenciar uma vivência em economia solidária crescente, uma rápida imersão na cultura do cacau e constatar o chocolate como uma perspectiva sustentável e uma nova fase de desenvolvimento do sul da Bahia, agora, tendo os pequenos produtores, arranjos coletivos solidários oferecendo novas oportunidades. O Cesol – Litoral Sul segue com o desafio de acompanhar e fazer parte do conjunto de apoiadores.
Efson Lima – efsonlima@gmail.com
Doutor e mestre em Direito/UFBA. Coordenador de Assistência Técnica e Inclusão Sócioprodutiva da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE) – coordenação responsável pelos Centros Públicos de Economia Solidária no Estado da Bahia. Professor Universitário e coordenador do Laboratório de Empreendedorismo, Criatividade e Inovação da F2J.













