:: ‘Cracolandia’
Fotógrafo baiano lança livro-documentário com o cotidiano do povo em situação de rua nas cidades de Juazeiro, Petrolina e São Paulo

Heitor Rodrigues com o padre Júlio Lancelotti
Com previsão de lançamento para março, o livro-documentário [às] Margens do Olhar, do fotógrafo documentarista baiano Heitor Rodrigues, 30 anos, envolve a reconstrução das representações imagéticas de pessoas em situação de rua, através da fotografia, tendo em vista que esses sujeitos estão mergulhados no mar da invisibilidade social.
O seu novo livro contará com imagens da realidade das pessoas em situação de rua dos municípios de Juazeiro (Bahia), Petrolina (Pernambuco) e São Paulo (capital). O prefácio da obra é de autoria do agente social, o padre Júlio Lancelotti, pároco episcopal da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Segundo o fotógrafo, a obra conduz a um ganho da percepção enquanto um Ser com direitos sociais. “Esse modo de adentrar nesse mundo repleto de vulnerabilidade, a partir da fotografia, contribui para emergir um olhar mais sensível e reflexivo com essas pessoas”, comenta.
“Afinal é imprescindível discutir sobre uma parcela da população que sempre foi marginalizada, provocando novas percepções em torno da sua existência”, afirma Heitor Rodrigues.
Ainda segundo Rodrigues, o trabalho teve concepção e captação de imagens há mais de dois anos e foi bastante impactante. Além de captar o cotidiano das pessoas em situação de rua, em Juazeiro e Petrolina, o livro também traz o cenário do povo de rua da maior metrópole da América Latina.
Ex-modelo troca passarelas pelo crack

Loemy posa para catálogios de moda
Loemy Marques, 24, não para quieta. A abstinência está no auge. Observa duas fotos suas na capa da revista “Veja São Paulo”. Na primeira, aparece linda, nos tempos de modelo. Na segunda, a imagem atual, após dois anos de vício em crack e morando na rua.
“Você precisa decidir qual das duas você quer ser”, diz um amigo, tentando impedi-la de voltar ao fluxo – nome dado à aglomeração de viciados que hoje fica na esquina da rua Helvétia com a alameda Cleveland, na cracolândia, região central de São Paulo.
“Estou confusa, quero fumar”, diz ela.
É tarde de sábado (22). Loemy senta-se e levanta-se várias vezes de uma cadeira de plástico na sede do Recomeço, projeto do governo estadual para tratar dependentes, enquanto é disputada por equipes de programas de TV.
A ex-modelo que virou craqueira ficou “famosa” a partir da divulgação de sua história, naquele mesmo dia.
Ela contou à revista que começou a fumar crack em 15 de setembro de 2012, quando teve dois celulares e R$ 800 roubados por dois bandidos. Foi então que alguém colocou um cachimbo com a droga na boca dela, e veio uma sensação descrita como “uma tomada para carregar”. Vítima de abusos do padrasto na infância, voltou a sofrer abuso na cracolândia. Para manter o vício, também chegou a se prostituir.
PROPOSTA

Loemy na Cracolândia:a pedre fala mais alto
“Não viemos explorar a tragédia dela”, diz um produtor de TV. “O que estamos oferecendo é uma proposta de final feliz, ela vai para um hotel, para uma clínica. Mas queremos exclusividade.”
Enquanto isso, o funcionário de outra emissora se oferece para comprar um maço de cigarros para ela. Para irritação do primeiro, ela sai por alguns minutos com o homem. Quando volta, segura um Marlboro vermelho e um chocolate Diamante Negro.
Uma das equipes oferece que Loemy vá para um hotel.
“Não quero. Não consigo ficar sozinha lá”, diz. “Estou acordada há dois dias. Vou ficar acordada até apagar e depois me interno no Cratod [centro estadual de referência de álcool e outras drogas].”
Da última vez que a preparadora de modelos Debora Souza, 36, viu Loemy, já a encontrou na casa de um amigo em “estado deplorável”. “Mas não sabia que ela tinha ido parar na rua”, afirma.
Loemy passou por cursos na Skin Model, onde Debora trabalha. “Foi em meados de 2012. Ela estava crua ainda”, conta. “Mas tinha todo o potencial do mundo, uma beleza estilo anos 80.”
Debora conta que começou a receber queixas de indisciplina. “Ela ficava muito revoltada de não ser aprovada no casting [seleção] e tinha comportamentos súbitos de gritar com as pessoas”, diz. “Outra vez, gostaram dela, mas no meio da prova de roupa ela saiu para fumar e voltou com a roupa cheirando cigarro.” Longe das passarelas, Loemy chegou a tentar se internar e voltar para o interior de Mato Grosso, onde vive a família. No fim, sempre acabava voltando à cracolândia.
No domingo (23), Loemy continua no fluxo.
Quando não está fumando crack, anda de um lado para o outro e, às vezes, abaixa-se para procurar algo no chão.
Poucos ali a conhecem, mas muitos se identificam com a história dela.
“Eu era engenheiro mecânico até um ano e meio atrás. Saí com uma prostituta, fumei uma pedra e hoje não consigo sair daqui”, diz um homem de 36 anos, ao ser questionado se a conhecia.
Apesar do 1,79 m de altura, Loemy passa despercebida no meio dos demais viciados.
Com o cachimbo na mão, não quer conversa. Enfia-se entre as dezenas de barracas onde os viciados fumam e desaparece de vista. (da Folha de São Paulo)
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