:: ‘Notícias’
ORGULHO DE SER NORDESTINO

Quadro de Waldomiro de Deus, baiano de Itagibá, que conquistou São Paulo e de lá o mundo, com sua arte.
A expressiva votação de Dilma Roussef no Nordeste, pelo tamanho monumental da diferença de votos entre ela e José Serra, produziu a impressão de que, não fossem os votos dos nordestinos, o tucano e não a petista teria vencido a eleição.
Os números mostram que, extraídos os votos do Nordeste, Dilma ainda assim bateria Serra e seria eleita presidente.
Dilma, portanto, ganhou com os votos do Nordeste, que lhe conferiram uma vitória espetacular, com mais de dez milhões de votos de diferença, mas não apenas por causa do Nordeste.
A votação nordestina a Dilma, região em que Lula é idolatrado e onde em algumas casas do interior sua foto divide espaço com o Padre Cícero (o que dá a idéia exata da devoção), serviu de mote para que viesse a tona uma onda, felizmente contida à tempo, de xenofobia.
E essa prática surgiu em São Paulo, o estado mais rico e desenvolvido do País e ao mesmo tempo o mais retrógrado e conservador, especialmente no que se refere à sua classe média.
Partiu de uma estagiária de Direito, uma pessoa em tese bem esclarecida, a mensagem mais agressiva, espalhada via internet, sugerindo que cada paulista matasse um nordestino para “limpar” São Paulo.
A partir daí surgiram expressões pejorativas do tipo “vagabundos”, “parasitas”, “câmaras de gás para extermínio em massa de nordestinos”, etc., como se habitássemos uma região que vive exclusivamente dos recursos do Bolsa Família.
Não seria o caso de dar repercussão à opinião de uma destrambelhada, chateada porque seu candidato foi derrotado.
É o caso, sim, de condenar uma agressão recorrente, que apareceu de maneira subliminar, mas perceptível, na campanha eleitoral. Era como se o país estivesse dividido entre os ricos e escolarizados eleitores do Sul/Sudeste, obviamente eleitores de Serra; e os pobres e semi-alfabetizados eleitores do Nordeste, uma legião de pobres coitados dependentes dos programas sociais de Lula, eleitores de Dilma, claro.
A votação de Dilma em São Paulo, onde ela obteve cerca de 45% dos votos os válidos, e as votações expressivas em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, demonstraram que não é bem assim que se desenha o mapa do Brasil.
Não existe o país dividido que parte da mídia ressentida com a derrota de seu candidato preferido e uma elite que tem ojeriza à ascensão social de milhões de pessoas tentam mostrar.
Existe sim um país unido, em que a maioria dos eleitores fez a opção por uma candidata e um modelo de governo. Isso é democracia, tem que ser respeitado.
Com relação ao Nordeste, terra de gente trabalhadora, hospitaleira e alegre, região de belezas naturais e uma cultura que encanta pessoas do Brasil e de todo o mundo; se ainda apresenta indicadores sociais e econômicos inferiores aos centros mais desenvolvidos do país, é justamente porque ao longo de cinco séculos foi espoliado, primeiro pelos colonizadores e depois pela elite política.
Até que apareceu um certo Luiz Inácio Lula da Silva para mudar essa história…
Uma história que Dilma e os milhões de nordestinos e demais brasileiros vão continuar escrevendo, substituindo o preconceito e a discriminação pela igualdade.
Por um Brasil do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste.
De todos.
DILMA E A ENERGIA BAIANA

Quando participou do comício em Vitória da Conquista, ao lado do governador Jaques Wagner, Dilma Roussef encerrou seu discurso dizendo que iria levar “a energia baiana para a reta final da campanha”.
A energia baiana fez bem à presidente eleita, tanto que ela resolveu ´recarregar as baterias´, desta vez aproveitando as energias e as belezas naturais de Itacaré, no Sul da Bahia.
Dilma vai precisar de muita energia, para manter e ampliar o legado de Lula.
Portanto, deixa a mulher descansar.
Dilma Vana Roussef

Dilma Vana Roussef, que na juventude se engajou na luta pela democracia e foi presa e barbaramente torturada nos porões da ditadura militar, é a primeira mulher eleita presidente do Brasil, uma das mais importantes nações do planeta.
Na campanha eleitoral, Dilma sentiu de novo na pele a força do porão e da tortura, desta feita sob a forma da calúnia, preconceito e de uma monstruosa máquina de produzir e espalhar mentiras, que repetidas à exaustão ganhavam tons de verdade absoluta junto ao eleitorado menos esclarecido e à classe média conservadora.
Dilma Roussef vai substituir o mais querido e popular de todos os presidentes brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva, ou simplesmente o Lula.
Uma responsabilidade imensa, não apenas pelo desafio de mostrar que uma mulher pode, sim, comandar o Brasil, mas por substituir um presidente que se converteu em mito.
Lula, mentor e principal responsável pela vitória de Dilma, deixa como legado um país quem, além dos avanços econômicos e sociais que entre outras coisas geraram 15 milhões de empregos e tirou 25 milhões de pessoas da miséria, resgatou a auto-estima dos brasileiros.
Um povo que perdeu o secular complexo de vira-latas, como a definiu Nelson Rodrigues e um que hoje tem um governo que, como perpetrou Chico Buarque, não fala fino com os Estados Unidos e grosso com a Bolívia e o Paraguai.
Numa das falas mais marcantes de importantes de toda a campanha, que curiosamente foi dita apenas nos comícios e não apareceu no horário eleitoral gratuito, Dilma disse o seguinte:
-Quando Lula foi eleito presidente, ele disse que não poderia errar, porque iriam dizer que trabalhador não pode ser presidente. Eu digo que também não posso errar, porque irão dizer que mulher não tem condições de governar o Brasil. E não vou errar.
Não dá para duvidar das palavras dessa mulher-guerreira, que ajudou a derrubar a ditadura, sobreviveu a todo o tipo de sordidez durante a campanha e que, a partir de 1º. de janeiro será presidente de todos os brasileiros, essa gente igualmente guerreira, que não desiste nunca e que, a despeito de tanta coisa ainda há ser feita, se orgulha de seu país.
Dilma Vana Roussef, do Brasil.
MILAGRES POR ATACADO
Acordo cedo, ligo a TV e vou zapeando em busca de algo pra assistir. Eis que me deparo com um daqueles programas evangélicos que dominam as madrugadas e os inícios das manhãs..
E testemunho, pela primeira vez nos meus 50 anos de vida, milagres por atacado.
30 cegos enxergaram.
20 paralíticos andaram.
25 surdos escutaram
15 mudos falaram.
Esse foi o “saldo” de uma pregação de 15 minutos do apóstolo que apareceu na televisão pedindo voto para José Serra.
Pena que ninguém se deu ao trabalho de levar um caixão com um defunto dentro, porque aí possivelmente testemunharia uma ressurreição em pleno dia de Finados.
O inacreditável é que com tamanho poder, o tal apóstolo, que faz os cegos enxergarem, os paralíticos andarem, os mudos falarem e os surdos escutarem, não conseguiu multiplicar os votos de seu candidato.
Com a devida ressalva de que a esmagadora maioria dos bispos e pastores evangélicos é composta de gente séria, que faz da religião um instrumento para melhorar a vida dos fiéis, tem muito picareta aí, que explora boa fé das pessoas humildes para operar o verdadeiro milagre: enriquecer usando o santo nome de Deus em vão.
OS TRÊS PATETAS DA VEJA

O day after dos três patetas da Veja, Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo e Diego Mainairdi, após a vitória de Dilma não está sendo fácil.
A trinca, que se leva a sério, mas provoca risos tantas são as asneiras que escreve, segue a catilinária contra Dilma e Lula, naquele misto inconfundível de ressentimento e preconceito.
Alguém precisa avisá-los que a chance de haver terceiro turno é a mesma que a Veja tem de recuperar a credibilidade dos tempos de antanho.
E bota antanho nisso.
Domingo de decisão

Chega ao final neste domingo uma das mais acirradas eleições presidenciais desde a redemocratização do Brasil, no final da década de 80 do século passado.
As pesquisas divulgadas por institutos como o DataFolha, Ibope, Vox Populi e Sensus apontam uma vantagem média de 12 pontos em favor da candidata do PT, Dilma Roussef, sobre o candidato do PSDB, José Serra.
A folga aparente, que poderá se confirmar ou não quando as urnas forem abertas, não reflete a realidade de uma eleição em que as propostas de governo e as discussões sobre os destinos do país nos últimos quatro anos foram colocadas em segundo plano.
Esses temas, de extrema importância, deram lugar a questões que envolvem questões morais e/ou religiosas, como o aborto e a crença em Deus. Importantes, sim, mas que não deveriam ocupar o foco do debate, como ocupam até nos momentos que antecedem o pleito.
Nunca, em tempo algum, se viu uma campanha marcada por tantas baixarias, a maior parte delas protegida pelo manto do anonimato, com acusações sem provas e algumas aberrações que só encontraram ressonância pela prática da repetição exaustiva.
A internet serviu como força motriz para que boatos se espalhassem numa velocidade e numa proporção espantosas, tendo Dilma como a principal vítima.
Quando veio o segundo turno, a artilharia passou a ser mútua, e aí até as baixarias se equilibraram. Virou chumbo trocado, enquanto na campanha oficial, aquela em que tem que se manter um certo recato, o PT tocou no ponto mais sensível ao PSDB: a privatização.
Para compensar as estripulias de Erenice Guerra, vieram à público as estripulias de Paulo Preto.
Empatados no quesito “mui amigos` e reduzido o impacto da questão moral/religiosa, pode-se, enfim, ter ao menos uma réstia do que efetivamente este em jogo nessa eleição: a opção dos brasileiros entre os oito anos de FHC e os oito anos de Lula, o que de certa forma explica como, a despeito de tanta pancada, Dilma conseguiu abrir vantagem sobre Serra nessa reta final de campanha.
Domingo é dia de decisão.
Mas não é um Fla-Flu, um Palmeiras x Corinthians, um BA-VI ou um Itabuna x Colo Colo.
É o seu futuro, o futuro de sua cidade, de seu estado e de seu país que estão em jogo.
Um futuro que, democraticamente, seu voto vai ajudar a definir como será.
Retrato abandonado num corredor
Num de seus mais belos poemas, Carlos Drummond de Andrade, ao relembrar a cidade de sua infância, escreveu, num misto de saudade e melancolia, que Itabira era apenas um retrato amarelado na parede.
Em Itabuna, cidade que não tem entre suas virtudes preservar a memória de personagens que foram protagonistas de sua história, um de seus maiores empreendedores tornou-se um retrato abandonado num corredor obscuro.
Manoel Chaves foi um empreendedor no sentido exato da palavra. A partir de um pequeno negócio, à custa de muito trabalho e com visão de futuro, montou um império que se estendeu pelos ramos de produção, comercialização e industrialização de cacau, setor imobiliário, comércio, construção civil e telecomunicações.
Manoel Chaves, numa época em que muitos transformavam as riquezas do cacau em apartamentos de luxo em Salvador, Rio de Janeiro e na Europa, investiu na modernização de uma cidade que ele adotou como sua. Plantou prédios, lojas, indústrias e semeou desenvolvimento.
Quando ainda nem se falava em responsabilidade social, Manoel Chaves financiou através de suas empresas cursos de nível superior para funcionários e seus filhos e ofereceu-lhes condições para que pudessem melhorar de vida, apoiou artistas de muito talento e poucos recursos, manteve creches e colaborou com instituições beneficentes. Além disso, concedia aos colaboradores de suas empresas vantagens que iam além das leis trabalhistas. Tudo isso sem fazer alarde ou marketing pessoal.
Manoel Chaves é, seguramente, um dos principais personagens de Itabuna nesse seu primeiro século de vida. Se algum reconhecimento público ganhou, foi o nome de uma avenida no bairro São Caetano, que muitos ainda chamam pelo nome anterior, presidente Kennedy.
Merecia mais, muito mais.
Não o teve em vida porque sempre foi uma figura discreta, de mais ação e menos exposição.
Não o tem depois que faleceu, pela falta de memória da cidade.
Gente como Manoel Chaves, e também Firmino Alves, José Soares Pinheiro, JJ Seabra e outros personagens marcantes de Itabuna, deveriam merecer bustos em praças públicas, darem nome a escolas e serem lembrados às novas gerações como exemplos para uma cidade que, a despeito de todas as crises por que passou e passa, é capaz de se redescobrir e dar a volta por cima, justamente por conta dessa chama empreendedora, dessa força atávica de superar desafios.
Uma chama que Manoel Chaves simbolizou como poucos.
Manoel Chaves não merece ser apenas um retrato amarelado na parede da memória itabunense.
E, menos ainda, ser um retrato abandonado num corredor de um dos prédios que ele construiu como mostra a foto que ilustra esse texto.
















