:: ‘Dom Paulo Lopes de Faria’
Rio Grande do Sul, Dom Paulo, TV Cabrália e os nossos ´catarinenses`

Daniel Thame
A tragédia do Rio Grande do Sul, que deixou dezenas de vítimas fatais e milhares de desabrigados e está fazendo com que o Brasil se mobilize numa emocionante corrente de solidariedade, me fez lembrar de um pecadilho cometido três décadas atrás.
O tempo, senhor da razão (e das dores nas costas, dos cabelos brancos e ralos e otras cositas mas) permite essas reminiscências. Até porque, o tal pecadilho que aqui vou revelar em nada altera uma eventual recusa ou um improvável passaporte para o Reino dos Céus.
TV Cabrália, 1992. Como ocorre agora com o Rio Grande do Sul, Santa Catarina enfrentava uma enchente apocalíptica e o Vale do Itajaí foi arrasado pela fúria das águas. A Rede Manchete, da qual a Cabrália era afiliada, fez uma campanha para arrecadar alimentos, remédios, roupas e cobertores para os flagelados.
A TV Cabrália entrou na campanha e em poucos dias arrecadou toneladas de donativos, que seriam enviados a Santa Catarina.
Uma noite, por volta das 20 horas, entro no estúdio abarrotado de solidariedade, onde mal havia espaço para as câmeras e a mesa do apresentador.
De repente, me deu o estalo.
Naquele mesmo ano, moradores da Bananeira e do Gogó da Ema, bairros paupérrimos da periferia de Itabuna, estavam sofrendo com as cheias do Rio Cachoeira. Nada que se comparasse à tragédia de Santa Catarina, mas centenas de famílias perderam seus parcos pertences e muitas estavam desabrigadas.
O raciocínio foi óbvio.
Se a gente pedisse donativo pras vítimas das enchentes em Itabuna, é provável que o retorno seria quase nenhum. Já para os catarinenses, em função da comoção nacional que se criou, mal havia espaço para colocar tantas doações.
Veio o estalo.
E com a cumplicidade do então Bispo Diocesano de Itabuna, Dom Paulo Lopes de Faria (esse sim, com certeza, já habitando o Reino dos Céus), a quem consultei sobre a minha intenção, uma parte dos donativos foi entregue para uma Igreja Católica e dali para as famílias da Bananeira e do Gogó da Ema.
A outra parte, é bom que se diga, seguiu para os catarinenses, que sem saber e por linhas tortas, proporcionaram um gesto de solidariedade aos itabunenses, irmãos de pátria e de infortúnio.
(Em tempo: antes de partir para o Céu dos Homens Bons e Justos, Dom Paulo foi meu parceiro em outra aventura: impedir que a Policia Militar de ACM, com sua conhecida ´gentileza´, invadisse a sede do MST em Itabuna para ´acariciar´ os sem-terras. Mas isso é outra história…)
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