Radio Difusora Oeste, plantão de polícia e a hora de sair do ar

Daniel Thame
Rádio Difusora Oeste, Osasco, anos 1980. O rádio sempre foi a verdadeira escola de jornalismo e, para os novatos na área, a porta de entrada era o noticiário esportivo ou a cobertura policial.
Ou no meu caso, as duas coisas juntas.
Recém saído do seminário (recém saído é eufemismo para recém-expulso, mas isso é outra história), já militando no Diário de Osasco, aventurei me pelas ondas da Rádio Difusora Oeste.
Fazia o plantão na Delegacia de Polícia pela manhã e participava do programa de esportes ao meio-dia.
Isso quando não colocava uma mochila nas costas, uma única calça velha azul e desbotada, uma camisa branca igualmente velha e saia sem destino pelas quebradas de Nuestra América, mas isso também é outra história…
Voltemos às ondas do rádio.
Se no esporte, era duro cobrir times mulambentos que disputavam a 3466513ª. Divisão do Futebol Paulista e ter que encher espaço até com torneios de cuspe a distância, bocha e palitinho, na cobertura policial era, digamos, um banquete…
Afinal, Osasco era conhecida à época como a Capital do Crime, fonte inesgotável para o antológico jornal Noticias Populares, o que dispensa maiores apresentações.
Era chegar na DP, pegar os boletins de ocorrências e escolher o, digamos de novo, cardápio.
Assassinatos, chacinas, roubos, apreensão de drogas, uma rotina de atrocidades, que rendiam uma baita audiência, ao contrário dos jogos chinfrins que a gente narrava para ninguém.
O fato é que, naquele show de horrores, você começa achar normal crimes não esclarecidos por má vontade e otras cositas mas, espancamento de presos e apreensões de 100 quilos de maconha (cocaína naquela época era raridade, crack nem existia) que no caminho entre o local do flagrante e a delegacia viravam 40 quilos, se muito.
Não deveria ser normal, não era normal, eu tinha apenas 21, 22 anos e estava achando aquilo normal.
Até o dia em que, chegando ao plantão me vi diante de uma noite absolutamente calma para os padrões osasquenses. Nenhum assassinato, nenhum grande assalto, nenhum acidente grave.
Eis que, quando o apresentador do programa me aciona do estúdio e pede as manchetes direto da DP, não é que eu respondo com a maior naturalidade:
-Infelizmente essa noite não teve nenhum assassinato em Osasco…
Como assim, “infelizmente essa noite não teve nenhum assassinato em Osasco?”
Hora de sair do ar. Como tinha férias vencidas na rádio e no jornal (não que isso me importasse quando a estrada chamava), peguei minha surrada mochila, fui ver o pôr do sol em Machu Pichu e na volta fiquei só com a cobertura esportiva.
E não é que o nosso time foi promovido para a 3466512ª Divisão do Campeonato Paulista!!!













