Jorge Amado de Faria nasceu na fazenda Auricídia, imóvel rural pertencente a Ferradas, na época distrito do município de Itabuna. Foi em 10 de agosto de 1912. O pai era um fazendeiro do cacau, participou das lutas pelo desbravamento e conquista da terra.  Aos dois anos, a família passou a residir efetivamente em Ilhéus, cidade sul baiana que tem a ver com o Brasil nascendo como nação. Antes de se transferir para a cidade de praias belíssimas, assistiu o pai ser vítima de uma tocaia, escapando por sorte.

Cyro de Mattos (foto de Jaqueline Alencart)

Declarou mais tarde que era um menino de Itabuna e de Ilhéus, como o Adonias Filho, que é nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, criado em Ilhéus. Considerava-se um grapiúna, homem de raízes enfincadas na civilização cacaueira baiana. Sua passagem em Ilhéus deu-lhe inspiração para escrever Terras do Sem Fim, São Jorge dos Ilhéus e Gabriela, Cravo e Canela, romances.  de sua segunda fase como ficcionista.

No terminal de suas criações romanescas escreveu o estupendo Tocaia Grande, que acontece no condado imaginário de Irisópolis, identificado como   Pirangi, antes de ser Itajuípe. Para o Capitão Natário da Fonseca, Tocaia Grande era o paraíso. Para o frei Zygmunt, um valhacouto de bandidos, reino da luxúria, danação de Satanás!

O pai enviou-lhe aos onze anos de idade para estudar em Salvador, no Colégio Antônio Vieira. Nesse educandário conheceu o padre Luís Gonzaga Cabral. Numa redação sobre o mar, o padre ficou impressionado com a narrativa   de um dos alunos. Quando retornou com as provas examinadas, disse para os alunos: “Tenho uma aqui que eu faço questão de ler, esse vai ser escritor.” Referia-se ao adolescente Jorge Amado, que cumprindo o vaticínio do padre Cabral iria se tornar décadas depois romancista de mais de vinte milhões de leitores.

Residiu no Rio, Paris e Praga. Tornou-se deputado federal pelo PCB, por São Paulo. Nos idos agitados de 1936 foi preso como vários intelectuais, que moravam em diversos pontos do País. Graciliano Ramos em Maceió. Ficou preso dois meses na Polícia Central do Rio. Foi expulso do Brasil, teve seus livros queimados em praça pública durante o regime do Estado Novo.

Decepcionado com os atos irracionais do ditador Stalin, perseguidor implacável dos que discordavam de sua maneira de governar o povo russo, rompe com o partido. Prosseguiu na caminhada corajosa de ser um escritor irreverente, compromissado com os derrotados, os excluídos da vida pela opressão do sistema político defeituoso, organizado com preconceitos e desigualdades sociais. Sentia-se antes de tudo como um escritor do povo, de putas e vagabundos, capitães da areia, duma gente oprimida pelo sistema regrado pelo homem dito como civilizado.

Em 1961 candidatou-se à Academia Brasileira de Letras por insistência de amigos acadêmicos. Otavio Mangabeira antes de morrer disse que gostaria de ser sucedido na casa de Machado de Assis por Jorge Amado. Só vestiu o fardão da Academia três vezes, a primeira quando foi tomar posse, depois para receber Adonias Filho e Dias Gomes. Não se dava bem no fardão. Tinha uma facilidade incrível na arte de fazer amigos, escreveu prefácios para muitos escritores emergentes e consagrados, mas conservou sempre sua independência intelectual, que não tinha preço. Escrever cansava, mas era uma maneira de se divertir como um homem de espírito irreverente.

Certa vez me disse que onde está um agrupamento humano de natureza associativa há a ambição, a inveja e o fuxico. Observou ainda que as artes são necessárias como o pão é vital para a sobrevivência humana. Esse escritor grandão, de coração generoso, é o patrono da cadeira de número 5 da Academia de Letras de Itabuna, ocupada atualmente por esse cronista. Tive a sorte de ser seu amigo, aprendi muito com ele. Faz falta, muita falta.