ostra e perola

Cleide Léria Rodrigues

 

cleide leriaLonge de mim querer decifrar o que Rubem Alves quis dizer , mas depois de ler este trecho do livro “Ostra Feliz não faz pérola “, eu fiquei pensando… não podemos entregar ao estilo de vida sofredor ou mártir no intuito de produzir os pérolas,mas é sabido que a vida não é mar de rosas .A vida é mar de verdade!

Nesse mar nós somos navegantes e como em todo mar , enfrentamos Calmaria e Tempestades.  Estou pensando que Rubem ( para os íntimos) nos faz um poético alerta sobre como a gente enxerga a dor … a gente não quer saber dela nunca ! Principalmente quando a dor é da aalma. Eu na condição de psicóloga que sou , percebo nos meus atendimentos que a gente costuma querer arrancar bem rapidinho as DORES da alma , daí um dos motivos de muitas pessoas não terem “paciência “ para fazerem a psicoterapia.

Querem pra já,querem pra ontem, as vezes não entendem que é um passo de cada vez a cada dia e cada pessoa tem o seu tempo .

Mas não é assim o caminho mais saudável.  A psicoterapia busca ajudar o cliente a fazer a tal da Pérola, e às vezes Dói . Falar da dor em busca de dar a essa dor um significado mais redondo e brilhante como a pérola pode doer mesmo. Mas ficar com o grão de areia sendo um simples grão de areia, áspero e opaco dentro da gente por anos ou décadas, dói muito mais.

Você não conhece o trecho só qual me refiro acima ? Então vou colar aqui embaixo pra você ter agora as suas próprias reflexões…

(Cleide Léria Rodrigues ).

 

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias,que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas , com pingos de limão, com arroz, paellas , sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam presa fácil aos predadores.  Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas , conchas duras , dentro das quais vivem . Pois havia num fundo do mar uma colônia de outras ,muitas ostras. Eram ostras felizes . Sabia-se que eram ostras felizes porque dentro de suas conchas saia uma delicada melodia , música aquática, como se fosse um canto gregoriano , todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solitário.  Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste.  As ostras felizes se criam dela é diziam :”  Ela não sai da sua Depressão…”Não era depressão. Era Dor . Pois um grão de areia havia entrado na sua carne doía, doía doía. E  ela não tinha jeito de se livrar dele , do grão de areia. Mas era possível livrar -se da dor.O seu corpo sabia que , para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava , em virtude de sua aspereza, arestas e pontas , bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho  – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora , foi pescada . O pescador se alegou, levou-as para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-o em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade: era uma PÉROLA, uma linda PÉROLA. Apenas a Ostra sofredora fizera uma PÉROLA. Ele tomou a Pérola e deu de presente para sua esposa. Ela ficou muito feliz “

(Rubem Alves).

 

Cleide Léria Rodrigues

Psicólogia Clínica CRP03/18383

Clínica Mente Saudável.

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