UFSB Ciência: Pesquisadores divulgam resultados de experimentos em restauração florestal com espécies nativas
Por Heleno Nazario

(foto acervo pessoal Daniel Piotto)
Pesquisadores do Centro de Formação em Ciências Agroflorestais da Universidade Federal do Sul da Bahia (CFCAf/UFSB) apresentaram os resultados de experimentos com restauração florestal em artigo publicado na revista Forest Ecology and Management. O estudo Restoration plantings of non-pioneer tree species in open fields, young secondary forests, and rubber plantations in Bahia, Brazil é assinado por Daniel Piotto (Centro de Formação em Ciências Agroflorestais – CFCAf/UFSB), Kevin Flesher (Reserva Ecológica Michelin), Andrei Caíque Pires Nunes (CFCAf/UFSB), Samir Rolim (colaborador do Laboratório de Dendrologia e Silvicultura do CFCAf/UFSB), Mark Ashton e Florencia Montagnini (Universidade de Yale). Dentre os resultados, os cientistas perceberam que os melhores índices de crescimento foram obtidos em áreas de campo aberto, no chamado tratamento a pleno sol.
O professor Daniel Piotto explica que o artigo aborda diferentes metodologias para restauração de populações de espécies florestais nativas raras e ameaçadas. O projeto de pesquisa foi estabelecido em parceria com a reserva ecológica Michelin, em Ituberá, Bahia. O experimento foi iniciado em 2009, com o plantio de 1.200 árvores de cinco espécies nativas raras e consideradas ameaçadas (nomes populares: gindiba, bacupari, óleo-copaíba, landirana e bapeba), distribuídas em áreas com tratamentos diferentes: em campo aberto a pleno sol, a pleno sol com espécies florestais pioneiras, em florestas secundárias e em plantação de seringueira. Essas espécies de árvores têm similaridades o crescimento lento do tronco, a alta densidade da madeira e sementes de tamanho entre médio e grande, o que as torna dependentes de dispersão por animais. A equipe de cientistas monitorou o crescimento e a sobrevivência das árvores ao longo de seis anos, usando como medidas a altura, o diâmetro da árvore a 1,30m do solo e a sobrevivência de cada vegetal nas parcelas.
Conforme o artigo descreve, há diversos estudos que preconizam sobre a combinação entre as espécies não-pioneiras e pioneiras, que se desenvolvem mais rápido e tendem a criar as condições propícias para o crescimento das espécies não-pioneiras, de crescimento lento, como as estudadas no projeto. Porém, o principal resultado encontrado pelos pesquisadores é o crescimento significativamente superior dessas espécies não-pioneiras nos tratamentos a pleno sol, em campo aberto. O professor Piotto explica que o tratamento a pleno sol é o mais interessante para projetos de restauração de árvores raras e ameaçadas: “possibilita um crescimento mais rápido das árvores. Com o crescimento mais rápido, as árvores atingem maturidade mais cedo, possibilitando a produção e a dispersão de sementes das árvores plantadas, apoiando o reestabelecimento de suas populações, bem como permitindo um uso mais precoce dos plantios por espécies da fauna silvestre em busca de abrigo e alimento”.

(foto acervo pessoal Daniel Piotto)
O processo de restauração florestal representa um desafio cuja solução trará ganhos significativos para a recomposição de biodiversidade. Espécies que quase desapareceram podem ter populações repostas, o que vai favorecer a retomada da fauna que vive em floresta. Os projetos de restauração florestal são exigências ambientais que podem se beneficiar dos resultados deste estudo. Para isso, conforme os cientistas, é preciso considerar aspectos como a proporção entre espécies de árvores, os custos para instalar e organizar berçários de cultivo de mudas e plantá-las, o que demanda mais estudos para determinar espécies que tenham crescimento rápido, alta sobrevivência e menor custo de propagação.
O professor Daniel Piotto falou mais sobre a pesquisa em entrevista concedida à UFSB Ciência.
O resultado encontrado contrariou as hipóteses propostas, com as espécies não-pioneiras se desenvolvendo melhor e mais rápido quando a pleno sol e sem as pioneiras. E há indícios na literatura de que essa combinação pode ser positiva para as espécies não-pioneiras. O que pode explicar esse resultado?
Professor Daniel Piotto: Naturalmente, depois de um distúrbio na floresta, as pioneiras e as não-pioneiras crescem juntas. Com isso, algumas técnicas de restauração buscam copiar esse processo misturando pioneiras e não-pioneiras. Originalmente pensava-se que, apesar do desenvolvimento ser similar na sombra e no sol, a mortalidade seria mais alta no pleno sol. Porém, encontramos que a mortalidade é similar, mas o crescimento é significativamente superior a pleno sol. O motivo é a menor competição por luz e outros recursos que promovem o crescimento no tratamento a pleno sol.

(foto arquivo pessoal Daniel Piotto)
No artigo, em complemento aos resultados, os autores propõem uma mudança na proporção entre espécies pioneiras e não-pioneiras, quando se tratar de plantios mistos. Que fatores podem ajudar a estabelecer proporções adequadas para esse tipo de projeto de restauração florestal?
Professor Daniel Piotto: A proporção adequada vai depender do objetivo do projeto de restauração e das condições de degradação da área a ser restaurada. No caso da Reserva Ecológica Michelin, o objetivo é reestabelecer as populações de espécies arbóreas raras e ameaçadas que são utilizadas pela fauna silvestre e as áreas não estão muito degradadas. Logo, a prescrição é de 100% de espécies não-pioneiras. No caso de uma área bastante degradada já seria necessária a inclusão de uma proporção maior de pioneiras.
Quais os próximos aspectos que serão estudados em relação a esse experimento?
Professor Daniel Piotto: Além de continuar o monitoramento do crescimento e da mortalidade das árvores, estão previstos estudos sobre aspectos ecofisiológicos das espécies utilizadas e também estudos relacionados à atividade da fauna silvestre nas áreas experimentais.













