:: ‘491 anos’
Crônica de um Espírito ilheense (minha homenagem a Ilhéus)

Gerson Marques
Conhecedor das coisas do céu, peço sua permissão para contar uma história que me foi revelada por uma das mais altas autoridades celestiais, o anjo Grammatéas, responsável, por desígnio divino, pelos assuntos de encarnações e desencarnações das almas de Ilhéus, por todo o sempre.
O mar calmo daquele 20 de janeiro de 1536 permitiu uma navegação tranquila até o interior da charmosa enseada. O piloto fez a manobra certa, venceu as fortes ondas da arrebentação contornando o pernabuco a bombordo, e entrou com elegância numa encantadora enseada cercada de coqueiros e florestas. Uma a uma, as demais quatro caravelas da frota repetiram o movimento. A ancoragem serena marcou o fim de uma longa e perigosa travessia iniciada quatro meses antes em Portugal. Era verão nos Ilhéus já batizada de São Jorge, e ali aportavam as primeiras embarcações de colonos enviadas pelo donatário da Capitania, Jorge Figueiredo Correia.
A exuberante colina, coberta por uma densa floresta que dominava a entrada da baía, foi logo apontada como o ponto ideal para a construção das primeiras moradias e fortificações. A data deu nome ao local: Outeiro de São Sebastião.
Entre os tripulantes, destacava-se Manoel Antônio Gonzaga, natural de Vila Nova de Gaia, às margens do Douro, no Minho português, experiente nas navegações pelos Açores e pela costa africana. Coube-lhe a missão de derrubar as primeiras árvores, abrir uma clareira e iniciar a construção das habitações. No dia seguinte, acompanhado de três marujos, subiu com grande esforço o outeiro, enfrentando mato fechado, bichos e terreno íngreme, até encontrar um pequeno platô. De lá, deslumbraram-se com a paisagem: o Atlântico se descortinava em esplendor de um lado; do outro, a enseada interna, que vista dali ganhava os ares de uma pequena baía, onde a frota de cinco caravelas estava ancorada.
Quando se preparavam para descer, foram surpreendidos por uma cena insólita: uma família de macacos os observava do alto de uma árvore. Manoel, o único a portar uma velha besta carregada com pólvora e chumbo, não hesitou. Apontou-a para a fêmea que carregava um filhote, enquanto um macho robusto a vigiava de um galho mais alto. Com a mira feita, prestes a disparar, ouviu a macaca exclamar, em bom português e voz firme:
— Ô Inácio, segura aqui o Igácio que eu vou ver se esse português é macho!
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