Bate (ou apanha) coração

Como sempre acontece em Itabuna, as eleições para prefeito serão novamente um teste para cardíacos.
Os corações estarão a mil até o inicio da noite do próximo domingo, quando o povo dirá quem é o escolhido ou a escolhida para gerir os destinos da cidade prestes a se tornar centenária.
Os cardiologistas estão de plantão, com seus eletrocardiogramas a postos.
ET´s eleitorais
O Diário do Sul de hoje (17/09) traz uma reportagem sobre um suposto disco voador, visto por moradores da zona rural de Coaraci, cidadezinha da Região Cacaueira da Bahia.
Antes que ufólogos baixem na cidade, o mistério já foi esclarecido.
O fenômeno é muito comum na reta final das campanhas eleitorais.
Em Coaraci, como em outras cidades, a essa altura da campanha o que tem de candidaturas indo para o espaço…
HORÁRIO ELEITORAL GRATUITO



A caminhada de Jaques Wagner em Itabuna, que sacramentou o apoio a Juçara Feitosa, produziu imagens que falam menos de política e mais de uma coisa subjetiva chamada esperança.
No domingo ensolarado em Itabuna, a esperança ganhou tons vermelhos. Que é cor da paixão, igualmente subjetiva, mas que se torna objetiva nos gestos que ela proporciona.
As três fotos de Ed Ferreira, pela emoção que estampam e pelo simbolismo que embutem, falam mais do que milhões de palavras.
Onze contra dois
Rádio Difusora Oeste, Osasco (SP), 1985. Para quem trabalha em radio pequena, cobrir uma partida da Seleção Brasileira é a glória. Assim, até um jogo mulambento entre Brasil e Bolívia no Estádio do Morumbi, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 86, no México, ganhava ares de decisão.
O Brasil, dirigido pelo saudoso Telê Santana, já estava classificado e o time era recheado de jogadores do São Paulo, como Oscar, Silas, Careca, Muller, Sidney e um Falcão já em fase outonal. Enfim, a velha e boa média com a sempre exigente torcida paulista.
Para nós da aguerrida Difusora Oeste, era a chance rara de poder contar (como estou contando aqui) que cobrimos um jogo da Seleção Brasileira. Grande m…, dirão alguns, diante da maneira como o nosso time nacional foi banalizado e transformado em mercadoria para as nikes e cbfs da vida. Mas, naquele tempo a Seleção ainda era uma instuição quase sagrada.
A equipe da rádio para o jogo em questão tinha Alceu de Castro na narração, Carlos Roberto nos comentários e eu como repórter de pista. Os “famosos quem?”.
Alceu, como eu já contei neste blog, era um sujeito simplório, vindo do interior, que adorava imitar o Fiori Giglioti. Sem muito estudo, quando cismava com uma palavra bonita usava toda hora, mesmo que ela não fizesse o menor sentido na transmissão.
Ao receber a escalação da Bolívia, com aqueles nomes todos em espanhol, parecia que Alceu havia se deparado com a escalação de um time grego ou polonês, com seus nomes impronunciáveis.
Vendo a dificuldade do narrador, Carlos Roberto passou dica:
-Ô Alceu, pega uns cinco ou seis nomes mais fáceis e toca a transmissão numa boa.
Alceu acatou a sugestão, mas talvez empolgado por estar narrando um jogo da Seleção Brasileira, em vez de cinco ou seis, ele só guardou o nome de dois jogadores da Bolívia: Garcia e Vaca.
E era um tal de “Garcia toca para Vaca”, “Vaca lança para Garcia”, “Vaca faz falta feia em Careca”, recheados pelo “bola com o número 8”, “olha o número 5 avançando pela ponta”. E a gente sem querer ou poder “escalar” mais alguns jogadores da Bolívia, com medo de que Alceu chutasse o pau da bandeira e a transmissão desandasse de vez.
O fato é que, jogando “só” com Garcia e Vaca, a Bolívia encarou o Brasil de igual para igual e arrancou um heróico empate em 2×2. Naquele tempo, empatar com o Brasil merecia o apodo “heróico”. Hoje, até Venezuela ganha da gente sem que Hugo Chavez decrete feriado nacional.
Encerrada a transmissão, fomos todos tomar nosso fogo paulista (uma mistura de cachaça com groselha, verdadeira bomba, mas era o que o orçamento minguado permitia) em paz.
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Tempos de fogo paulista, pão com mortadela, calça velha azul e desbotada (porque só tinha uma). Não parecia, mas éramos felizes e só viríamos saber bem depois.
Waldomiro de Deus

DE ITAGIBÁ PARA O MUNDO
DO MUNDO PARA ITAGIBÁ
Há cerca de 50 anos, um menino saiu no interior do Nordeste, subiu num pau de arara com a família e foi buscar uma vida melhor em São Paulo. Passou fome e frio, lutou muito, venceu e hoje é conhecido mundialmente.
Apesar das incríveis semelhanças, não é quem o leitor certamente está pensando.
O menino em questão é Waldomiro de Deus, nascido em Itagibá, cidadezinha acolhedora encravada nas bordas da região cacaueira da Bahia, num tempo em que o cacau gerava riqueza, mas não a dividia, como acontece hoje e acontecerá para todo o sempre. Sua família perambulou por Ipiaú, Gandu e Prado, no sul-baiano, até decidir embarcar para São Paulo.
Considerado pela crítica um dos três maiores pintores primitivistas do Brasil ao lado de Djanira e José Antonio da Silva, ele acaba de fazer uma exposição com 54 obras no recém-inaugurado Museu Brasileiro de Escultura (Mube) em São Paulo. A exposição, calorosamente saudada pela crítica, comemora os 60 anos de vida e os 44 anos da arte de Waldomiro.
Uma arte descoberta de maneira quase inverossímel (tudo em Waldomiro parece inverossímel, a começar pela sua autêntica ingenuidade). Trabalhando como jardineiro, aproveitava as frias noites paulistanas para pintar em pedaços de papel. Como pintava na hora em que deveria estar dormindo e dormia na hora em que deveria estar trabalhando, foi mandado embora.
Sem alternativa, resolveu expor seus trabalhos no Viaduto do Chá, um dos símbolos da Capital Paulista, já naquela época o Eldorado de milhões de nordestinos. A mão do destino pintou a tela de sua vida.
O marquês italiano Terry Della Stuffa passou pelo local, se apaixonou por aquela pintura ingênua e adotou Waldomiro, que ganhou casa, comida e, melhor, tempo de sobra e material a vontade para exercer sua arte.
A partir daí, as mãos de Deus, o pintor, ganharam o mundo. Suas obras estão expostas em museus e galerias de arte e foram adquiridas por colecionadores da Europa, Estados Unidos, Japão, Oriente Médio. Os franceses, principalmente, se encantaram com o estilo que denominaram “naif” (ingênuo).
Um ingênuo, que ao participar do movimento tropicalista ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa e Cia., escandalizou o Brasil conservador do final dos turbulentos anos 60 ao pintar Nossa Senhora Aparecida de minissaia, numa série de quadros que hoje se tornaram relíquias.
Um exílio artístico fez de Waldomiro cidadão do mundo. Morou na França, Itália, Alemanha e Israel, onde espalhou seus quadros e cravou seu nome como um dos grandes artistas brasileiros, adorado pelos críticos e pela nobreza européia.
De volta ao Brasil, fixou residência em Osasco, cidade industrial da Grande São Paulo. Sua casa, repleta de quadros e esculturas e com um quarto cheio de bonecas e com um caixão de defunto no lugar da cama, tornou-se ponto de referência para artistas, colecionadores, empresários, jornalistas, socialites e afins.
Naquela época, apesar de algumas obras contestadoras, Waldomiro ainda fazia o estilo lírico, mostrando o cotidiano das cidades e do meio rural. De uns dez anos para cá, já dividindo sua residência entre Osasco e Goiânia, passou para aquilo que pode ser definido como primitivismo temático. Os sem-terra, o desemprego, o atentado de 11 de setembro nos EUA, a guerra do Iraque são retratados em cores fortes, traços definidos.
Pinturas que falam. “Waldomiro tem uma sensibilidade muito grande, vê o mundo com alma de menino e sua obra é sempre atual. Ele está cada vez melhor”, diz a marchand carioca Ruth Almeida Prado, uma de suas maiores admiradoras. “É um artista em vários, um camaleão, que está sempre mudando, sem perder a essência primitivista”, completa o crítico Oscar D´Ambrósio, autor do livro “Os pincéis de Deus- Vida e obra do pintor naif Waldomiro de Deus”.
E é esse respeitável senhor com alma de menino que reencontramos durante as festas de São João em 2004, na Itagibá de uma infância que ele parece nunca ter perdido. Convidado pelo então prefeito Léo Quadros, passou cinco dias na cidade, acompanhado das esposa Lourdes de Deus (também pintora primitivista), mãe de seus seis filhos, que levam nomes exóticos com Amon Hebron, Edon Hesrom, Esdras Shalon, Rebeca…
Décadas depois de ter partido num pau de arara, voltou como uma espécie de “celebridade anônima”. Os moradores sabiam que aquele sujeito simpático, conversador, que saia distribuindo cartões para compradores absolutamente improváveis (suas obras variam entre R$ 6 mil e R$ 50 mil) ´era alguém`. Mas não sabiam exatamente quem. No Brasil onde santo de casa não faz milagres, a Bahia é o lugar onde nem Deus de casa faz. Apesar da fama internacional, o pintor simplesmente é ignorado pelos museus e galerias do Estado.
Visitou a casa onde nasceu, compareceu todas as noites à Praça do Forró (Itagibá é famosa pelo São João que promove), dançou meio sem jeito com Lourdes, se empanturrou com pamonha, canjica, bolo de tapioca, vatapá e sarapatel e, evangélico, passou longe dos licores de genipapo, jabuticaba, abacaxi, cacau e laranja, uma tentação maior do que a outra.
“Foi um mergulho na minha infância, nas minhas raízes. Minha obra é fruto das coisas simples que eu vi aqui, dessa gente que apesar da vida difícil está sempre com um sorriso aberto”. E dá-lhe distribuição de cartões, aperto de mão (era sempre Waldomiro quem tomava a iniciativa e não o contrário, tudo nele parece ilógico), fotografias…
Numa visita à zona rural, vira-se para Léo Quadros, cuja admiração pelo pintor só é inferior a seu sincero fervor evangélico, e pergunta:
-Seu minino, quanto é que a gente gasta pra comprar umas terrinhas aqui?
Lourdes apenas balbucia “Waldomiro, não vá me dizer que…”
O que espanta não é terminar essa história acalentando a possibilidade de que o menino retirante das terras do cacau se transforme no sessentão fazendeiro, uma saga que nem o grande Jorge Amado (fã de Waldomiro de Deus, registre-se) ousaria escrever, cravando uma tela surrealista no mais ingênuo dos nossos primitivistas.
O que espanta é que na vida e na obra de Waldomiro nada espanta.
O menino Waldomiro perambulando pelas ruas tranqüilas de Itagibá depois de escrever sua história com as mãos do destino, as mãos de Deus e as próprias mãos, é uma belíssima obra de arte.
Espantosamente ingênua, espantosamente genial.
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Texto publicado em junho de 2004 nos jornais Agora (BA) e Diário de Osasco (SP)
O crack do Pontalzinho
Mario era um craque. Não um craque de futebol, mesmo os fabricados, desses que logo no início da carreira migram para a Europa em busca de fama e fortuna.
Mais modesto, sem chances de um emprego formal, fazia bicos como lavador de carros no bairro Pontalzinho, em Itabuna. Tinha, pelo menos, dinheiro para ir tocando a vida.
Mario era querido e respeitado pelos moradores de um bairro que acompanhou o progresso da cidade, as transformações do mundo, passou a conviver com o medo da violência, mas ainda conserva um pouco daquele jeito interiorano.
Enfim, era um desses personagens que fazem a vida de um bairro, de uma cidade. Um sujeito simplório que todos conheciam e gostavam.
Eis que, no meio do caminho de Mario apareceu uma pedra.
Não a pedra do poema de Carlos Drummond de Andrade, mas a pedra de uma droga que vem devastando a vida de milhares de adolescentes e jovens.
A pedra de crack!
Um subproduto da cocaína, mais barato e mais devastador, o crack rasgou as fronteiras dos guetos de São Paulo e espalhou-se pelo Brasil, está presente em todas as cidades. As grandes, as médias, as pequenas.
Fácil de comprar, o crack produz dependência extrema, obrigando o usuário a permanecer drogado o tempo todo, enquanto corrói o sistema nervoso e produz mortos-vivos.
A princípio, Mario mudou o comportamento. Já não trabalhava com tanta freqüência, nem era tão solicito. O bom humor deu lugar a uma excitação que logo se transformou na mais absoluta indiferença.
Aos poucos, todas as coisas foram perdendo sentido e a vida de Mario só encontrava sentido no crack. O que ganhava lavando carros ia para a compra de droga.
Há algum tempo, moradores do Pontalzinho começaram a conviver com um sujeito maltrapilho, perambulando pelas ruas e falando coisas desconexas. Ora é um político poderoso, ora é um fazendeiro, ora um valentão destemido, ora não é nem ele mesmo.
O certo é que, embora ainda tenha alguns lampejos de nitidez, não é mais o Mario.
O craque dos carros lavados com esmero, melhor do que nos lava-jatos, foi derrotado pela pedra do crack.
Errou de direção e mergulhou num caminho que dificilmente tem volta.
Tomou um drible (ou seria um pontapé?) do destino.
Supremo azar dos Marios indefesos, expostos às pedras no meio do
caminho: para os traficantes, que continuam agindo livremente, no meio
do caminho não existem pedras.
E, pior, na maioria dos casos não existem nem policiais para combatê-los!
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Mario é nome fictício, para preservar alguém para quem esse texto e quase tudo na vida é apenas fumaça.
Mas, sua história é real, como a de tantas outras vítimas de algo que o nome dispensa adjetivos: droga.
Pra não dizer que não falei das flores
A menina que ilustra a foto que abre esse texto mora num bairro que homenageia um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e onde as ruas ostentam nomes como Orquídea, Violeta, Angélica. Bromélia, Roseira, Margarida e Lírio, além da inevitável Rua Gabriela.
Mas, se mora num bairro que nos remete a um local bucólico, o que a menina faz numa porta protegida por grades, como se estivesse numa prisão?
A resposta é simples: o encantamento não vai além da homenagem ao escritor e aos nomes das ruas.
O bairro Jorge Amado, localizado na periferia de Itabuna, é um exemplo típico de como o poder público é incapaz, por uma série de fatores que vão do descaso, falta de recursos a inversão de prioridades; de atender demandas por serviços básicos.
No bairro, onde vivem cerca de cinco mil pessoas, não existe saneamento básico nem pavimentação. Os esgotos correm a céu aberto e nos dias de chuva se misturam à lama que toma conta das ruas esburacadas. Quando faz sol, o mau cheiro torna-se insuportável.
O posto de saúde, uma construção imponente para os padrões do local, funciona precariamente e a escola mais próxima fica na Urbis IV. À noite, os moradores ficam expostos à violência e poucos se arriscam a deixar suas casas, construções de alvenaria feitas à custa de muitos sacrifícios, ou barracos de madeira.
Com um comércio rudimentar, composto de pequenos bares e mercearias, o bairro Jorge Amado reflete outro drama: o desemprego. Jovens e adultos que poderiam estar produzindo e ganhando salários para sustentar a família, simplesmente não tem acesso ao mercado de trabalho, num circulo vicioso em que crianças, pela absoluta falta de oportunidades, seguem pelo mesmo caminho.
O transporte coletivo demora uma eternidade e a coleta de lixo tem que ser feita com carroças em ruas que mais parecem crateras. Aquela que seria a única praça do bairro não passou do projeto. Existe, mas só no papel, como tantas e tantas propostas que nunca deixam a categoria da boa intenção. Quando não é a da enganação mesmo.
Para a maioria das pessoas do bairro, a ´tábua de salvação´ atende pelo nome de Bolsa Família, o programa de transferência de renda do Governo Federal, que apesar do viés assistencialista tem o mérito de tirar milhões de brasileiros da pobreza. Não é raro encontrar fotos de Lula nas paredes das casas, numa admiração que é quase uma reverência.
O bairro Jorge Amado, é bom que se diga, está longe de ser uma exceção. Ao contrário, é regra. Apenas para ficarmos em Itabuna, essa mesma realidade pode ser encontrada no Novo Fonseca, no Nova Califórnia, no Gogó da Ema, no São Lourenço, na Bananeira, no Maria Pinheiro, em tantos outros bairros da abandonada periferia da cidade.
A diferença é que os moradores do Jorge Amado sofrem essas agruras em meio a ruas de nomes floridos.
Eles, incluindo a menina da porta que mais parece uma grade, trocariam de bom grado a sonoridade e beleza dos nomes de suas vias públicas por coisas mais concretas como esgotamento sanitário, asfalto, educação de qualidade, acesso ao mercado de trabalho, etc.
Por enquanto, a exemplo da literatura do escritor que dá nome ao bairro, tudo isso não passa de obra de ficção.
Que um dia deixe de ser, para se tornar realidade.














