Guerreiros e guerras

Houve um tempo em que nos estádios de futebol as torcidas vestiam a camisa do time do coração e faziam tremular as bandeiras, entoando hinos de apoio ao clube e a seus ídolos. Um tempo em que ir ao estádio era um programa tipicamente familiar.
Era um tempo, também, em que se praticava o futebol-arte, de toques, dribles, lançamentos precisos e gols que, de tão bonitos, mereciam placas.
Vão longe esses tempos quase poéticos, em que Pelé, Garrincha, Didi, Rivelino, Falcão e Zico, só para citar os craques nacionais, desfilavam talento pelos gramados.
Da arte, sobraram lampejos perpetrados vez ou outra por um jogador extraclasse, cada vez mais raro, que insiste em romper as amarras de esquemas táticos que priorizam a força bruta.
E, por força de um espírito competitivo em que se joga para vencer ou vencer, a arte deu lugar à correria, à preparação física que transforma meninos talentosos em atletas-robôs.
Saiu a inspiração, entrou a transpiração.
Saíram os craques, entraram os guerreiros.
Sim, os guerreiros, que motivam até propaganda de cerveja e que transmutam, sem a menor sutileza, campos de futebol em campos de batalha.
Se o que temos é batalha campal, guerra pelo resultado positivo, nada mais natural que esse espírito guerreiro se espalhasse para as arquibancadas.
E se espalhou mesmo.
O torcedor espontâneo, apaixonado pelo time, deu lugar às chamadas torcidas organizadas, verdadeiras facções que se dirigem aos estádios como quem se dirige a uma guerra, onde é preciso abater o inimigo a qualquer preço.
Nada de apitos, buzinas, fogos de artifício.
Pedaços de pau, barras de ferro, bombas de fabricação caseira e revólveres compõem o kit-guerreiro. Um verdadeiro arsenal, para ferir e se for o caso matar o inimigo.
No futebol guerreiro, a guerra se dá em todas as frentes.
Alex Furlan de Santana, 26 anos, é a mais recente vítima dessa guerra. Ele foi baleado na cabeça durante um confronto entre torcedores do São Paulo e do Palmeiras. Outras 12 pessoas saíram feridas.
Em tempo: em campo, os guerreiros do Palmeiras venceram os guerreiros do São Paulo por 2×0.
Mas, quem se importa com isso?
Balança mas não cai?

Itabuna e Colo Colo começaram o Campeonato Baiano com ganas de brigar pelo título e trazer a taça para o Sul da Bahia, o time itabunense pela primeira vez e o ilheense repetindo o feito de 2005.
Fizeram uma boa pré-temporada, contrataram jogadores experientes, técnicos tarimbados e conseguiram até patrocinadores de peso, que não tiveram receio em espalhar seu apoio em out-doors e outras peças publicitárias.
Em Itabuna e Ilhéus, otimismo dos torcedores.
Parecia que o Dragão e o Tigre iriam engolir os adversários e fazer tremer o Bahia e o Vitória, os gigantes de Salvador e candidatos naturais ao título.
Pouco mais de um mês depois do início do Baianão e rompida a primeira fase, o que era sonho virou pesadelo para os dois times.
O Itabuna chegou a iludir o torcedor, com dois triunfos logo de cara, contra o Atlético de Alagoinhas e o poderoso Vitória. Depois, empacou.
Em nove jogos, ganhou dois, empatou um e perdeu seis. Marcou seis gols e levou treze. Trocou de treinador, mandou jogadores embora, trouxe reforços, mas parou nos sete pontos, namorando a perigosa zona do rebaixamento para a Segunda Divisão.
A classificação para as finais tornou-se um delírio de ultra-fanático e a conquista do título uma miragem.
A realidade é brigar para não cair.
Já o Colo Colo disse a que não veio desde o início: tomou de 5×0 do Bahia logo na estréia. Depois, ganhou apenas um mísero joguinho e ainda assim a duras penas.
No mais, foram sete derrotas, algumas delas por goleada. Marcou onze gols e tomou vinte e três. Trocou meio time, técnicos entram e saem e o time continua na pasmaceira.
Classificação? Título? Nem na ficção “jorgeamadiana”!
O torcedor ora e implora para que o time não caia para a Segunda Divisão, juntando suas preces aos itabunenses.
Para o Itabuna e o Colo Colo e seus desafortunados torcedores, o Baianão de 2010 só não acabou porque, triste ironia, ambos estão irmanados no mesmo propósito: não cair.
Mas, que eles estão balançando, não há como negar.
O Tigre e o Dragão que se aquietem, porque o momento está para São Jorge e São José, respectivamente padroeiros de Ilhéus e Itabuna.
Santos padroeiros, como se depreende, são mais apropriados do que animais, quando se entra no quesito milagre.
Deus perdoa. O tráfico não!

Danilo Mota Silva, morador do bairro Jardim Primavera, na periferia de Itabuna, imaginou ter encontrado na religião o caminho de volta que muitos tentam e não conseguem encontrar.
Aos 19 anos, colocara um ponto final numa adolescência marcada pelo consumo de drogas, essa praga de dimensões bíblicas que mergulha tantas e tantas pessoas, a maioria jovens, num abismo profundo.
Danilo estava freqüentando uma igreja evangélica e recompondo o círculo de amizades. Seus planos incluíam um curso superior e um trabalho decente, além de constituir família.
As drogas eram parte de um passado que ele fazia questão de esquecer, os olhos voltados para o futuro, a vida nova lastreada numa fé em Deus que costuma operar, se não milagres, verdadeiras transformações.
Um exemplo de superação a ser destacado nos cultos que ele passou a freqüentar com regularidade.
A nova vida de Danilo foi interrompida por três tiros numa noite de domingo de carnaval, bem longe do som dos trios elétricos e das multidões ensandecidas que sugam a festa até a ultima gota, o último acorde.
O caminho de Danilo cruzou com o de seus algozes e ele, pressentindo o perigo, ainda tentou fugir.
Foi perseguido e executado friamente nos fundos de uma casa modesta, cujo dono, como é de praxe quando a segurança inexiste, ouviu apenas os disparos, mas não viu quem disparou.
E, ainda que tivesse visto, diria que não viu, diante da lei do silêncio e da cegueira imposta pela bandidagem.
A polícia tem fortes indícios de que Danilo foi assassinado porque tinha contas para acertar com os traficantes.
No “Código de Ética” do tráfico, dividas com drogas não quitadas, sejam elas de 10, de 100 ou de 1000 reais são pagas com a vida, uma espécie de alerta macabro contra tentativas de calote.
Fim de linha para Danilo Mota Silva, que três tiros fizeram com que deixasse de ser exemplo de superação e voltasse a ser exemplo de que a droga é um caminho perigoso e muitas vezes sem volta.
Na correria apavorante daqueles que foram seus últimos minutos de vida, Danilo deve ter percebido que se Deus perdoa, como certamente o havia perdoado, o tráfico não, como bem demonstraram os três tiros que o tiraram do caminho do bem e o jogaram na vala comum das vítimas de uma guerra sangrenta e cotidiana que parece não ter fim.
PADRE PÓ

Nos Estados Unidos, o padre James B. Shimsky, de 50 anos, foi detido pela polícia durante uma blitz. Quando viu os policiais, o padre pegou um terço e começou a rezar, mas bastou uma revista no carro do religioso para que fosse encontrada uma pequena quantidade de cocaína.
Em vez orar na Igreja, o padre foi chorar na cadeia.
Moral da noticia: isso é que é levar exageradamente ao pé de letra o texto bíblico que diz “tu és pó e ao pó voltarás.”
O cacau foi show. É daí?

O cacau deu sorte para a escola de samba Rosas de Ouro, que foi campeã do Carnaval de São Paulo.
O samba “O cacau é show”, que de propaganda tão explicita de uma empresa de chocolates teve que ser adaptado para um esdrúxulo
“O cacau chegou”, por exigência da Rede Globo, é um passeio pela história do fruto que transformado em chocolate faz as delícias de gente do mundo inteiro.
O que poderia ser uma notícia auspiciosa para o Sul da Bahia, principal produtor de cacau do Brasil, não mereceu qualquer tipo de comemoração por estas plagas. Até porque, isso não faria o menor sentido.
O enredo da Rosas de Ouro e os carros alegóricos que encantaram e agitaram o Sambódromo do Anhembi (ao contrário do que provocou o imortal Vinicius de Moraes, São Paulo pode não ter a tradição e a qualidade musical do Rio de Janeiro, mas está longe ser o túmulo do samba), não fazem a mais remota menção à Região Cacaueira.
Nada de Ilhéus, de Jorge Amado, das fazendas de cacau, dos coronéis e das gabrielas, mistura de realidade, ficção e estereótipos que fizeram a fama da região.
Apenas merchandising mal disfarçado de uma empresa que produz chocolate e que bancou a Rosas de Ouro.
Fossem outros os tempos, com a Ceplac de orçamento gordo e generoso e poderia ter pingado ouro nas rosas para a inclusão do Sul da Bahia no samba enredo e nas alegorias.
Como os tempos são outros, sem aporte de capital no cofrinho da escola, não ganhamos nem uma mísera estrofe no samba enredo e nem um fusquinha alegórico para nos inflar o ego.
O show foi deles, a festa foi deles e ficamos aqui a choramingar o chocolate derramado.
Chorar?
Não seria o caso de fazer com que o cacau, ou melhor, o chocolate, se transforme num show aqui mesmo no Sul da Bahia, através de uma política efetiva de industrialização que faça a matéria prima valer ouro?
Sair da produção quase artesanal para uma produção em alta escala, explorando o consumo das pessoas que estão ascendendo à classe média e também nichos de mercado em que o preço do chocolate bate na estratosfera.
O que não dá mais é para, feito uma Carolina de Chico Buarque, ficar vendo o tempo e as oportunidades passarem na janela, contentando-se com as migalhas do suculento e lucrativo bolo de chocolate, enquanto outros se empanturram e se divertem no ritmo do show do cacau.
O “DESCOBRIMENTO” DE CANAVIEIRAS

Canavieiras, com seus múltiplos encantos, parece que finalmente foi “descoberta” pelos turistas.
No carnaval que ora se encerra, hotéis, pousadas, barracas de praia, bares e restaurantes ficaram lotados de turistas de várias partes do Brasil e do Exterior.
A cidade, onde o tempo parece caminhar num ritmo mais lento, conserva uma arquitetura do início do século XX, fruto dos tempos áureos do cacau; e praias, rios, manguezais e uma natureza exuberante.

No quesito carnaval propriamente dito, duas opções: na avenida, os trios elétricos e suas bandas que tocam a mesma coisa, mas a moçada adora; no centro histórico, o carnaval cultural, que reúne pessoas de todas as idades e que em 2010 teve como atração a excelente banda Cartão Postal, com as marchinhas inesquecíveis dos carnavais de antanho, além de blocos como As Pastorinhas e as Ciganas, formados por jovens senhoras esbanjando a alegria da melhor idade.
A se lamentar que alguns restaurantes do centro histórico parecem acometidos de uma espécie de ´síndrome de Cinderela´. Quando bate meia-noite, os garçons praticamente expulsam os presentes, cometendo a indelicadeza de empilhar mesas e cadeiras enquanto as pessoas ainda comem e bebem.
Quem é do ramo, tem que rever conceitos e tratar bem os turistas. Ou mudar de ramo, ora pois pois…
TIO DANI RECOMENDA

Em Canavieiras, uma ótima opção de hospedagem é o Bahiadomizil Bangalôs, localizado na Praia da Costa, com uma linda vista para o mar. São apenas cinco chalés, confortáveis e funcionais, num espaço com muito verde e respeito ao meio ambiente, incluindo o uso de energia solar.
O empreendimento é tocado pela alemã Andrea Feldner e as reservas podem ser feitas pelo fone (73) 3284 2902.
O preço está mais para os padrões brasileiros do que europeus. E, fora da alta estação e dos feriados prolongados dá pra dar uma choradinha.
E nem precisa ser em alemão, que frau Andrea arranha bem o português.














