Agenor Gasparetto: um gaúcho que escolheu o Sul da Bahia para eternizar histórias

Cléber Isaac Filho
“A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul”
A frase frequentemente associada ao universo tropicalista de Caetano Veloso talvez nunca tenha feito tanto sentido quanto quando pensamos na trajetória de Agenor Gasparetto.
Gaúcho de origem, mas profundamente ligado à identidade cultural baiana, Agenor construiu no Sul da Bahia uma história marcada pela literatura, pela memória regional e pela valorização da cultura do interior.
Em tempos em que grande parte da produção cultural brasileira gira em torno do eixo Rio–São Paulo, Gasparetto escolheu outro caminho: ajudar a construir uma literatura enraizada na vida real das pessoas, das cidades do interior, da cultura do cacau e das histórias humanas da região grapiúna.
Mais do que escritor, tornou-se um articulador cultural.

Professor universitário, sociólogo, cronista e editor, Agenor encontrou no Sul da Bahia não apenas um lugar para viver, mas um território afetivo e intelectual. Com sensibilidade rara, compreendeu rapidamente que a região não produzia apenas riqueza agrícola através do cacau — produzia também identidade, linguagem, personagens, memória e narrativas profundamente brasileiras.
E talvez justamente por enxergar isso com o olhar de quem veio de fora, conseguiu valorizar aspectos que muitas vezes os próprios baianos deixam passar despercebidos.
À frente da Via Litterarum Editora??, Gasparetto ajudou a abrir espaço para dezenas de escritores independentes do Sul da Bahia. Em um país onde publicar livros fora dos grandes centros editoriais ainda é um enorme desafio, sua atuação se tornou quase uma missão cultural.
A Via Litterarum virou mais do que uma editora.
Virou ponto de resistência intelectual.

Ali passaram cronistas, pesquisadores, poetas, memorialistas, professores e escritores regionais que talvez jamais tivessem oportunidade de transformar seus textos em livros sem esse incentivo. Enquanto muitos mercados editoriais buscam apenas escala comercial, Agenor manteve o foco na preservação da memória cultural regional.
Seu trabalho tem algo muito ligado à própria essência do cacau.
Assim como o sistema cabruca preserva árvores centenárias dentro da Mata Atlântica, Gasparetto ajudou a preservar histórias humanas dentro da paisagem cultural do Sul da Bahia.
Existe algo profundamente grapiúna em sua trajetória.

Suas obras misturam observação social, memória afetiva, humor, crítica e regionalismo sem caricatura. Livros como Êxtase, de birra com Jorge Amado e outras crônicas grapiúnas demonstram exatamente isso: uma relação madura e afetiva com a cultura local, sem a necessidade de copiar modelos prontos.
Ao longo das décadas, o Sul da Bahia se tornou conhecido nacionalmente pela força da literatura ligada ao cacau, especialmente através de Jorge Amado. Mas existe uma nova geração de autores, cronistas e editores que continua mantendo viva essa tradição literária regional — e Agenor Gasparetto é um dos principais responsáveis por essa continuidade.
Seu trabalho também ajuda a quebrar uma visão limitada sobre o interior da Bahia.
Muitas vezes, a cultura produzida fora das capitais é tratada apenas como folclore ou curiosidade regional. Mas o Sul da Bahia desenvolveu ao longo do tempo uma identidade cultural sofisticada, marcada pela mistura entre cacau, Mata Atlântica, migrações, política, conflitos agrários, praia, religiosidade, boemia e transformação social.
Poucas regiões brasileiras produziram um imaginário tão forte.

E poucas tiveram tantos personagens humanos interessantes circulando entre fazendas, portos, bares, praias e universidades.
Gasparetto entendeu isso.
E ajudou a registrar isso em livros, encontros literários, lançamentos, projetos editoriais e incentivo constante à produção cultural regional.
Em um momento em que a inteligência artificial, os vídeos rápidos e os algoritmos aceleram tudo, o trabalho de Agenor parece seguir na direção oposta: permanência.
Permanência da memória.
Permanência da palavra.
Permanência da identidade cultural do Sul da Bahia.
Talvez seja justamente por isso que sua trajetória mereça ser reconhecida não apenas no meio literário, mas como parte importante da própria história cultural da região cacaueira brasileira.











