Crônica de domingo, 8 de março de 2026: Palpites de dona Zélia
Paloma Amado
Dona Zélia Gattai Amado foi uma mulher retada! Fez tudo o que quis nesta vida, menos criar seu primogênito, mas isto não dependeu dela e sim de um ex-marido violento e de uma Justiça machista dos anos 40, que lhe tirou a guarda do filho por ela ser uma desquitada vivendo com um comunista. O pai do menino aproveitou dos longos anos que ela teve de viver no exílio para criar uma história horrorosa e colocar o filho contra a mãe. A isso se chama Alienação Parental, coisa odiosa e imerecida, que transformou meu irmão e sua família. Neste Dia da Mulher de 2026, em nome de minha mãe, venho soltar mais uma vez um grito contra a Alienação Parental e a injustiça de separar uma mãe ou um pai de seu filho.
Quero contar a história da primeira vez que mamãe passou a limpo os originais do papai. Já vivendo juntos, ele eleito Deputado Federal Constituinte, foram morar no Rio de Janeiro, então Capital Federal, onde estava o Congresso Nacional. Em um sítio em São João do Meriti, que recebeu o nome de Peji de Oxóssi, criavam galinhas, patos, gansos e até uma seriema. Jorge ia de manhã e voltava à tarde, cumpria seu mandato e ao mesmo tempo escrevia o livro Seara Vermelha.
Este foi o primeiro a escrever na companhia de Zélia, que recebeu a tarefa de passar a limpo os originais — quando estava quase ilegível, ele passava para mim…, ela dizia – coisa que a tornava a primeira leitora do novo livro.
Imagine o que é ler um livro em primeira-mão, sem poder olhar adiante para ler o que vai acontecer, já que o adiante ainda não foi escrito, não existe. Era emoção sobre emoção, perguntava o que ia acontecer e ele respondia ainda não saber.
O livro trata de uma família que foge da seca e atravessa o sertão a pé para tomar o navio para São Paulo. Pai, mãe, filha e filho bebê ainda mamando. A menina, Noca, tem um gato, que ela leva ao colo. A fome é grande, a sede maior ainda. Em determinado momento Zélia lê, enquanto passa a limpo, que Noca tropeçou numa pedra e machucou o pé. A ferida feia começa a infeccionar, a menina tem muita febre. Zélia, de repente, parou de escrever, olhou para Jorge, em sua frente, e perguntou:
— Jó, Noca está mal. Ela vai morrer?
— Vai, meu bem…
— Não faça isso! Ela é tão querida, estou apaixonada por essa menina. Ela não pode morrer.
— Ela tem de morrer, Zezinho. Veja que ela se machucou feio, a ferida está purgando, não tem nem água para beber, que dirá para lavar, limpar o ferimento.
— Mas, Jorge, só depende de você…
— Engano seu, meu bem. Se eu interferir, deixa de ser um personagem com carne e sangue, passa a ser uma marionete. Como você acha que eu vou inventar um antibiótico no meio do nada para acabar com a infecção dela e fazê-la sobreviver?
— Era só você querer…
E a conversa encerrou aí, mamãe tristíssima, como quem vai perder alguém muito caro ao seu coração. E ía…
No dia seguinte, nas novas folhas do livro, Noca estava muito pior. Mamãe tinha dado tratos à bola e vinha com uma solução, ao ver dela, irrecusável:
— Jó, pensei muito ontem à noite e tenho uma proposta a fazer. Porque ao invés de matar Noca, você não mata o bebê. Ele é tão pequeno, ninguém se afeiçoou a ele, não fará nenhuma falta…
— A vez dele está para chegar, meu bem.
Mamãe calou-se, ficou numa tristeza exagerada, uma espécie de chantagem. Papai também ficou triste, mas não cedeu. No capítulo seguinte, Noca morreu. Mais adiante no livro, ao chegarem à Juazeiro para tomar o navio, a alimentação muda, a comida é farta e gordurosa e o menininho, que morria de fome, morre de indigestão. Zélia entendeu, ia aprendendo que o autor não pode fugir à verdade de sua história e sair inventando disparates.
Nem por isso mamãe parou de pedir mudanças, a cada livro que papai escrevia e ela passava a limpo. Quando ele ouvia um Ai, meu Deus, já sabia que vinham pedidos de alterações. Não cedia. Cedeu uma única vez, em Tereza Batista, e passou o resto da vida se lamentando por ter atendido a um pedido de dona Zélia. Mas isto é uma outra história.
Bom domingo a todos, dando Viva às Mulheres e lutando contra aqueles e aquelas que colocam seus filhos contra suas mães e pais. Punição severa à Alienação Parental. E Viva dona Zélia!












