Por Ernesto Marques*

 

Ernesto Marques

Ernesto Marques

Verdadeiro como uma nota de dezessete reais, Bolsonaro rezou o Pai Nosso mais mal rezado da história cristã para abortar uma entrevista. Antes, reclamou do jornalista que lhe perguntou se estava arrependido do ataque mentiroso ao presidente do TSE. “Depois falam que eu sou grosso!” Disse o Mitômano, como se as agressões diárias contra jornalistas fossem culpa dos próprios jornalistas.

Da grosseria ao ato grotesco. Como mandar repórteres calarem a boca durante uma coletiva, ou dizer que sua vontade era encher a boca de um jornalista com uma porrada, ou chamar uma repórter de idiota.

Conseguiu ser grosso e grotesco e, ao mesmo tempo, tentou inibir questionamentos sobre seus deveres com mais um arroto autoritário. Desta vez com requintes de crime e pecado.

Rezou o Pai Nosso com a mesma fé com que o comandante da Aeronáutica disse que homem armado não ameaça. Duas expressões de fé. Fé nas armas.

Antes de mais nada, o presidente cometeu uma espécie de blasfêmia. Usou a Oração que Ele nos ensinou, para  tentar calar quem o entrevistava para, assim, não dar as satisfações devidas ao distinto público que o elegeu, votando nele ou não. As pessoas que, com fé no voto, legitimaram o mesmo processo eleitoral que ele desqualifica com acusações de fraudes sem provas porque mentirosas.

O mais fétido arroto autoritário de Jair Bolsonaro, destemperado com os perdigotos de sempre, não pode ir para a bacia de escarros antidemocráticos cotidianos, já suficientemente afrontosos. Bacia que transborda há tempo, diante de olhares tão complacentes, que bem se pode dizer até prevaricadores, de tão privilegiados tanto pelo ponto de vista, quanto pelo tal lugar de fala.

Usar o Pai Nosso para não ser questionado sobre os crimes cometidos contra a honra de um ministro do STF e atual presidente da Justiça Eleitoral, (artigos 139 e 149 do Código Penal Brasileiro) não passa, em verdade, de uma canhestra tentativa de censura. E mais uma manobra diversionista.

Mas sejamos minimamente generosos na análise deste último arroto de um político purulento por natureza, no exercício indecoroso do cargo de onde mais se espera decoro. Em 12 de julho de 2021 Bolsonaro está com os indicadores de aprovação, popularidade e intenção de voto em queda livre.

A tentativa de autocontenção pode até ser percebida como um avanço mínimo. Um esforço brutal para mudar pelo menos na ostentação da grosseria e do grotesco.

Um esforço descomunal de sua excelência para não falar… merda. Quatro dias depois de anunciar solenemente numa de suas lives de quinta (categoria) “caguei” para a CPI – e para o Congresso Nacional, em última análise. Dois dias depois de mentir para atingir Barroso.

E tudo isso porque a pergunta falava em arrependimento: “o que está feito, está feito. Para de falar em arrependimento”. Um cristão mais verdadeiro do que uma nota de dezessete reais deve considerar sempre a hipótese do arrependimento com caminho para o perdão. Ele, não.

Ele, um presidente que mente. Diariamente. Mente terrivelmente para um evangélico…

Demente. Moral, política e intelectualmente demente, o mitômano afirma, convicto, que prevaricar pode ser crime para um servidor. Mas não para ele, Presidente da República. Para Bolsonaro, sendo ele o presidente e chefe supremo de servidores civis e militares, prevaricar é uma prerrogativa dele, no cargo!

Os jornalistas, especialmente os com razões para arrependimentos pelo que fizeram em verões e eleições passadas, são o próprio testemunho do risco de passar o pano sobre a aberração, como se ela fosse tolerável. Não é. Passar o pano e suavizar o que se está a acontecer, é jornalismo prevaricador ou prevaricação jornalística. Dá na mesma tragédia.

Ainda mais às vésperas de o presidente ungir, com a indicação para 30 anos de judicatura na Corte Suprema, um advogado-geral da União que exumou a Lei de Segurança Nacional para calar vozes críticas ao presidente – inclusive jornalistas. Alguém com dito notório saber jurídico e defensor de teses como o julgamento de civis em tribunais militares.

Jornalistas não precisam carregar nas tintas como prosélitos opositores. Mas fazer jornalismo impõe, por dever de ofício, botar os pingos nos is. O que está a acontecer às vistas de todos e todas, não pode ser banalizado.

 

*Ernesto Marques é jornalista e radialista, presidente da ABI (Bahiana)