:: 20/jan/2010 . 14:55
VERSÕES DIFERENTES PARA UMA MESMA HISTÓRIA

A gente recebe (e envia) muita besteira por email.
Mas esse texto é interessante, no melhor estilo “entre o fato e a versão, vale a versão”.
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Se a história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdade, como ela seria contada
na imprensa no Brasil? Veja as diferentes maneiras de contar a mesma história.
Jornal Nacional
(William Bonner):
“Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem…” (Fátima Bernardes): “…mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia.”
Programa da Hebe
“…que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi
retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?”
Cidade Alerta
(Datena): “…onde é que a gente vai parar,
cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra
casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte
público! E foi devorada viva…
… um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!”
Superpop
(Luciana Gimenez): “Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do
lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos
há mais de um ano. Abafa o caso”
Globo Repórter (Chamada do programa): “Tara? Fetiche?
Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma
revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo.. Hoje, no Globo Repórter.”
Discovery Channel
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.
Revista Veja
Lula sabia das intenções do Lobo.
Revista Nova
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama!
Revista Isto É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.
Revista Playboy
(Ensaio fotográfico do mês seguinte): “Veja o que só o lobo viu”.
Folha de São Paulo
Legenda da foto: “Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador”. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
O Estado de São Paulo
Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.
O Globo
Petrobras apoia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.
Um revólver para a noiva

Maria da Silva (nome fictício) tinha todos os motivos do mundo para estar feliz. Na terça-feira de sol, por volta das 8 horas da manhã, seguia tranqüila para o trabalho, num hospital no centro de Itabuna.
Mas não era o trabalho, ainda que um trabalho que ajuda a salvar vidas, que fazia de Maria uma mulher feliz.
Era a concretização de um sonho: o casamento, marcado para o dia seguinte, com aquele que Maria considera sua cara-metade, o seu par perfeito num mundo de tantas uniões imperfeitas.
Nesse misto de expectativa e divagação, Maria caminhava pelas ruas que dão acesso ao hospital.
Caminhava , como caminha todos os dias, com a diferença de que esse na era um dia qualquer. Era a véspera do tão sonhado casamento.
Portanto, um dia diferente.
E acabou sendo mesmo um dia diferente.
Quando cruzava a esquina, já visualizando o prédio do hospital, Maria nem se deu conta que dois rapazes a bordo de uma motocicleta.
Poderia ser uma surpresa do noivo, mandando entregar flores para a amada. Ou algum colega de trabalho, a lhe entregar o presente de casamento de maneira inusitada. Ou mesmo alguém pedindo informação.
Nem flores, nem presentes, nem um prosaico pedido de informações.
Era um assalto. O clássico assalto que se tornou uma lamentável rotina em Itabuna: o piloto para a moto, o carona saca o revólver e anuncia o assalto.
Tudo muito rápido, em plena luz do dia e presenciado por outras pessoas, que impotentes nada podem fazer a não ser presenciar o desespero da vítima.
Com o revólver apontado ostensivamente para a cabeça, o risco real de levar um tiro dada a brutalidade de marginais para quem a vida (dos outros, bem entendido) não vale nada, Maria entregou a bolsa, com documentos, cartões de crédito, dinheiro e o telefone celular.
Quando os motobandidos saíram, com a tranqüilidade de quem faz um passeio matinal, Maria entrou em estado de choque. Foi socorrida pelos moradores, enquanto aguardou pela chegada dos colegas de trabalho.
Demorou para entender o que havia acontecido e deve demorar mais ainda para superar o trauma de uma violência absurda, que está presente do dia da dia da população, que passa por assaltos aos borbotões e termina nos assassinatos contados às centenas.
Nesta quarta-feira, quando subir para o altar e realizar o sonho de sua vida, Maria da Silva, nome fictício mas vítima de uma violência real, deve sentir um calafrio na espinha quando ouvir o padre dizer a frase “até que a morte os separe”.
Faltou pouco para que a morte os separasse na véspera da consumação da felicidade.
Que Maria, enfim, seja feliz, como merecem serem felizes todas as noivas e todas as pessoas do mundo.
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