WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia

livros do thame




Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

janeiro 2010
D S T Q Q S S
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  


:: 20/jan/2010 . 14:55

VERSÕES DIFERENTES PARA UMA MESMA HISTÓRIA


A gente recebe (e envia) muita besteira por email.
Mas esse texto é interessante, no melhor estilo “entre o fato e a versão, vale a versão”.
____________

Se a história da Chapeuzinho Vermelho fosse verdade, como ela seria contada
na imprensa no Brasil? Veja as diferentes maneiras de contar a mesma história.

Jornal Nacional
(William Bonner):
“Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem…” (Fátima Bernardes): “…mas a atuação de um lenhador evitou a tragédia.”

Programa da Hebe
“…que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi
retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?”

Cidade Alerta
(Datena): “…onde é que a gente vai parar,
cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra
casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte
público! E foi devorada viva…
… um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!”

Superpop
(Luciana Gimenez): “Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do
lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos
há mais de um ano. Abafa o caso”

Globo Repórter (Chamada do programa): “Tara? Fetiche?
Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente? O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta. E uma
revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo.. Hoje, no Globo Repórter.”

Discovery Channel
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

Revista Veja
Lula sabia das intenções do Lobo.

Revista Nova
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama!

Revista Isto É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

Revista Playboy
(Ensaio fotográfico do mês seguinte): “Veja o que só o lobo viu”.

Folha de São Paulo
Legenda da foto: “Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador”. Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O Estado de São Paulo
Lobo que devorou menina seria filiado ao PT.

O Globo
Petrobras apoia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente.

Um revólver para a noiva


Maria da Silva (nome fictício) tinha todos os motivos do mundo para estar feliz. Na terça-feira de sol, por volta das 8 horas da manhã, seguia tranqüila para o trabalho, num hospital no centro de Itabuna.

Mas não era o trabalho, ainda que um trabalho que ajuda a salvar vidas, que fazia de Maria uma mulher feliz.

Era a concretização de um sonho: o casamento, marcado para o dia seguinte, com aquele que Maria considera sua cara-metade, o seu par perfeito num mundo de tantas uniões imperfeitas.

Nesse misto de expectativa e divagação, Maria caminhava pelas ruas que dão acesso ao hospital.

Caminhava , como caminha todos os dias, com a diferença de que esse na era um dia qualquer. Era a véspera do tão sonhado casamento.

Portanto, um dia diferente.

E acabou sendo mesmo um dia diferente.

Quando cruzava a esquina, já visualizando o prédio do hospital, Maria nem se deu conta que dois rapazes a bordo de uma motocicleta.

Poderia ser uma surpresa do noivo, mandando entregar flores para a amada. Ou algum colega de trabalho, a lhe entregar o presente de casamento de maneira inusitada. Ou mesmo alguém pedindo informação.

Nem flores, nem presentes, nem um prosaico pedido de informações.

Era um assalto. O clássico assalto que se tornou uma lamentável rotina em Itabuna: o piloto para a moto, o carona saca o revólver e anuncia o assalto.

Tudo muito rápido, em plena luz do dia e presenciado por outras pessoas, que impotentes nada podem fazer a não ser presenciar o desespero da vítima.

Com o revólver apontado ostensivamente para a cabeça, o risco real de levar um tiro dada a brutalidade de marginais para quem a vida (dos outros, bem entendido) não vale nada, Maria entregou a bolsa, com documentos, cartões de crédito, dinheiro e o telefone celular.

Quando os motobandidos saíram, com a tranqüilidade de quem faz um passeio matinal, Maria entrou em estado de choque. Foi socorrida pelos moradores, enquanto aguardou pela chegada dos colegas de trabalho.

Demorou para entender o que havia acontecido e deve demorar mais ainda para superar o trauma de uma violência absurda, que está presente do dia da dia da população, que passa por assaltos aos borbotões e termina nos assassinatos contados às centenas.

Nesta quarta-feira, quando subir para o altar e realizar o sonho de sua vida, Maria da Silva, nome fictício mas vítima de uma violência real, deve sentir um calafrio na espinha quando ouvir o padre dizer a frase “até que a morte os separe”.

Faltou pouco para que a morte os separasse na véspera da consumação da felicidade.

Que Maria, enfim, seja feliz, como merecem serem felizes todas as noivas e todas as pessoas do mundo.





WebtivaHOSTING // webtiva.com.br . Webdesign da Bahia