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livros do thame




Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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Fitinha do Senhor do Bonfim, mãozinha do Senhor Luiz


Depois de participar uma celebração evangélica em agradecimento por ter vencido aquela que certamente foi a mais dura de suas batalhas, a luta contra o câncer, a ministra da Casa Civil e pré-candidata a presidência da República pelo PT, Dilma Roussef, encerra a semana em Salvador, uma das cidades de maior religiosidade de Brasil, onde, diz a lenda, se todos os pedidos aos santos e todos os despachos fossem atendidos, o Campeonato Baiano terminaria empatado. E as eleições também.

Dilma, ex-guerrilheira e vítima de lancinantes torturas cometidas nos porões da ditadura militar brasileira, vai à tradicional Igreja do Bonfim, onde participa de uma Missa de Ação de Graças. De lá, deve sair com a fitinha que ilustra o pulso de dez entre dez personalidades que visitam a Bahia e item obrigatório no kit de qualquer turista que se preze.

A fitinha de Dilma deve ser vermelha, per supuesto.

A visita à Igreja do Senhor do Bonfim, respeitado o fervor religioso e a gratidão pela cura, tem um olho no santo e outro no eleitor.

Superada a incerteza da doença, a drástica redução de suas atividades na Casa Civil e o afastamento compulsório das visitas a obras do PAC em todo o Brasil, Dilma Roussef busca voltar à cena política e se consolidar como uma alternativa viável para derrotar o tucano José Serra, que aparece como favorito na disputa presidencial.

Esse posto, que até pouco tempo atrás era exclusivo de Dilma, atualmente é dividido com Ciro Gomes, do PSB. Menos mal que Serra empacou no patamar em que estava e até oscilou um pouco para baixo, o que por sinal também ocorreu com a ministra.

Daí que, além a dar um alô para o Senhor do Bonfim e comparecer até em festa de aniversário, no caso, o presidente da Agência Nacional do Petróleo, o comunista (ainda existe isso?) Haroldo Lima; Dilma Roussef acompanha o governador Jaques Wagner numa visita as obras do Hospital da Criança, em Feira de Santana, e na solenidade de autorização da concessão das rodovias federais na Bahia.

Tem mais: sempre ao lado do governador, candidatíssimo à reeleição e às voltas com atritos com o aliado nacional e ex-aliado estadual PMDB, embarca na Caravana de Erradicação do Trabalho Infantil na cidade Cipó. Deve haver espaço ainda para outro aniversário (vida de candidato não é mole!), desta vez o do presidente da Petrobrás, o baiano José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. Para fechar o périplo baiano, uma inspeção às obras do PAC em Salvador.

É, enfim, agenda de quem quer voltar à luta.

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A ajuda dos céus é bem vinda (e é bem vinda em qualquer situação), mas a ministra Dilma Roussef vai contar mesmo com outra ajuda, que não tem nada de divina, mas que anda fazendo verdadeiros milagres.

E que atende pelo prosaico nome de Luiz Inácio Lula da Silva.

Duvidar, quem há de?

A bala perdida encontrou Maria Eduarda

Na mesma semana em que um infarto fulminante impediu Ferreirinha de chegar aos 100 anos, uma bala perdida impediu a pequena Maria Eduarda Ribeiro Dias de ultrapassar seu primeiro ano de vida.

O quase um século de Ferreirinha, morto no domingo; e o apenas um aninho de Maria Eduarda, assassinada com um tiro no peito na segunda-feira, formam o contraste de uma cidade capaz de garantir a longevidade de uns, mas incapaz de impedir a morte mais do que precoce de outros.

O fazendeiro Ferreirinha, morava na Zildolândia, um bairro classe média de Itabuna. Viveu o suficiente para, aos 85 anos, casar-se com a estudante Iolanda, então com 16 anos, uma paixão arrebatadora e ao mesmo tempo inusitada, que lhe rendeu fama internacional e o título de “Garanhão de Itabuna”, que ostentava com indisfarçável orgulho.

Ao morrer, após lutar bravamente contra uma seqüência de enfermidades, Ferreirinha já tinha seu nome inscrito na história de Itabuna. Seu sepultamento reuniu centenas de pessoas, entre familiares, amigos ou simples curiosos, que o conheciam apenas por conta da fama.

Maria Eduarda morava no bairro São Pedro, um dos mais carentes de Itabuna, onde a violência impõe a lei e o medo aos moradores, gente trabalhadora e decente. Não viveu nem o suficiente para dar os primeiros passos, nessa caminhada incerta rumo a um futuro que para ela agora é apenas uma interrogação ou uma abstração.

Ao morrer de forma abrupta e violenta, ganhou o noticiário policial das rádios, televisões e jornais. Seu sepultamento reuniu apenas gente simples do bairro, que cobrou Justiça, mas sabe dos riscos que é abrir a boca para protestar contra a impunidade dos marginais.

Maria Eduarda, sem fama nem fortuna, está fadada a virar apenas estatística, um número a mais no elevadíssimo número assassinatos em Itabuna.

Maria Eduarda foi vítima de uma dessas balas perdidas que por uma dessas coisas inexplicáveis só encontram gente inocente.

Baleada dentro de casa numa rua chamada, suprema ironia, Liberdade.

Liberdade é justamente o que falta para os moradores do São Pedro e de outros tantos bairros da periferia de Itabuna, prisioneiros em suas próprias casas.

De Ferreirinha se pode dizer que teve a sorte de, a despeito de duas guerras mundiais, ter nascido num tempo em que a violência cotidiana não produzia tantas vítimas fatais. Viu o mundo dar um salto tecnológico, o homem pisar na Lua e virou não apenas o século, mas também o milênio. ´

Amou e foi amado, teve filhos, netos, bisnetos e ainda viveu uma bela paixão outonal.

De Maria Eduarda se pode dizer que não teve sorte alguma, mas o azar de ter nascido num tempo em que nem um bebê inocente está seguro dentro de casa, quando essa casa está localizada numa área de guerra urbana, onde sobreviver é quase um milagre.

O intervalo de apenas um dia separou as mortes de Ferreirinha e Maria Eduarda.

Quase um século separou as vidas de Ferreirinha e Maria Eduarda.

Personagens diferentes, vidas diferentes, que talvez nem coubessem na mesma história.

Mas que se encaixam perfeitamente quando inseridos na história de uma cidade que celebra Ferreirinha mesmo na morte e chora a Maria Eduarda sem vida.

Uma cidade que num intervalo de 24 horas alçou Ferreirinha a condição de mito e empurrou Maria Eduarda à condição de anjo caído.

Balas perdidas, vidas perdidas.

Até quando?

FERREIRINHA, VIAGRA E SUCO DE CACAU


Faleceu na manhã do último domingo (4), aos 99 anos, o produtor rural José Ferreira Vieira, o Ferreirinha. Em meados da década de 1990, então com 85 anos de idade, ele ganhou fama ao se casar com a estudante Iolanda Rodrigues, de 16 anos, com quem logo em seguida teve uma filha, Carol. O romance ganhou repercussão nacional e internacional e Ferreirinha foi convidado a dar uma entrevista ao programa Jô Soares, no SBT. O programa fez tanto sucesso que foi repetido durante a reapresentação das melhores entrevistas do ano.

Diante de um Jô Soares surpreso com tanta desenvoltura e de uma platéia encantada com aquele senhor com jeito de menino sapeca, Ferreirinha falou de seu romance com Iolanda e de seu aparentemente insaciável apetite sexual. A ser questionado por Jô Soares sobre o segredo de tamanha vitalidade, Ferreirinha seguiu à risca aquilo que fora combinado com Manuel Leal, diretor do jornal A Região, na véspera da viagem a São Paulo e respondeu que tomava muito suco de cacau.

Foi o suficiente para Jô Soares pedir: “atenção meus amigos do Sul da Bahia, me mandem vários pacotes de suco de cacau!”. A platéia veio abaixo e Ferreirinha ficou conhecido como “O Garanhão de Itabuna”, título do qual se orgulhava e procurava manter, sempre se vangloriando de seus “dotes garanhísticos”.

Aos 90 anos, questionado sobre o que achava do surgimento do Viagra, respondeu com ironia: “eu nem sei o que é isso, moço, comigo é ao natural mesmo e é todo dia”. Iolanda, a companheira que permaneceu com ele até o ultimo suspiro, numa comovente demonstração de afeto (ela que no início foi acusada de se casar por interesse, o que posteriormente se revelou uma terrível injustiça), apenas sorria diante a tagarelice de Ferreirinha.

Ferreirinha é também autor de outra frase impagável, ao justificar porque fazia tanta questão de divulgar sua paixão por Iolanda. “Na minha idade, casar com uma moça linda dessas e ninguém ficar sabendo, que graça tem?”. Nos últimos meses, Ferreirinha lutava contra os problemas de saúde e ainda assim fazia planos para comemorar seus 100 anos, no dia 8 de janeiro de 2010. “Não vejo a hora de sair do hospital, ficar em casa com Iolanda (ô, apetite!) e receber meus amigos”, dizia.

Não deu tempo. Um infarto fulminante transferiu a festa dos 100 anos para o céu ou outra dimensão, onde ele certamente está espalhando a luz e a alegria de quem passou pela vida terrena e deixou saudades. As anjinhas que tratem de bater suas asinhas para bem longe, por que o espírito do eterno menino Ferreirinha está nas nuvens!

LUIZ INÁCIO DO BRASIL


Na década de 50 do século passado, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou uma expressão para explicar porque, a despeito do talento de nossos jogadores, o futebol brasileiro sempre fracassava em Copas do Mundo, sucumbindo diante dos fortes mas duros de cintura europeus e até mesmo dos apenas raçudos uruguaios.
Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro sofria de “complexo de vira-latas”, algo similar a uma incurável sensação de inferioridade.
Na Copa de 58, na Suécia, Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos e Cia. trataram de mostrar que vira-latas que late, também morde. Daí em diante, o Brasil se tornou o maior vencedor de Mundiais, com cinco conquistas.
Vencemos o nosso complexo de vira-latas?
Que nada!
Pelo menos para parte de nossas “cabeças pensantes”, continuamos sendo um povinho pé de chinelo, a abanar o rabo para as chamadas nações desenvolvidas.
O último exemplo dessa lógica ilógica, típica dos que acham que quanto pior melhor, foi a disputa pela indicação da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
A se depreender do que se lia e se ouvia em grande parte da mídia, que chance teriam o Rio de Janeiro terceiro-mundista diante da norte-americana Chicago, da européia Madri e da japonesa Tóquio, todas as capitais de primeiro mundo?
Nenhuma.
A comitiva brasileira na Dinamarca, onde se decidiu a escolha da cidade-sede, comandada pelo presidente Lula e que tinha entre seus integrantes um mito planetário chamado Pelé, quase foi comparada uma trupe de circo mambembe.
Quem era aquele ex-retirante, operário metalúrgico, que a perseverança e o destino transformaram em presidente do Brasil, para enfrentar Barak Obama, o presidente da maior potência do mundo, que foi à Dinamarca fazer lobby em prol de Chicago?
Pois foi esse presidente dono de uma biografia única quem se transformou numa espécie de porta-bandeira da auto-estima brasileira.
Lula, na contramão do complexo de vira-latas, se notabilizou em enaltecer a grandeza do Brasil e dos brasileiros. Um país fadado a ser um dos grandes do mundo, habitado por um povo criativo, empreendedor, capaz de superar (ou seria driblar?) todas as dificuldades.
Um presidente que quando o mundo mergulhou numa das piores crises econômicas de sua história (e quando muitos previram o apocalipse), disse que o Brasil iria atravessar a tormenta e sair ainda mais forte dela.
Saiu.
Um presidente vindo da pobreza e que como nenhum outro tirou tantos brasileiros da pobreza; um presidente com pouca escolaridade, mas que como nenhum outro colocou tanta gente na escola e abriu as portas da universidade para os estudantes carentes.
Um presidente que se parece com cada um de nós, porque essencialmente é isso mesmo: um de nós.
O Brasil, que vai sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014 após 54 anos e que traz pela primeira vez uma Olimpíada para um país da América do Sul, caminha para ser a quinta potência econômica do planeta, mas acima de tudo é o pais que descobriu a sua auto-estima.
Evidente que não é o paraíso na terra e há muito que avançar em termos de educação, saúde, segurança pública, infra-estrutura e combate às desigualdades sociais.
Mas também não a casinha de cachorro do mundo.
Aos que ainda tentam nos impingir o complexo de vira-latas recomenda-se colocar o rabo entre as pernas.
Vão continuar latindo, enquanto a caravana passa e o Brasil de Luiz Inácio e de milhões se brasileiros que não desistem nunca seguem em frente.

"TIA, ME DÁ O LÁPIS AÍ"

Lá pelos idos de 1995, durante uma viagem à Cuba, país que nas décadas de 60 e 70 do século passado alimentou a fantasia revolucionária e socialista de uma geração oprimida pela ditadura militar brasileira, deparei-me com vários estudantes que, em vez de pedir dinheiro, apontavam para o bolso da camisa e pediam lápis e canetas.

Isso mesmo, lápis e canetas!

À época, com a derrocada da União Soviética e do esfacelamento do bloco socialista na Europa, Cuba vivia o chamado “período especial”, com racionamento de alimentos, energia elétrica e de combustíveis. Produtos banais como sabonetes, absorventes, pasta de dentes, lápis, canetas e cadernos se transformaram em “artigos de luxo” para os cubanos.

Era de cortar o coração observar meninos e meninas que, graças ao eficiente e gratuito sistema educacional cubano, já falavam dois ou três idiomas e que seriam futuros médicos, engenheiros, arquitetos, físicos, etc., abordarem os turistas para pedir material escolar.

De volta ao Brasil, consegui com a Petrobrás dezenas de caixas de cadernos, lápis, canetas e borrachas, que enviei a uma associação de amizade e solidariedade entre os povos latino-americanos, para serem entregues a estudantes de Havana.

Não salvei o mundo e nem resolvi o problema da falta de material escolar de Cuba, mas fiz a minha parte, pingo d´água naquele oceano de escassez e dificuldade, enfrentados com uma dignidade e altivez que raramente vi neste pais de dimensões e desigualdades continentais chamado Brasil.

As lembranças daquele ano de 1995 em Havana vieram à tona, diante de um depoimento enviado pela professora Sandra Abreu, da Universidade Estadual de Santa Cruz, que coordena um projeto de educação e multiculturalismo.

A professora conta que participava de uma apresentação teatral, reunindo estudantes de três escolas de Itabuna. Ali estavam estudantes com idade entre 7 e 14 anos.

Deixemos o relato para a própria professora:

– Após a apresentação da peça teatral, solicitamos aos alunos que apresentassem, em forma de texto, desenho ou frase, o que aprenderam sobre a peça… É claro, distribuímos lápis grafite para os alunos e em seguida eles deveriam devolver para que utilizássemos com os outros cidadãos e cidadãs das escolas que aderiram ao Projeto de Extensão em parceria com a UESC…

E aí entra a parte que resume as contradições do sistema educacional brasileiro e, porque não?, do próprio Brasil. Voltemos ao depoimento da professora:

– Observei um menino, com olhar ávido e ao final ele mantinha o lápis na mão! Ele veio me falar: “Me dê este lápis”! Segurava o lápis com as duas mãos… E eu disse: e os outros meninos e meninas que virão à tarde? Ele respondeu: “você tem muitos lápis e eu não tenho nenhum, tenho um pequeninho lá na escola e é da professora, todos os dias eu devolvo e em casa eu quero escrever e não tenho lápis”.

Conclui a educadora:

-Meu Deus, eu quase morri. Na escola há computadores e na casa do menino, em pleno século XXI, não há lápis para que um menino registre e dissemine o mundo por meio das letras, palavras e frases. A desigualdade está aí, viva, pulsante.

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Em Ilhéus, numa escola da rede municipal, sem material escolar, sem água, sem merenda e sem energia elétrica, a direção foi obrigada a recorrer a uma ligação clandestina, o popular “gato”, para que os estudantes não ficassem no escuro.

Um sistema de ensino onde faltam lápis, merenda, água e energia elétrica é, literalmente, a treva





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