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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

abril 2009
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:: 24/abr/2009 . 17:46

BAR DAS PUTAS


Ano de 1981. O Diário de Osasco finalmente trocava as velhas impressoras e linotipos e passava a ser impresso em off-set. Era como pular da Idade da Pedra para o futuro, sem escalas.

O Diário deixava de ser temporariamente diário para se tornar semanal, embora continuasse ostentando o título Diário.

Para o Vrejhi Sanazar, dono do jornal, era um salto de qualidade e a oportunidade de atrair anunciantes. Fazer dinheiro, enfim.

Para mim e para o Giovanni Palma, que tocávamos a redação, era o passaporte para a modernidade, poder ousar nos textos, nas fotos, no formato da primeira página.

Mais do que isso: como o jornal seria diagramado e impresso no prédio do Estadão (O Estado de São Paulo) na marginal Pinheiros, era a chance de viver o clima de grande imprensa, cruzar com o pessoal que fazia aquele que na época era o mais influente jornal brasileiro, até ser ultrapassado pela Folha de São Paulo.

Era também uma oportunidade para manter contato com grandes jornalistas, não apenas do Estadão, mas também de outros veículos, já que após o fechamento das edições (naquele tempo os jornais fechavam de madrugada e não eram essa coisa pasteurizada e insossa de hoje), o pessoal se dirigia a um ´pé sujo´ na avenida da Consolação, onde um churrasquinho ou uma batata frita honestos eram oferecidos a preço justo. Obviamente acompanhados de uma cervejinha, uma batidinha, uma cachacinha.

Ou tudo junto!

O local era chamado de Bar das Putas, porque além dos companheiros jornalistas, as companheiras operárias do amor também batiam ponto lá, fechando a noite de trabalho duro (ops!). Uma convivência harmoniosa, num local que marcou época numa São Paulo ainda sem crack e sem tanta violência.

Foi no Bar das Putas, enquanto entornava uma dose tamanho família de batida de limão e comemorava com o Palma mais uma bela edição do nosso “Diário semanal”, que ouvi a seguinte frase de uma das distintas freqüentadoras:

-O cara quando quer uma puta só pra ele, tem que pagar bem. Se não pagar, vai ter que dividir com os outros e se contentar com as sobras.

Num país onde, diz a lenda, cafetão se apaixona, puta goza, traficante cheira e político honesto é mais raro do que bispo paraguaio sem filhos, a moçoila perpetrou um comentário de antologia.

Os intocáveis

Enquanto o escândalo das passagens aéreas na Câmara dos Deputados estava mandando para os ares apenas integrantes do chamado “baixo clero” ou mesmo figuras conhecidas que repetidamente estão associadas à traquinagens, reforçava-se a impressão, quase um senso comum, de a maioria dos nossos legisladores se especializou em legislar em causa própria.

Mas eis que em meio a esse sui generis programa de milhagens começam a surgir, entre seus beneficiários figuras tidas como vestais, paladinos da ética, oráculos da moralidade.

É o caso do deputado federal Fernando Gabeira, flagrado distribuindo passagens aéreas para familiares. É o mesmo tipo de irregularidade cometida por um obscuro deputado do Rio Grande do Norte, metido a conquistador, que usou sua cota de passagens para, entre outras coisas, pagou passagens para que a apresentadora (?) Adriane Galisteu e a mãe dela fossem passear nos Estados Unidos.

Gabeira, dono de uma biografia extraordinária e de uma postura que o difere (ou diferia) do político-padrão, é uma espécie de referencial quando a mídia quer fazer um contraponto aos “podres poderes”. É o sujeito que, com as câmaras e microfones providencialmente ligados, desanca colegas em público e cobra moralidade e transparência.

É mais ou menos assim: “se todos fossem como Gabeira, a política não seria a sujeira que é”.

Ficou mais ou menos assim: “todos são iguais, mais um são mais iguais do que os outros”.

Enquanto boa parte dos envolvidos no escândalo é queimada na fogueira da inquisição, a Gabeira é dado o beneplácito da biografia, como se fosse apenas um pequeno deslize. O deputado reconheceu o erro, pediu desculpas publicamente e -rápido no gatilho- se dispôs a liderar uma cruzada moralizadora contra (o que mais poderia ser?) o abuso no uso de passagens aéreas.

De fato, diante do que alguns dos nobres deputados e senadores fazem nos bastidores daquela maravilha arquitetônica projetada por Oscar Niemayer, o que Gabeira fez foi uma bobajota.

Mas, ao se “igualar aos iguais” naquilo que eles têm de pior, o deputado sinaliza que é preciso uma profunda mudança de comportamento na classe política.
Porque, quando se começa dividir entre “bom ladrão” e “mau ladrão” (no sentido bíblico e não policial), é porque a cruz do cidadão de bem, que dá um duro danado para sobreviver e mantém a boa vida dessa turma a custas de impostos e mais impostos, está cada vez mais difícil de carregar.

Pior do que o deslize de Fernando Gabeira é a explicação do Corregedor Geral da Câmara, o deputado federal baiano ACM Neto, para a sucessão de escândalos: “acho que está na hora de a Casa ter coragem de se defender. Estão colocando nomes de pessoas sérias como se fossem bandidos! Acho que a imprensa quer fechar o Congresso”, disse ele do alto de seu prodigioso DNA político.

A culpa, então, é da imprensa!

Alguém aí se lembra da piada do sujeito que encontra a mulher com o amante na cama e toma uma atitude drástica?

Vendeu a cama…





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