:: 16/abr/2009 . 17:35
ESCOLINHA DO PROFESSOR GALVÃO

Dia desses, vendo pela tevê o Galvão Bueno tentar transformar um lance bisonho de Ronaldo numa jogada de gênio, lembrei-me de um episódio ocorrido lá pelo início dos anos 80. Do século passado!
A gente cobria, pela Radio Difusora Oeste, de Osasco, um jogo entre São Paulo e Náutico, pelo Campeonato Brasileiro. A partida não valia nada, porque os dois times já não tinham chances de classificação. Um desses jogos de entediar até torcedor fanático do São Paulo, como é o caso deste blogueiro.
Partidinha insossa, modorrenta, num Morumbi quase vazio.
Lá pelas tantas, o narrador Silva Netto (mais fanático ainda pelo São Paulo) narra um chute todo errado do atacante como se a bola tivesse “raspado” a trave.
Quando ele me acionou para contar como foi o lance, eu disse o que vi:
-A bola passou longe, sem nenhum perigo pro goleiro, segue o jogo…
Nem tinha notado que Silva Netto havia dito que a bola que passou longe tinha passado perto do gol.
Mas ele notou que eu o desmenti no ar, sem querer e sem perceber.
Em vez de seguir a narração do jogo, o que seria normal, ele decidiu me corrigir:
-A bola passou perto, um lance de perigo do São Paulo…
E eu, em vez de encerrar o assunto e pensar na morte da bezerra, insisti:
-Não, Silva, a bola passou longe. Estou ao lado do campo e vi…
Que nada!
Para o Silva Netto havia sido lance perigoso e não tinha jeito. Enquanto o jogo corria sem graça, os ouvintes da Difusora testemunhavam uma inacreditável discussão entre o narrador e o repórter, acerca de um lance banal.
Voltei a pensar na morte da bezerra e acabei concordando com Silva Netto, antes que ele transformasse uma bola que quase derrubou a bandeira de escanteio em gol do São Paulo.
Sem o “gol do Silva Netto” o jogo terminou mesmo em 0x0.
OS DONOS DO MUNDO
A gerente de pesquisas e professora do curso de Agronomia da Universidade Estadual de Santa Cruz, Solange França, é mais uma vítima da truculência com que habitantes do chamado Terceiro Mundo são recebidos pelas autoridades da Europa, numa onda de xenofobia que só tende a aumentar com a crise econômica que ceifa milhões de empregos em todo o planeta.
Solange, que não tem o perfil de imigrante ilegal, foi barrada ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Estava com a documentação em ordem, comprovação de local de hospedagem e dinheiro suficiente para suas despesas, mas foi tratada de maneira grosseira pelos policiais e ficou presa numa sala sem ventilação. Sem poder se comunicar com amigos e sem conseguir fazer contato com a embaixada brasileira, se viu diante de duas opções: permanecer presa ou ser deportada para o Brasil.
Entre a prisão e a deportação, achou mais sensato voltar para casa e encerrar, de forma abrupta, uma viagem de férias e de trabalho, que incluía visitas a museus, teatros e laboratórios de pesquisa.
Casos como os de Solange acontecem às centenas, talvez milhares, todos os dias em portos, aeroportos e postos de fronteira europeus. Asiáticos, árabes, africanos e sul-americanos (os brasileiros incluídos) são alvo desse tipo abominável de tratamento. Um policial geralmente grosseiro e mal preparado, simplesmente não vai com a cara do visitante e isso já é motivo para a deportação, antecedida por momentos de pânico em salas que se equivalem a prisões e na prática são isso mesmo.
Acontece na França, na Espanha, na Alemanha, na Itália, na Inglaterra, na Europa toda.
No ano passado, centenas de brasileiros foram enxotados da Espanha, em cenas que as emissoras de televisão não se cansaram de exibir. Humilhação pública, truculência, exibição de poder.
Não é difícil imaginar o que a professora Solange França passou nas poucas horas em que esteve na França (se é que se pode classificar sua desventura como ´estar na França´). Uma sensação de impotência, diante de um inimigo invisível, mas poderoso. Não pode entrar em fim de papo!
Fim de papo?
Cadê a reciprocidade?
Enquanto somos tratados como vira-latas quando, mesmo a passeio ou a trabalho, tentamos pisar o solo europeu (que um dia já foi chamado de Berço da Civilização, ora vejam!), estendemos tapete vermelho e cobrimos de salamaleques os europeus que nos visitam, mesmo o rebotalho que vem a esse paraíso tropical para fazer turismo sexual.
Em Ilhéus, Itacaré e Porto Seguro, turistas europeus, com seus euros valiosos, são tratados como reis e rainhas. Só faltamos nos curvar quando eles passam, numa reverência despropositada, subserviente.
Não se trata de defender aqui que esses turistas sejam tratados a pontapés. Afinal, o turismo é uma excelente fonte de renda, aquece a economia e gera empregos.
A questão – e isso demanda uma ação de Governo- é exigir das autoridades européias que os brasileiros recebam o mesmo tratamento que seus cidadãos têm aqui.
E evitar que nossa gente seja tratada como animal, quando animais são aqueles que se acham donos do mundo, por habitarem uma Europa próspera.
Que, não custa nada lembrar, prosperou e atingiu um elevado nível de desenvolvimento humano graças à exploração, durante séculos, de colônias nas Américas, na África e na Ásia.
A mesma gente que eles exploraram a exaustão e agora barram como se fossem doentes contagiosos, indesejáveis.
E pensar que a França que transformou a professora Solange numa imigrante ilegal em potencial consagrou um filosofia que mudou o mundo.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade”…
Esquece isso, cara-pálida!
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