:: ‘Cartas postas na mala’
Cartas postas na mala

Cyro de Mattos

Cyro de Mattos (foto de Jaqueline Alencart)
Com cerca de 65 anos dedicados à literatura como forma de vida, através de atividades constantes e produção de livros pessoais, resolvo cuidar das cartas que me foram endereçadas durante décadas por escritores, poetas, professores doutores e especialistas, com vistas a produzir razoável volume cheio de observações e compreensões sobre a vida. As cartas são os instrumentos de comunicação achados pelos humanos em certa época de sua evolução para se aproximar de parentes e amigos, usando seu espaço útil para revelar intimidades, levar notícias, informações de momentos alegres e tristes.
Com a expansão da telegrafia prestaram um serviço de muita utilidade à literatura e à cultura. Como gênero epistolar são conhecidas e apreciadas até hoje as cartas românticas de Vitor Hugo, entre Abelardo e Heloísa, as de Proust, Flaubert e de Soror Mariana. As famosas cartas ao pai e a Milena, de Kafka, reveladoras de relações agudas em família. As Cartas de Inglaterra, de Rui Barbosa, escritas no exílio, mostram um ferino panfletário nas entrelinhas, que preferiu cotejar a monarquia inglesa com a república brasileira, ao invés de relatar a vida ideal londrina. Para alguns, o epistolário de Machado de Assis mostra um Machado diferente, com destaque a missiva a José de Alencar sobre Castro Alves e à sua esposa Carolina.
Textos do gênero epistolar no Brasil revelam o espírito de seus autores, a singeleza de suas atitudes, o pensamento privilegiado sobre assuntos intricados da arte ou do contexto social e político. Como uma troca de intimidades e reflexões sobre a vida revelam prazerosos momentos, da experiência e testemunho, afeto e cordialidade, sutilezas do pensamento arguto. Isso é visto com clareza entre as cartas de Fernando Sabino e Clarice Lispector, Godofredo Rangel e Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima’, Caio Porfírio Carneiro e João Antônio. Durante décadas esses autores revelaram nas cartas o nascimento e a evolução de uma relação marcada pela cordialidade, discussão coloquial dirigida, compreensão e franqueza respeitosa.
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