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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

abril 2026
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:: ‘A saga do acarajé’

A saga do acarajé

Vânia Fagundes 
Sexta-feira, começo da noite. Saio do trabalho com uma vontade retada de comer um acarajé. Quando ela bate, não combato, pois é desejo de orixá. Meu motorista, João, me espera na rua. Detalhe: o carro é dele. Damos carona a um colega que teve o carro arrombado e ainda está às voltas com o seguro e as suas chatices. No caminho o deixamos no Campo Grande, pertinho do seu ap. Chego em casa, falo pro meu marido do meu desejo e peço o carro dele emprestado (vendi o meu) para ir comprar a iguaria baiana. Preciso dar de comer ao meu corpo desejoso de dendê.
Lembro que só tenho uma nota de 2 reais na carteira e outra de 1 dólar que guardo desde sempre.
Dizem que atrai dindin. Não faço desfeita à crença nenhuma. Peço 10 reais emprestado pra ele que me dá um cheupe (bronca) por eu estar sem dinheiro mais uma vez. Rebelde que sou (sempre fui), digo-lhe que não quero mais e que vou me virar. Me pico pra Rua Barão de Loreto. No final da ladeira vendem deliciosos acarajés. Estaciono, desço do carro e, decepção, só aceitam em cash.
Volto pro carro. Preciso sacar dinheiro em algum caixa eletrônico. Parto novamente pro Largo da Graça. Estaciono na porta da garagem do banco que está trancada com corrente e cadeado. Ao lado, encostados em um carro, duas senhorinhas e um rapaz conversam. Pergunto se posso parar ali, ou se a Transalvador vai rebocar ou multar o carro. Eles me respondem que posso parar sem problemas, mas que acham que a porta do banco está fechada por conta do horário e dos assaltos.
Me aconselham a ir para o shopping mais próximo. Educadamente digo que vou tentar, e subo a escadaria do prédio. Dou com os burros n’água. Volto e conto pra eles a minha agonia para comer um acarajé. Êita orixá danado! O rapaz me oferece dinheiro. A princípio não aceito. Mas ele insiste, disse que é de boa, e eu acabo aceitando. Me dá duas notas de 2 reais e me pergunta se tá bom. Eu digo que sim, pois tenho 2 na carteira e vou catar umas moedas que o marido sempre deixa no console do carro. Aviso que preciso comprar dois, pois vou levar um para ele. O pequeno grupo é muito simpático e acabo conversando um pouco. Gente bacana, do bem e de esquerda.
O rapaz aponta para uma barraca iluminada do outro lado da praça, e diz que lá vende acarajé, que assim não terei que dar outra volta de carro novamente. As senhorinhas me dizem que o acarajé da Barão de Loreto é mais gostoso. Resolvo arriscar e experimentar o da baiana do outro lago do largo.
Vou andando. Ao chegar na barraca, pergunto o preço, mas descubro que o dinheiro que consegui só dá para comprar um. Pergunto se aceita cartão. Inês, a simpática baiana, responde que sim. Peço um com camarão e vatapá e outro só com pimenta. Volto para o carro, torcendo para ainda encontrar o grupo. Devolvo o dinheiro do professor (ele dá aula na faculdade que funciona na antiga igreja da Graça, que se encontra em reforma). Ah, esses professores, criaturas lindas. Me despeço de todos e volto feliz para casa. Sacio meu orixá, a mim e ao meu marido. Só me arrependi de uma coisa: não ter comprado acarajé para todos eles. Achei que não os encontraria mais lá.
Fiquei devendo. Um dia eu pago.

 





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