Considerações em torno do segundo mandamento
O Brasil era um Estado laico. Era. Deixava a prática religiosa para os templos e outros espaços adequados, enquanto a política se exercia nos territórios dos poderes executivo e legislativo. Agora, misturam tudo, enfiam-nos religiões garganta adentro, com uma nefasta influência no nosso dia a dia. Uma gente fanática, fundamentalista, usa, a qualquer propósito ou sem propósito algum, o nome de Deus e Seu filho, numa agressão ao saber religioso primário que todo aluno obtém já na primeira semana do curso de catecismo: o segundo mandamento. Está no ar uma perniciosa influência de grupos ditos “evangélicos”, trazendo à cena política “exorcistas”, milagreiros e outros vendilhões de felicidade e do templo, alguns com fichas policiais muito maiores do que os livros de Teologia que deveriam ter lido.
São, em geral, indivíduos sem suficiente instrução ou cultura capaz de qualificá-los para impor conduta moral à população – e se algumas dessas pessoas veem Jesus subindo em goiabeiras isto será apenas detalhe. Não seria calunioso dizer que muitos desses fanáticos sequer sabem interpretar corretamente as parábolas, metáforas e simbolismos em que a Bíblia é rica. Estamos, para usar uma expressão cara ao meio, na Era do Anti-Cristo – porque contrário à mensagem cristã é o discurso desse governo e sua trupe de paramilicianos e militares reformados: em vez de amor, ódio; em vez de compaixão, crueldade; em vez de mansidão, violência; em vez de verdade, mentira, em vez de proteção aos mais fracos, perseguição. Mais fácil é uma entrar uma corda pelo fundo de uma agulha doque entrar um pobre no reinsdo dessa gente malvada. Jesus Cristo não reconheceria esses celerados como Seus seguidores – e, como nunca gostou de más companhias, não subiria numa goiabeira com nenhum deles.
A diversidade de crença e pensamento é democrática, não se discute. Não democrático é que me queiram impor, via bancada “evangélica” ou pelo próprio Capitão B., com seus “slogans” pouco inteligentes e repetidos aos arrancos, crenças e valores morais do tempo da Inquisição, heranças da Idade Média. Decididamente, isso daí não me representa.
A OAB em tempo de teatro shakesperiano
Sempre que, neste meio, comentamos algum fato, corremos o risco de perder o “gancho”, a motivação, a oportunidade, tal comentário envelhecer e, precocemente, adquirir cara de pão dormido. Mas, creio, a sorte (seja lá como se defina isto) é fundamental. Em casos tais, Nelson Rodrigues diria que “sem sorte, você não pode nem chupar um picolé, pois corre o risco de engasgar-se com o palito ou ser atropelado pela carrocinha”.
Estes prolegômenos (dicionário Priberam, urgente!) politicamente incorretos (o reacionário Nelson Rodrigues, se vivo fosse, estaria tecendo loas ao Capitão B. e demais trogloditas do governo) são para dizer que, no texto sobre “Primeira coisa a fazer: matar todos os advogados” (um citação bebida no teatro de Shakespeare), contei, de imediato, com a ajuda inesperada da OAB nacional.
Eis que, no dia seguinte à publicação do meu textinho, o presidente da Ordem, Felipe Santa Cruz, declarou: “Nas últimas 24 horas tenho sido alvo de furiosos ataques nas redes. Robôs pagos por movimentos extremistas e pessoas levadas por falsas manchetes simplesmente ocupam a rede com violentas mensagens, algumas verdadeiramente preocupantes, como aquela que diz que “as redes sociais querem o meu FIM”.
Obrigado, presidente, pelo “aval” à coluna. E resista, conforme a tradição da OAB, pois o céu e a terra passarão, mas a Justiça há de sobreviver.
(BddePd)
(As diatribes do Barão são publicadas neste espaço às terças e sextas, quer chova, quer faça sol).
PERFIL DO BARÃO
Todos mostram seu perfil, também vou mostrar o meu. Chamo-me Marcos Aparício Lins Machado de Guimarães Rosa, e, logo se percebe, não sou propriamente uma pessoa, mas uma homenagem: cada um desses nomes tem um significado para mim, mas não vou tirar de ninguém – se não o prazer, ao menos o exercício de identificá-los.
Atendo também por Visconde de Pau d´Alho (e isto tem a ver com o cheiro de minha terra – aí uma pista para pesquisadores ociosos). Sou um jornalista modesto, se é que isto existe, pois escolhi esse título honorífico de menor impacto, quando bem me poderia autoproclamar Marquês da Cocada Preta, Conde de Macuco ou Duque Sei-Lá-do-Quê. A propósito, os títulos de nobreza (tiremos daí os reis e príncipes, gente de outra classe) são, em ordem decrescente de importância, duque, marquês, conde, visconde e barão, caso não me engana e a história – e ao dizer isto já denuncio este como um espaço dedicado à informação…
Apesar do velho adágio “nobreza obriga”, não sou muito de frequentar as ditas rodas sociais, muitas vezes parecidas com rodas da malandragem: vivo um tanto isolado do lufa-lufa da cidade, envolvido com meus livros, um tabuleiro de xadrez e uns discos de jazz e MPB. Quando acometido da fadiga do tédio, ou se quero sofrer um pouco, ligo a tevê, assisto a um noticiário, registro um monte de agressões à língua portuguesa, me canso e retorno à rotina. Novela, não vejo nunca, pois meu masoquismo ainda não chegou a tais extremos. Nada de telefone nem zap-zap, não sei bem o que é rede social, para mim rede é aquela coisa que os pobres do Nordeste usam em substituição à cama, e que os ricos têm nas casas de praia.
Procuramos fazer aqui, semanalmente, uma coluna, erguida com as coisas que nos derem na telha, deixando a eventuais leitores espaço para os devidos xingamentos, pois vivemos, formalmente, em regime democrático. Diga-se ainda que, por se tratar de um espaço politico-ecológico, escolhi para musa da coluna aquela moça chegada a encontros religiosos em altos de goiabeiras – e de cujo nome, graças a Deus, já esqueci.














