O dia em que a ditadura nos roubou o Nobel da Paz
Barão de Pau-d´Alho bddepd@gmail.com
Ex-presidente Lula é candidato ao Prêmio Nobel da Paz. E isto já significa um terremoto no País: afinal de contas, trata-se de um brasileiro encarcerado pelo regime político, que atrai o olhasr do Mundo, um sujeito que, mesmo preso, tira o sono da extrema-direita, hoje no poder. A inscrição, proposta pelo ativista de direitos humanos argentino Adolfo Pérez Esquivel (ganhador do Prêmio em 1980), contou com o apoio de mais de 500 mil brasileiros, entre os quais os notórios comunistas José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Carlos Bresser Pereira e este insuspeito Barão.
De acordo com o estatuto da Fundação Nobel, uma candidatura válida para o Prêmio Nobel da Paz requer assinatura de membros de assembleias nacionais e governos nacionais (membros do gabinete ou ministros) de estados soberanos, bem como atuais chefes de Estado; membros do Tribunal Internacional de Justiça em Haia e do Tribunal Permanente de Arbitragem em Haia; membros do Institut de Droit International; professores universitários, professores eméritos e professores associados de história, ciências sociais, direito, filosofia, teologia e religião; reitores universitários e diretores de universidades; diretores de institutos de pesquisa da paz e institutos de política externa; pessoas que receberam o Prêmio Nobel da Paz; membros da diretoria principal de organizações que receberam o Prêmio Nobel da Paz; membros, ex-membros e ex-assessores do Comitê Norueguês do Nobel.
Em seu arrazoado, argumenta o ativista argentino: “Como é sabido, a paz não é apenas a ausência de guerra, ou a morte de uma ou de muitas pessoas, a paz é também dar esperança ao futuro do povo, especialmente aos setores mais vulneráveis, ??vítimas da “cultura de descarte”, da qual fala o Papa Francisco. Promover a paz é incluir e proteger aqueles que este sistema econômico condena à morte e à violência múltipla.”
Pérez Esquivel destaca que “as políticas sociais implementadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) deixou um Brasil com menos desigualdade social, pois a desigualdade média caiu 0,9% ao ano, no período entre 2003-2016.”
Houve, sim, outro brasileiro candidato ao Nobel da Paz, o perigoso comunista D. Hélder
Câmara, em 1973. O Padre Hélder (como gostava de ser chamado), arcebispo de Olinda e Recife, uma das figuras mais doces de sua geração de homens públicos, era tido como favorito para ganhar o Nobel, mas era persona non grata ao regime, que o condenou ao esquecimento, uma espécie de morte em vida (toda a mídia nacional foi proibida de mencionar o nome do religioso, nem mesmo para falar mal!). Pela via diplomática, a ditadura pressionou a Academia Sueca, e o Brasil perdeu a chance.
Antes disso, em 1969, no Recife, o padre Antônio Henrique Pereira Neto, auxiliar de dom Helder, de 28 anos, foi encontrado morto com uma corda no pescoço, feridas pelo corpo, tiro na cabeça e cortes de facão na garganta e na barriga, um caso considerado “suspeito”, mas não convenientemente apurado.
Agora, diante do movimento pró-Lula, o governo do Capitão B. propõe a candidatura dos bombeiros de Minas Gerais, pela ação desenvolvida na tragédia de Brumadinho. São trabalhadores militares com salários atrasados, contas a pagar e famílias passando necessidades, que ganhariam o prêmio como uma espécie de “consolação”: gente que, igualmente a policiais militares, vai às ruas com risco da própria vida, muitas vezes deixando suas famílias à míngua de recursos básicos.
Repete-se o clichê da nossa tragédia civilizacional. Ironicamente, 46 anos depois da negativa a Padre Hélder, tenta-se um novo golpe contra o Nobel da Paz: querem que os explorados bombeiros de Minas ganhem o Prêmio por piedade.
“Não é nossa tarefa carregar as massas, mas é preciso encorajá-las”, dizia dom Helder. Obviamente, o governo do Capitão B. não está interessado em valorizar este tipo de mensagem libertadora.
Hoje, como ontem, essa gente lesa prefere uma fórmula alienada e fácil de fazer o mundo sentir pena dos brasileiros, além de reforçar seu atestado de classe política perversa, que exalta, astuciosamente, nossa baixa estima, pondo os pobres a seu serviço.
Nas redes sociais, Esquivel popularizou esta mensagem pró-Lula:
“Faça a indicação, eu já fiz a minha, não há tempo a perder na luta contra a fome. Devemos proteger os mais vulneráveis e reconhecer aqueles que dão tudo, inclusive sua liberdade, para construir a Paz”.
A eleição de Lula, em que pese a “torcida” internacional, é algo remoto. Mesmo assim, não custa imaginar, caso aconteça, o haraquiri coletivo que a extrema-direita brasileira fará na Praça Santos Andrade, a principal da República de Curitiba. Este Barão, que foi gerado de sete meses, chorou na barriga da mãe, nasceu de olhos abertos de não tem o hábito de dormir de touca, já reservou camarote.
(BddePd)
(As diatribes do Barão são publicadas neste espaço, às terças e sextas, quer chova, quer faça sol).
PERFIL DO BARÃO
Todos mostram seu perfil, também vou mostrar o meu. Chamo-me Marcos Aparício Lins Machado de Guimarães Rosa, e, logo se percebe, não sou propriamente uma pessoa, mas uma homenagem: cada um desses nomes tem um significado para mim, mas não vou tirar de ninguém – se não o prazer, ao menos o exercício de identificá-los.
Atendo também por Visconde de Pau d´Alho (e isto tem a ver com o cheiro de minha terra – aí uma pista para pesquisadores ociosos). Sou um jornalista modesto, se é que isto existe, pois escolhi esse título honorífico de menor impacto, quando bem me poderia autoproclamar Marquês da Cocada Preta, Conde de Macuco ou Duque Sei-Lá-do-Quê. A propósito, os títulos de nobreza (tiremos daí os reis e príncipes, gente de outra classe) são, em ordem decrescente de importância, duque, marquês, conde, visconde e barão, caso não me engana e a história – e ao dizer isto já denuncio este como um espaço dedicado à informação…
Apesar do velho adágio “nobreza obriga”, não sou muito de frequentar as ditas rodas sociais, muitas vezes parecidas com rodas da malandragem: vivo um tanto isolado do lufa-lufa da cidade, envolvido com meus livros, um tabuleiro de xadrez e uns discos de jazz e MPB. Quando acometido da fadiga do tédio, ou se quero sofrer um pouco, ligo a tevê, assisto a um noticiário, registro um monte de agressões à língua portuguesa, me canso e retorno à rotina. Novela, não vejo nunca, pois meu masoquismo ainda não chegou a tais extremos. Nada de telefone nem zap-zap, não sei bem o que é rede social, para mim rede é aquela coisa que os pobres do Nordeste usam em substituição à cama, e que os ricos têm nas casas de praia.
Procuramos fazer aqui, semanalmente, uma coluna, erguida com as coisas que nos derem na telha, deixando a eventuais leitores espaço para os devidos xingamentos, pois vivemos, formalmente, em regime democrático. Diga-se ainda que, por se tratar de um espaço politico-ecológico, escolhi para musa da coluna aquela moça chegada a encontros religiosos em altos de goiabeiras – e de cujo nome, graças a Deus, já esqueci.














