A vida para lá de multifuncional
Efson Lima
É um fim de semana e estamos imersos em aula sobre filosofia, sociologia e tantos outros temas. Todos nós passamos os dias úteis das semanas vivendo tudo isso na prática. Mas, um grupo, virtualmente, se reúne para discutir sobre marxismo. A ideia é tentar compreender à realidade e provocar transformações na sociedade brasileira.
O bacana é que vamos verificando que a vida ganhou suas dinâmicas próprias e ela não cabe em uma só teoria. Vou perguntando para cada cursista e um a um vai respondendo o que está fazendo para além de assistir e participar das discussões do curso e de como estão compreendendo o fenômeno da vida.
Vejo pela tela do computador que algumas pessoas estão preparando o café. É uma mistura de Brasil na tela. Vejo gente do norte do país fazendo café. Vejo um rapaz do Rio Grande do Sul preparando seu chimarrão. Olho uma moça no Mato Grosso comendo carne seca com banana-da-terra verde. Eu daqui do nordeste escrevo esta crônica para dizer que as pessoas se tornaram multifuncionais. A câmera de uma colega paulistana pegava uma moça arrumando o quarto no prédio ao fundo. Minha amiga corre para preparar o almoço. O filho já pedia comida.
No curso, as pessoas tentam reproduzir e normalizar o presencial: fumam charutos, acendem cigarros… um colega provoca no grupo do Whats chamando para tomar uma cerveja no bar, no fim do dia. Um amigo busca na rede os currículos dos professores. Tudo está na internet.
Em tão pouco tempo, eu vi o Brasil. Fui informado que a chuva caía na região metropolitana de Fortaleza. Um jovem falava de Sobral; um jovem presidente de uma agremiação, em Manaus, pedia para incorporar a luta abolicionista penal no programa de estudos do curso. Outro rapaz pedia para estudar a análise do discurso, visto à necessidade premente e os desafios postos das eleições.
Outros e outras apreciam a beleza de quem aparece na tela do computador. Eu começo a ler os textos sobre a morte do saudoso cineasta, que rendia homenagens à esquerda na TV. Eu agora começo a reduzir os vocábulos para caber na rapidez da vida e nas complexidades funcionais impostas por ela. Ao longo das semanas, chegamos ao fim do dia e estamos super cansados. É que esquecemos que fomos vários no mesmo dia.
Achei curioso que, para cada pergunta que era feita, a pessoa apresentava seu currículo, descrevendo assim o seu lugar de fala, entretanto, ao mesmo tempo sinalizava para o discurso da autoridade, consequentemente, fazia naufragar a autoridade do discurso. A pergunta se perdia com as minhas reflexões.
Na aula, o Brasil foi sendo pintado e compreendido pelo conjunto das falas. Para os sonhadores, espera-se a concretização das propostas. Assim, teremos uma república mais harmônica, plural e a misoginia suplantada. Seria uma festa para as minorias e as mulheres que, agora, passariam a ser compreendidas quanto à necessidade de terem seu tempo de aposentadoria reduzido em relação ao homem. Elas sempre foram multifuncionais e, agora, são maximizadas: mulher, mãe, dona de casa, terapeuta, professora no lar, promotora de lazer e obrigada a ser a responsável por manter o relacionamento mesmo diante das perversidades machistas.
As coisas não são mais como ontem, a classe operária mudou e as redes sociais cingiram bilhões de pessoas em uma mesma atmosfera, mas continuamos hierarquizados e milhões invisibilizados. A qualidade da internet denuncia qual é o seu aparelho celular e o pacote de dados comprado.
Amanhã precisará ser outro dia, mas com menos dores e que a simultaneidade de fazeres não sejam violadores de nossa dignidade. A vida segue cada vez mais multifuncional. “Um olho no padre e outro na missa” deixou de ser ditado popular e passou a ser prática corriqueira de nosso tempo.
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Efson Lima
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