Há 100 anos, homens públicos construíam legado, não patrimônio

Cléber Isaac Filho
Em tempos de debates eleitorais, marketing político agressivo e descrença crescente da população, talvez seja importante olhar para trás e revisitar a trajetória de alguns homens públicos do passado.
Não por saudosismo vazio.
Mas porque certos exemplos históricos continuam extremamente atuais.
Entre eles está Crescêncio Antunes da Silveira, médico, deputado constituinte e uma das figuras mais respeitadas da história de Vitória da Conquista.

Nascido em Caetité, em 1881, Crescêncio formou-se médico no Rio de Janeiro em uma época em que poucos brasileiros tinham acesso ao ensino superior. Poderia ter construído fortuna nos grandes centros urbanos. Preferiu retornar ao interior da Bahia para servir à população.
Fundou a Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista em 1918, participou do combate à Gripe Espanhola, ajudou a estruturar entidades culturais e esportivas da cidade e tornou-se conhecido pelo apelido de “Apóstolo da Caridade”, por atender gratuitamente pessoas pobres e humildes. (bvconsueloponde.ba.gov.br?)
Sua atuação política veio como consequência natural de sua liderança comunitária.
Em 1934, foi eleito deputado estadual constituinte da Bahia, participando da Assembleia Constituinte entre 1935 e 1937, em um período decisivo de reorganização institucional brasileira após a Revolução de 1930. (bvconsueloponde.ba.gov.br??)
Mas talvez o aspecto mais impressionante de sua trajetória esteja justamente fora dos cargos que ocupou.
Crescêncio morreu sem riqueza material relevante. Não acumulou patrimônio incompatível com a vida pública. Não transformou mandato em instrumento de ascensão financeira. Seu maior patrimônio era outro: respeito popular.
E talvez seja exatamente isso que torna sua história tão atual.

Há 100 anos, muitos homens públicos entendiam o mandato como extensão do dever moral e comunitário. A política era vista como missão pública, não como profissão vitalícia ou oportunidade de negócios.
Isso não significa romantizar o passado ou ignorar os problemas da época. A política brasileira sempre teve contradições. Mas existia uma geração de líderes locais cuja autoridade nascia do serviço prestado à comunidade — e não da força das redes sociais, do marketing ou da construção artificial de imagem.
Vitória da Conquista, cidade que revelou nomes como Glauber Rocha e Elomar Figueira Mello, também ajudou a produzir figuras públicas cuja vida pessoal reforçava o discurso que defendiam.
Crescêncio da Silveira pertencia a essa geração.
Uma geração que talvez não tenha deixado fortunas.
Mas deixou algo muito mais raro: exemplo.












