Zezé di Camargo e Roberto Carlos – A Política e o Amor
Das vezes em que o mundo artístico se misturou à política

Zezé di Camargo usou suas redes sociais para criticar presença do presidente Lula na inauguração do SBT News – Foto: Redes Sociais/Reprodução
Rogério Silva
Domingo último vi Moacyr Franco ser homenageado pelo sertanejo Daniel em seu programa semanal de televisão. Fico emocionado com homenagens em vida, é assim que elas precisam ser feitas. Moacyr é parte da história de nosso áudio-vídeo, tanto como ator quanto cantor, por suas interpretações homéricas, humor refinado, altos e baixos na carreira, palcos e estúdios, com a humildade de ter voltado para o circo quando as portas do estrelato se fecharam em sua cara. “Ainda ontem chorei de saudade”, um hino do cancioneiro popular. A desgraça em sua linda trajetória, confessa, se deu na política. Foi-se no ímpeto de enveredar-se pelo parlamento e experimentou um mandato de deputado federal. Não fala com todas as letras em arrependimento, mas em lamento. Ali não era seu lugar.
Sérgio Reis também não nutre saudades dos tempos de Câmara Federal. Fez presença em votações importantes, como o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, mas na maioria das sessões se sentia contrariado de estar ali. Em rompante de desabafo intempestivo falou além da medida e foi parar num leito com grave estafa. Seu negócio é o berrante, são as lindas parcerias com Almir Sater e Renato Teixeira, a “panela véia”, o “Menino da Porteira, “O Filho Adotivo”, não os corredores do Congresso.
Roberto Carlos, não. O maior artista popular contemporâneo segue seu ritual à risca, com suas manias, seus “tocs” e cantando eternamente o amor. Podem até chamá-lo de “isentão”, mas ele decidiu ser assim, entendendo que essa é a sua posição no microfone, celebrar o amor em suas milhares de canções e interpretar o papel que enxergou ser o seu, sem negociações, sem exceções, com muitas emoções. “Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo…”.
Zezé di Camargo
Pois é. E o Zezé? Bom, ter lado não é de todo ruim. Posicionar-se é ato de cidadania. Tudo bem. O problema é que o Brasil de hoje não é pra amadores. Nunca assistimos a um panorama tão arisco, rachado, extremado, polarizado. Ou é ou não é, não existe meio termo. Desde aqueles famosos manifestos de 2013, os “black blocks”, tais protestos contra preços de passagens que a coisa tomou um rumo estranho e fez surgir os nomes dos outsiders da política nacional, sendo o mais expressivo deles Jair Bolsonaro. Deputado do baixo clero, habitué de programas de auditório com temas polêmicos, a exemplo da Luciana Gimenez, que alcançava bons números de audiência com o ex-capitão do Exército. Resultado, virou presidente.
Daí que o fato mais recente dessa mistureba de política e de celebridades artísticas é que Zezé di Camargo chamou pra si um discurso que abarca uma bolha enorme da chamada Direita, ou Extrema Direita brasileira. Para a qual não há espaço para o presidente Lula, da esquerda, do PT, ocupar numa cerimônia de inauguração de um canal de tv dedicado 24 horas à notícia. Muito menos o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, algoz do principal líder da direita nacional.
Zezé tem o apoio dessa massa, é inegável. Basta ver o número estonteante de curtidas e comentários em redes sociais. Mas, a legião de insatisfeitos tem demonstrado que a bronca é outra. Não é a posição política do artista, mas o ataque à família Abravanel, não por acaso com 7 mulheres em seu núcleo central: A viúva de Silvio Santos, Dona Íris, e as 6 filhas que o Brasil viu crescer e se sentiu próximo, de tanto que Silvio repetiu seus nomes nos programas do SBT: Patrícia, Rebeca, Daniela, Silvia, Renata e Cintia.
E aí tem um equívoco sério do “Filho de Francisco”. As filhas seguem o padrão do pai, sim. Silvio jamais escondeu sua admiração pelo Presidente da hora. Todos. Isso mesmo, exatamente TODOS os presidentes, desde os últimos militares, foram tratados por Silvio Santos e sua televisão – primeiro TVS e depois SBT – como patrões. Tinha até o quadro “A Semana do Presidente”. Figueiredo, Sarney, Collor, Ithamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro, Lula novamente. Todos eles mereceram a reverência do Homem do Baú, fosse no Palácio do Planalto, fosse nos auditórios e estúdio da Anhanguera, endereço do SBT desde sempre, a “televisão mais feliz do Brasil”, frase do SS que virou slogan.
O tom do Zezé foi pesado, deselegante, de improviso, pouco apurado, mas serviu para chamar a atenção do grande público, mesmo os que não se interessam por canais News, para a estreia da programação de notícias do novo investimento das Abravanel. Um marketing às avessas.
Nas últimas horas já teve publicação de ameaça de processo de um lado e de pedido de desculpas do outro. Resta saber se o navio do Zezé vai encher em sua nova turnê pela costa brasileira e se a audiência do recém-nascido SBT News prosperará. Torço para ambos, sinceramente. Mas, se vale tirar uma lição de tudo isso é que ninguém precisa ser uma coisa só. Nem só artista, nem só político, nem só dono de tv, nem só apresentador. Mas cabe gentileza no encaixe das palavras e respeito a quem faz parte da história da comunicação brasileira. Lá do alto, Silvio não gostou. Nem as colegas de auditório.
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Rogério Silva é Superintendente do Grupo Paranaíba de Comunicação













