Preta e a dupla dor de Gilberto Gil

Gerson Marques
Em 1991, encontrei Gilberto Gil no aeroporto de Ilhéus, e juntos seguimos para Castelo Novo, onde participaríamos de uma manifestação em defesa da Lagoa Encantada. Naquela época, Gil, além de ser um músico de renome internacional, era vereador em Salvador pelo Partido Verde. A conversa durante o trajeto foi longa e, posso dizer, mágica, daquelas em que as frases nem precisam ser completadas, porque o interlocutor já entende tudo na mesma sintonia, na mesma “vibe”.
No retorno, já próximo ao aeroporto, ainda no mesmo dia (sim, naquela época havia vários voos diários entre Ilhéus e Salvador), tomei coragem e toquei em um assunto delicado. Perguntei a Gil como ele, sendo um artista tão sensível, lidava com a perda recente de seu filho, Pedro Gil, que faleceu em um trágico acidente de carro a poucos metros de casa, no Rio de Janeiro.
Foi então que Gil, com sua sabedoria, trouxe à tona a palavra “holística”. Ele me explicou que tudo no mundo está interligado, que todas as coisas têm um sentido, inclusive a morte. Para ele, a morte, como todos os processos naturais, não representa o fim, mas uma passagem, uma mudança de estágio. “Somos estrelas”, disse ele, “fazemos parte do universo, estamos sempre por aqui.”
Essas palavras me marcaram profundamente. Eu já conhecia o termo “holístico”, mas nunca havia ouvido uma definição tão poderosa, capaz de dissolver, naquele momento, qualquer peso ou dor associados à tragédia.
Agora, refletindo sobre a perda de Preta, o segundo filho que Gil perde, tento me colocar em seu lugar, oferecer minha solidariedade na dor. Imagino o quanto ele deve estar devastado. Mas, ao mesmo tempo, lembro-me de suas palavras sobre o mundo holístico e busco conforto nelas. Sei que ele também encontra amparo nessa visão. Afinal, estamos todos de passagem no tempo, nos reciclando naturalmente para a jornada cósmica que sempre empreendemos. Somos, de fato, estrelas, as estrelas de Deus.













