Ernesto Marques F04ED1E5-6FBD-48D1-AC82-32B00993B332

Daqui a pouco, às dez horas da manhã deste 2 de outubro, a “patota” estará reunida mais uma vez. Agora, para uma despedida.
Faltarão alguns, como eu, infelizmente. E ela, do lugar reservado aos espíritos mais elevados que passam por esta vida, certamente vai repetir a queixa das minhas ausências em muitas das reuniões dos amigos ativistas pelos direitos da infância: furófilo!
Nossa amizade nasceu numa mesa de bar, no Boteco do Farias, numa segunda-feira de carnaval, depois de alguma Mudança do Garcia – mais de 15, menos de 20 anos atrás. E virou um amor transcendente, muito especial.
“Se eu fosse um pouco mais nova e você fosse um pouco mais velho, você ia ver o que eu ia fazer com você”, disse-me certa vez, quando me confessou um amor que sabia improvável. As filhas as vezes a repreendiam, algumas amigas até caçoavam. E ela?
Ela não estava nem ai. Curtia o limite quase platônico do seu amor sem descuidar um milímetro de uma amizade pra lá de especial, alimentada pelo sonho compartilhado de um mundo que respeitasse crianças e velhos.
Enquanto ainda podia, viajava muito. Agenda cheia como representante da Pastoral da Criança em eventos sobre direitos das crianças e adolescentes e políticas de assistência social. E sempre me demandava para levar ou buscar no aeroporto. Numa dessas, confessou: era pretexto para estarmos juntos.
Umas poucas horas depois da sua passagem, a lua cheia despontou e trouxe lembranças da patota reunida sob sua liderança, na casa onde viveu dias felizes com a filha Gracinha, na Pedra Furada. Rita Tavarez ao violão, Normando Batista num garrafão de água feito timbal e muitos amigos e amigas que formavam a corte da nossa rainha.
Sim, era mesmo uma rainha. Havia naquela mulher uma majestade intrínseca. E plácida. Não precisava levantar a voz para coordenar uma mesa de conferência. Ninguém a afrontava.
Com a mesma reverência, a patota quase sempre atendia ao seu comando para se reunir em moderadas rodas de samba e cerveja. E em algum momento era preciso cantar Saigon ou Verdade chinesa – adorava Emílio Santiago.
Em dezembro passado, depois de logo intervalo, nos reencontramos no Garcia onde nos conhecemos. Desta vez no Aconchego da Zuzú. Já tinha ultrapassado a casa dos 90 anos, o tempo roubara a postura esguia, mas a elegância e a altivez intactas. Assim como a memória e o afeto.
Brindamos mais uma vez, com cerveja. Às alegrias da vida e ao amor. Ela conheceu minha amada Cybele, autora da foto. Hildete nos abençoou e desejou, doce e sinceramente, a felicidade que acalentou em sonhos. Amor de verdade, incondicional.
Foi o nosso encontro de despedida. Planejamos viajar com ela para o Capão, mas era temerário. Depois veio a pandemia para acabar com nossos planos. Falamos por telefone no dia do seu aniversário.
Mário Lago: “fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem eu fujo dele, nem ele me persegue. Um dia a gente se encontra”. Ontem o tempo e Hildete se encontraram. E por tudo que aconteceu até este 1 de outubro de 2020, uma vida longa e belíssima se encerra com a saudade sem deixar qualquer espaço para a tristeza.

Verdade Chinesa
Era só isso que eu queria da vida
Uma cerveja, uma ilusão atrevida
Que me dissesse uma verdade chinesa
Com uma intenção de um beijo doce na boca
A tarde cai, noite levanta a magia
Quem sabe a gente vai se ver outro dia?
Quem sabe o sonho vai ficar na conversa?
Quem sabe até a vida pague essa promessa?
Muita coisa a gente faz
Seguindo o caminho
Que o mundo traçou
Seguindo a cartilha
Que alguém ensinou
Seguindo a receita
Da vida normal,
Mas o que é vida afinal?
Será que é fazer
O que o mestre mandou?
É comer o pão
Que o diabo amassou
Perdendo da vida
O que tem de melhor?
Senta, se acomoda
À vontade, tá em casa
Toma um copo, dá um tempo
Que a tristeza vai passar
Deixa pra amanhã
Tem muito tempo
O que vale é o sentimento
E o amor que a gente
Tem no coração