Karim Errouaki 

Introdução: O Significado da Liderança para a Paz
O Prémio Nobel da Paz, na sua expressão mais elevada, não é atribuído àqueles que apenas falam a linguagem da paz quando tal lhes é conveniente, mas sim àqueles que a defendem quando isso implica custos, impopularidade e risco político. Historicamente, tem distinguido indivíduos e instituições que incarnam as mais elevadas aspirações da humanidade: a recusa em aceitar a guerra como inevitável, a convicção de que justiça e dignidade são inseparáveis de uma paz duradoura, e a coragem de agir onde outros permanecem em silêncio.

À luz desse critério, um nome merece consideração séria e urgente para 2026: Pedro Sánchez, Primeiro-Ministro de Espanha.

Nos debates contemporâneos em torno do Prémio Nobel da Paz, uma questão tornou-se cada vez mais premente: como se define uma liderança credível para a paz num mundo que já não é dominado por guerras entre Estados, mas por conflitos fragmentados, catástrofes humanitárias e pela erosão progressiva da ordem jurídica internacional?

No seu significado mais profundo, o Nobel nunca foi um instrumento de aprovação simbólica ou conveniência diplomática. Tem distinguido aqueles que agem quando o custo político é elevado, quando o consenso está ausente e quando o silêncio seria a opção mais fácil. É neste contexto que a liderança de Pedro Sánchez merece ser analisada com rigor — não apenas em comparação com laureados recentes como Barack Obama, mas também à luz de uma tradição intelectual mais ampla associada ao conceito de “Cultura de Paz”, desenvolvido por Federico Mayor Zaragoza.

Uma Cultura de Paz Reinterpretada na Prática


A arquitetura intelectual da teoria moderna da paz deve muito a Federico Mayor Zaragoza, que defendeu consistentemente que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas a construção ativa de justiça, dignidade, educação e cooperação multilateral. O seu conceito de “Cultura de Paz” rejeitava o fatalismo nas relações internacionais e afirmava que as instituições políticas devem orientar-se para a prevenção, e não apenas para a reação.

Embora Mayor Zaragoza tenha atuado sobretudo no plano intelectual e institucional da UNESCO, elementos desta visão podem ser identificados — ainda que de forma mais pragmática e centrada no Estado — na orientação da política externa de Pedro Sánchez. A sua abordagem não replica o quadro filosófico da Cultura de Paz, mas traduz, na prática, os seus pressupostos fundamentais: a centralidade do direito, a dignidade humana como eixo da segurança e a indispensabilidade do multilateralismo, mesmo num contexto de fragmentação geopolítica.

Neste sentido, a política externa de Sánchez pode ser entendida como uma forma de pragmatismo aplicado à paz, influenciado — e amplamente consistente — com o legado normativo associado ao pensamento de Mayor Zaragoza.

Uma Liderança Diferente num Mundo Fragmentado
Sánchez destacou-se como um dos poucos líderes europeus dispostos a traduzir compromissos normativos em ação política concreta. Num contexto marcado pela fadiga institucional, pela instrumentalização da migração e pela normalização do sofrimento civil em conflitos armados, Espanha adotou, sob a sua liderança, uma postura diplomática mais explicitamente orientada por valores.

Essa postura assenta em três características: clareza moral no discurso público, divergência seletiva mas significativa face a consensos ocidentais dominantes, e uma preferência consistente por enquadramentos jurídicos multilaterais em detrimento da ação unilateral.

Gaza, Ucrânia e a Reafirmação das Normas Jurídicas
No Médio Oriente, o reconhecimento do Estado da Palestina por Espanha em 2024 — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — representou uma rutura relevante com a prudência diplomática europeia. Esta decisão foi apresentada não como um gesto simbólico, mas como parte de um esforço mais amplo para restaurar a viabilidade de uma solução de dois Estados baseada no direito internacional.

Sánchez foi mais longe do que a maioria dos líderes europeus na sua caracterização pública do conflito em Gaza, utilizando o termo “genocídio”, uma designação que muitos governos evitam devido às suas implicações jurídicas e diplomáticas. Esta posição foi acompanhada por medidas concretas, incluindo restrições à exportação de armas, apoio a processos no Tribunal Internacional de Justiça e limitações à utilização do território espanhol para fins logísticos militares.

Simultaneamente, Espanha manteve um firme apoio à soberania da Ucrânia após a invasão russa, reforçando compromissos no âmbito da NATO, mas sublinhando a necessidade de uma solução negociada baseada no direito internacional. Esta abordagem dual — rigor jurídico combinado com flexibilidade diplomática — reflete uma tentativa consistente de reintroduzir normatividade num sistema internacional cada vez mais fragmentado.

Obama e Sánchez: Duas Fases da Liderança para a Paz
Uma comparação útil pode ser estabelecida com Barack Obama, laureado com o Nobel da Paz em 2009.

O prémio atribuído a Obama teve um caráter largamente antecipatório, refletindo expectativas de mudança em direção ao multilateralismo, à contenção nuclear e a uma reorientação da política externa norte-americana. Embora a sua presidência tenha alcançado avanços significativos, também foi condicionada por limitações estruturais.

Sánchez representa uma fase distinta: não de expectativa, mas de implementação progressiva de políticas num contexto europeu.

Enquanto o Nobel de Obama refletiu uma esperança de transformação, o caso de Sánchez assenta em decisões concretas já adotadas:

Reconhecimento da Palestina num momento diplomático crítico
Resistência institucional a narrativas de militarização
Defesa jurídica do direito internacional humanitário
Regularização em larga escala de migrantes em situação irregular
Política Migratória como Segurança Humana Aplicada
Uma das dimensões mais marcantes da governação de Sánchez foi o programa de regularização de 2026, que concedeu estatuto legal a cerca de 500.000 migrantes.

Num contexto europeu marcado pela securitização, Espanha optou pela integração. Esta política reflete uma leitura estrutural da migração como questão de governação, dignidade e coesão social.

Esta medida constitui uma das expressões mais claras do compromisso com a dignidade humana. Num momento em que muitos países reforçam fronteiras e recorrem a políticas dissuasoras, Espanha escolheu uma abordagem baseada na inclusão.

Sánchez sintetizou esta visão de forma particularmente expressiva:
“Os espanhóis são filhos da migração. Não seremos pais da xenofobia.”

Longe de gerar desordem, esta abordagem foi acompanhada por uma redução significativa da migração irregular, demonstrando que políticas humanas e eficazes podem coexistir.

Multilateralismo numa Era de Pressão Institucional
Sánchez posicionou Espanha como defensora do sistema multilateral num momento de fragilidade institucional.

Tem defendido a reforma — e não o abandono — das Nações Unidas, reforçado o apoio financeiro às suas operações e sublinhado que desafios globais exigem respostas cooperativas.

Esta posição revela continuidade com o pensamento de Mayor Zaragoza: a crise do sistema internacional não justifica o abandono do multilateralismo, mas sim o seu aprofundamento.

Conclusão: Da Cultura de Paz à Política de Implementação
A comparação entre Obama e Sánchez não é de equivalência, mas de contexto histórico.

Obama representou um momento de expectativa. Sánchez atua num período de fragmentação e desconfiança.

O que o distingue é a capacidade de traduzir princípios normativos em políticas concretas. O seu percurso reflete, de forma implícita, o legado de Federico Mayor Zaragoza: a ideia de que a paz é uma responsabilidade política ativa.

Se o Prémio Nobel da Paz pretende manter a sua relevância no século XXI, deverá reconhecer não apenas visões, mas também a difícil tarefa de implementar a paz na prática.

Nesse sentido, Pedro Sánchez representa um modelo europeu emergente de liderança para a paz — situado na interseção entre constrangimento político e ambição normativa, e profundamente alinhado, na prática, com os princípios da Cultura de Paz.

 


O Embaixador Professor Karim Errouaki foi Conselheiro Especial do falecido Secretário-Geral das Nações Unidas Boutros Boutros-Ghali, do falecido Diretor-Geral da UNESCO Federico Mayor Zaragoza, e do falecido John Brademas, que foi Majority Whip da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos e Presidente do Federal Reserve Bank de Nova Iorque.

Atualmente, exerce as funções de Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e Direitos Humanos do UNACCC junto da União Europeia e do Escritório das Nações Unidas em Genebra. É também Enviado Especial para a Diplomacia Multilateral da Global Peace Education Network (GPEN), em Nova Iorque, Presidente Honorário do Observatório Internacional de Diplomacia Territorial (OIDT), em Paris, e Professor Honorário de Finanças Internacionais e Geopolítica na Universidade de Málaga.

Foi distinguido com o Prémio Internacional da Paz Nelson Mandela 2024 (Nelson Mandela International Peace Prize).