Adeus, Gumercindo da Rocha Dorea! O editor de Ilhéus para o Brasil

Efson Lima
Nas academias de letras, após o ingresso da pessoa para a confraria, a imortalidade é uma palavra – chave. E o fenômeno vai se confirmando com a morte paulatina de cada um dos participantes, pois, a morte não confere fim a obra. Esta se perpetua. A imortalidade física foi objeto de desejo entre diversas civilizações. Ele impulsionou o surgimento da química, desenvolveu técnicas de preservação de corpos. Se a imortalidade física não pode ser uma constante, a imortalidade simbólica continua a toda prova, ele se confirma com a literatura, a música, o cinema, a arquitetura, a ciência entre tantas outras áreas.
Tenho pesquisado sobre a Academia de Letras de Ilhéus (ALI) desde 2016. Alguns membros da ALI se notabilizaram no cenário nacional e internacional, outros de feição menos popular mais com enorme contribuição no cenário nacional, por vezes, não recebem o devido tratamento. Alguns por estarem afastados da sua pátria regional, outros por não estarem sob nossos olhares. Não obstante, reza a lenda que santo de casa não faz milagre.
Entre esses que fogem a nossa cabeça, podemos registrar Gumercindo, cuja notícia da morte tomei conhecimento via postagem de Geraldo Lavigne, no Facebook. Gumercindo Dórea faleceu no dia 21 de fevereiro do corrente ano, no domingo passado. Ele era um dos membros mais velhos da Academia de Letras de Ilhéus, tinha 96 anos; ocupava a cadeira de n.º 40. Aparentemente desconhecido em sua terra, foi editor de celebridades nacionais. Talvez, sua postura de viés conservador, como apontou Sérgio Mattos, tenha colocado – o em um patamar de menor prestígio (não somos democráticos): “é um dos mais importantes editores nacionais, apesar de ser relegado e contestado devido às suas ligações com o integralismo”.
O editor Gumercindo da Rocha Dorea contribuiu para o lançamento dos primeiros livros de autores consagrados na atualidade a exemplo de Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Fausto Cunha, Gerardo Melo Mourão, Astrid Cabral e Marcos Santarrita. Ele foi fundador da GDR, uma editora pioneira na edição de livros de ficção científica no país.
No sul da Bahia, pouco repercutiu sobre a morte de Gumercindo Dórea, mas observei registro na Isto É, Horo do Povo, Publishnews, Folha de São Paulo, Uol entre outros canais de notícias. A ex – presidente da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon, em sua rede social, lembrou do seu editor: “Devo tanto a ele. Apostou em mim sem hesitação, com honradez, elegância moral”. A Academia de Letras de Ilhéus publicou informações sobre a morte do editor no blog da entidade.
Sérgio Mattos exemplifica a importância de Gumercindo Dorea para vários escritores baianos ao lembrar das publicações empreendidas pelo editor, independentemente, de ideologias: Vasconcelos Maia, Castro Alves, Oleone Coelho Fontes, Ildásio Tavares, Ivan Dórea Soares, Sérgio Mattos, Jorge Medauar, Wilson Lins, Maria da Conceição Paranhos, José Haroldo Castro Vieira, Adonias Filho, Fernando Hupsel de Oliveira, Telmo Padilha, Cyro de Matos, Rubem Nogueira, Raymundo Schaun, Euclides Neto, Fernando Sales e Claudio Veiga. Sem dúvida, foram publicados com ele muitos notáveis baianos.
As pessoas não morrem, elas permanecem vivas nas memórias dos familiares e amigos. Outras além de permanecerem vivas no seio familiar, entram para a eternidade pelos feitos que fizeram em favor da coletividade. As letras, a ciência, as artes…agradecem.
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Efson Lima – doutor em direito/UFBA. Professor Universitário. Escritor.













