Feliz Ano Novo

Cléber Isaac Filho
Pode escrever sem medo: na Bahia, o ano não começa em 1º de janeiro. Ele começa na Quarta-feira de Cinzas.
Janeiro é mês de fé espalhada pelos largos. As tradicionais festas de largo tomam conta de Salvador: a Lavagem do Bonfim arrasta multidões até a Igreja do Senhor do Bonfim; o Rio Vermelho se veste de branco para a Festa de Iemanjá. Fé, música, comida de rua e economia pulsando em cada esquina.
E o interior acompanha, com identidade própria.
Em Itabuna, a Lavagem do Beco do Fuxico transforma o centro em um grande palco popular. Água de cheiro, blocos, reencontros. O Beco se torna símbolo da prévia carnavalesca do sul da Bahia.
Em Ilhéus, no distrito de Olivença, tradição não é detalhe — é raiz. A irreverente Festa do Poste mostra que o Carnaval também nasce da simplicidade.
E ali mesmo, Olivença guarda uma das manifestações culturais mais fortes do litoral sul: a Puxada do Mastro de São Sebastião. Mais que festa, é rito. É força coletiva. É fé misturada com resistência. Não tem camarote — tem comunidade.
Salvador então entra em ebulição. Trio elétrico afinado, camarotes montados, hotéis lotados. A engrenagem do Carnaval movimenta bilhões.
Mas, na verdade, nada começa de fato.
Projeto importante? Depois do Carnaval.
Contrato grande? Depois do Carnaval.
Decisão estratégica? Depois do Carnaval.
Enquanto o trio está na rua, a Bahia vibra — mas ainda não opera.
E então chega a Quarta-feira de Cinzas.
O silêncio.
A planilha aberta.
A conta chegando.
O foco voltando.
O glitter desce pelo ralo, a fantasia vai para o armário, e a responsabilidade assume o comando.
É ali que o ano realmente começa.
Porque aqui o calendário oficial pode até marcar 1º de janeiro. Mas o verdadeiro Ano-Novo baiano é na Quarta-feira de Cinzas.
Mudando de assunto; quando cai Semana Santa ?













