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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

setembro 2009
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:: 24/set/2009 . 17:33

MANCHA VERMELHA NO PARAÍSO


Descoberta/ocupada pelos portugueses em 1500, redescoberta pelos hippies no final da década de 1970 e ocupada pelos ricos e famosos de todo o mundo a partir da década de 1990, Porto Seguro sempre foi cantada em prosa e verso como a versão terrena do paraíso divino prometido por Deus, depois que Seu Magnífico Esforço de Seis Dias, a criação da Terra, apresentou, digamos, falhas de projeto por conta daquela que parecia ser sua obra-prima: o ser humano.

Terra mágica, de belezas naturais estonteantes e de um astral capaz de relaxar o mais renhido dos estressados, Porto Seguro se transformou num dos principais pólos turísticos do país e ganhou até um aeroporto de padrão internacional, privilégio reservado a poucas cidades de seu porte e que dá bem uma idéia de sua importância.

De pousadas baratas a hotéis ultra-estrelados, Porto Seguro virou uma espécie de Meca do turismo de todos os níveis sócio-econômicos e onde todos convivem na mais perfeita harmonia, seja nas praias sempre lotadas, nos shows que parecem não acabar nunca e nos carnavais que rompem as datas oficiais e duram quase duas semanas.

Porto Seguro de todos os sotaques, todos os idiomas, das lojinhas de artesanato e das lojas de grife, dos restaurantes das comidas simples e baratas e dos estabelecimentos de cozinha internacional e preços na estratosférica.

Enfim, Porto Seguro que é sinônimo de alegria.

Pois é essa cidadã-paraíso (pelo menos para quem a visita e não necessariamente para quem reside lá) que foi manchada de sangue pelo brutal assassinato de Álvaro Henrique Santos, de 28 anos.

Álvaro era presidente do Sindicato dos Professores de Porto Seguro e foi vítima de uma emboscada. Levou um tiro na cabeça, chegou a ser transferido para Salvador, mas não resistiu aos ferimentos.

Na mesma emboscada, morreu outro professor, Elisney Pereira, de 31 anos.

O líder sindical foi atacado num sítio pertencente à sua mãe, feita refém pelos bandidos. A polícia descarta a hipótese de tentativa de assalto e trabalha com a possibilidade de atentado.

Álvaro Henrique Santos comandava uma campanha salarial em Porto Seguro, com ampla mobilização da categoria, que pela primeira vez conseguiu se organizar para reivindicar melhores salários e condições dignas de trabalho.

O presidente do Sindicato dos Professores foi vítima de uma violência inaceitável que se torna ainda mais absurda se for comprovado que ele morreu por conta de sua militância em defesa dos companheiros de profissão.

Não é o caso de transformar o professor Álvaro num mártir, porque é preferível mil vezes o batalhador vivo do que o herói morto.

É o caso, isso sim, de apurar esse crime com rigor e punir não apenas os assassinos, mas também e principalmente os mandantes.

A cidade que tanta gente que aprendeu a gostar não pode se transformar num paraíso de impunidade, um faroeste sem lei.

Que se faça justiça, pois!

UM FILME SOBRE INSEGURANÇA


Imagens colhidas pelo sistema de câmeras de um supermercado de Itabuna e exibido na internet mostram uma mulher sendo roubada enquanto fazia compras.

Ao contrário do que possa parecer, não tem nada a ver com os preços extorsivos cobrados em boa parte dos estabelecimentos do gênero.

Foi roubo no sentido literal, mesmo.

As imagens, feitas de diversos ângulos, focam uma cliente percorrendo as gôndolas do supermercado e enchendo o carrinho de compras.

Mostram também outras clientes circulando, sem despertar qualquer suspeita.

Aos poucos, as imagens vão deixando claro que três mulheres estão menos interessadas nas mercadorias e mais em aproveitar um descuido de alguma cliente para cometer o delito.

E o descuido acontece.

Uma cliente para o carrinho de compras no corredor central e vai até uma prateleira num dos corredores laterais. Desafortunadamente, deixa a bolsa dentro do carrinho.

Em questão de segundos, uma das ladras pega a bolsa, se livra do carrinho que carregava para disfarçar, passa a bolsa para outra ladra, e ambas deixam o supermercado com a cobertura da terceira envolvida no roubo.

As imagens, agora da área externa, mostram as três mulheres no estacionamento do supermercado, caminhando na maior tranqüilidade.

Tudo registrado em detalhes pelas câmeras.

É de se supor, portanto, que o final das imagens mostre as três mulheres sendo detidas pelos seguranças do supermercado e entregues à polícia.

Fiquemos na suposição.

Filmadas à exaustão, numa espécie de big brother do crime, as mulheres fugiram tranquilamente e devem estar aplicando o mesmo golpe em outros supermercados ou até mesmo no próprio local.

Inacreditável que, diante de um roubo filmado com tanta clareza, ninguém tenha se dado ao trabalho de acionar a segurança. Não é para isso que, entre outras coisas, o sistema de vigilância por imagens existe?

É tentador perguntar: se em vez da bolsa de uma cliente indefesa, as mulheres tivessem roubado um quilo de feijão, um pacote de açúcar ou uma lata de leite teriam saído com a mesma tranqüilidade?

Ou teriam sido imediatamente barradas pela segurança?

O fato é que houve uma falha e falhas devem ser corrigidas.

Já não basta a insegurança nas ruas, onde a qualquer momento o cidadão pode ser vítima de um bandido. Até o simples ato de fazer compras se tornou arriscado.

Não dá para ficar tranqüilo nem num ambiente exageradamente vigiado, com câmeras acompanhando cada movimento.

O que se materializou no supermercado em questão, que certamente vai ressarcir a cliente e tomar mais cuidado com a vigilância, foi um filme sobre insegurança produzido por um sistema de segurança.

Você está sendo filmado.

Mas não há porque sorrir.





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